Gomas Naturais

Goma do cajueiro tem uso cosmético

Há milênios, o homem emprega a goma que escorre pelo tronco de algumas árvores para os mais diversos fins. O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma dessas espécies e a aplicabilidade da goma virou tema de pesquisa de iniciação científica orientada pelo professor Daniel Barreto, do Departamento de Processos Orgânicos (DPO) da Escola de Química (EQ). Muito cultivada no Brasil, principalmente para produção de castanha e suco, a planta produz a substância viscosa como mecanismo de defesa mas, segundo Daniel, ela tem múltiplas aplicações. Uma delas é o potencial emulsionante, capaz de ser utilizado pela indústria de cosméticos como ingrediente ativo no tratamento e proteção da pele.

O desenvolvimento da pesquisa poderá, além de agregar valor a um produto brasileiro que praticamente não é utilizado, viabilizar a substituição de compostos sintéticos por um produto natural e biodegradável. A goma do cajueiro, extraída das plantas antigas, pode ser amplamente utilizada e encontra inúmeras aplicações, como espessante, gelificante, emulsionante, estabilizante e aglutinante, nas indústrias alimentícia, farmacêutica e petrolífera. A substância pode ser aplicada, por exemplo, como adesivo de papel e celulose e na área de terapêuticos.

– A idéia era testar os efeitos (da goma) em nova área, como a de cosméticos, que, atualmente, realiza demandas de substituição de produtos derivados do petróleo por produtos naturais –, explica Barreto.

Diversos estudos já foram realizados sobre a goma do cajueiro mas, ao que tudo indica, ela vem sendo sub-aproveitada. Uma outra goma importada do continente africano, a arábica, a adraganta (do Irã) e compostos sintéticos são mais utilizadas para as mesmas funções cosméticas. Para Barreto, é antiprodutivo, ainda mais para um país como o Brasil, onde se encontram pelo território extensas áreas de cultivo do cajueiro.

Daniel Barreto defende o avanço social que a exploração de mais um subproduto do cajueiro traria para o país. Segundo ele, o principal valor do cajueiro está na castanha. “Quando se descobre uma aplicação para um novo subproduto (a goma) há geração de renda, ou seja, de mais possibilidades de exploração econômica para famílias de agricultores”, disse o professor.

Comparações entre a goma do cajueiro e a arábica não são recentes. De acordo com professor, os primeiros estudos sobre esse assunto foram publicados por pesquisadores do Instituto Nacional de Tecnologia, na década de 50. “No entanto, havia outros objetivos. Características da goma arábica foram estudadas, como adesivo, por exemplo, e algumas análises sobre a composição. Nada era convergente, havia uma contradição entre elas”.

Assim como a arábica, a goma do cajueiro também é um polissacarídeo – polímero cuja unidade de formação é o açúcar. A estrutura de formação desses polissacarídeos é o que permite suas aplicabilidades. Segundo o orientador, essas substâncias se encaixam na categoria de hidrocolóides – que têm propriedades de modificar a viscosidade, ou seja, tornar soluções aquosas mais viscosas. “Por exemplo, ao controlar a viscosidade, você faz uma tinta aderir melhor à parede, um tecido receber melhor uma estampa, o cimento aderir melhor em determinado uso”, explicou. No entanto, ambas diferem do ponto de vista do encadeamento das ligações de suas moléculas de glicose, que determinam as propriedades ou o grau delas em cada uma.

A pesquisa

Avaliação de goma de cajueiro “Anacardium occidentale” na estabilidade de emulsões cosméticas foi o tema da pesquisa de autoria de Luciano Dyballa, pelo DPO da EQ, apresentada na 30ª edição da Jornada Giulio Massarani de Iniciação Científica, Artística e Cultural. O aluno foi orientado pelos professores Daniel Barreto, Bernardo Dias Ribeiro e Mariana Miguez de Sá. Resultados do trabalho comprovaram a utilização dessa goma como emulsionante na fabricação de cosméticos.

Luciano Dyballa explica que, para chegar aos resultados, foram realizados experimentos de análise às características reológicas – viscosidade e tensão superficial – da goma de cajueiro, a sua interação com enzimas e outros compostos, bem como, ao seu desempenho na formação de diversos tipos de emulsão. “A partir desses resultados, a goma foi testada em uma série de formulações cosméticas, e os resultados vêm sendo positivos e animadores”, afirmou o estudante.

Fonte: UFRJ