Pecuária

Gargalo da pecuária

O período da seca é literalmente um divisor de águas na bovinocultura de corte do Brasil Central. Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que a estação da seca é que determina a eficiência de desempenho zootécnico do rebanho, como idade de abate, taxa de natalidade e produção de @ por hectare ao ano.

Quanto mais extenso for o período da seca, maiores serão as dificuldades para a produção animal, nestas condições, mais precavido deve ser o produtor rural, para não ter a sua produção e o seu lucro comprometidos pelo período seco.

Normalmente, no Brasil Central as pastagens começam a perder seu valor nutritivo a partir dos meses de abril / maio, quando os dias começam a ficar mais curtos, a temperatura, mais baixa, e as chuvas vão diminuindo até cessarem por completo. As pastagens passam então do verde para o amarelo, o teor de proteína cai, o de fibra sobe, e este cenário se estende até os meses de setembro / outubro, compreendendo um período de cerca de cinco meses de seca, tido como o gargalo da pecuária de corte.

Para não ter que enfrentar queda na produção e dissabores econômicos, o produtor rural deve se precaver antecipadamente, para poder atravessar o período da entressafra sem grandes dificuldades.

A suplementação estratégica no período da seca envolve uma série de práticas de manejo nutricional, das quais se destacam as abaixo relacionadas:

1. Reservar a parte aérea da pastagem para uso na seca por meio de um correto manejo de pastagens.

2. Fornecer suplementos minerais – protéicos para o rebanho no período seco.

3. Conservar forragens na forma de fenos e silagens.

4. Cultivar espécies forrageiras capazes de produzir reservas de alimentos para utilização “in natura” na época da seca (exemplo: cana-de-açúcar).

5. Utilizar como fontes de alimentos resíduos e subprodutos da agroindústria.

6. Utilizar sistemas de irrigação de pastagens.

Todas as estratégias mencionadas acima são passíveis de utilização, cabendo ao produtor rural tomar a decisão de qual sistema implantar, sendo muito comum fazendas que adotam mais de um sistema simultaneamente.

Reservar a parte aérea das pastagens por meio de um correto manejo de pasto, sem dúvida nenhuma, é a mais importante estratégia de manejo a ser adotada nas fazendas de gado a pasto por todo o Brasil.

Para tal façanha, o produtor deve estar atento a conceitos básicos de manejo de pasto, como taxa de lotação, pressão de pastejo e capacidade de suporte das pastagens, sem o qual será impossível manejar o pasto corretamente.

É importante saber que número de animais por unidade de forragem disponível é denominado de pressão de pastejo. Em outras palavras, a pressão de pastejo mostra a preocupação em colocar, em um pasto, um número de animais que esteja em equilíbrio com a produção da forrageira. Na maioria das vezes, o que se observa nas fazendas é um super – pastejo, ou um excesso de animais em relação à disponibilidade de pastagens, quer na época das águas ou da seca. Com isso, a produção animal tende a cair progressivamente pela falta ou baixa qualidade de pastagem. As pastagens, por sua vez, tendem a acumular poucas reservas, vão-se esgotando até a completa degradação, expondo o solo à possibilidade de erosão.

Na maioria das vezes, o super – pastejo ocorre porque o produtor rural acredita que, aumentando o número de animais, a produção de carne e leite também aumentará. Isto de fato ocorre, mas por um curto período de tempo, pois a médio e longo prazo a produção animal diminui, e as pastagens entram no processo de degradação, comprometendo todo o sistema de produção animal a pasto.

O correto manejo das pastagens de gramíneas tropicais deve sempre respeitar a altura na qual a planta é cortada ou pastejada. Dessa forma a pastagem se restabelece rapidamente com conseqüente aumento da produção de massa verde, possibilitando ao produtor rural entrar no período seco com reserva de pastagem.

A Tabela 1 (veja no final do texto como visualizar o artigo em PDF) mostra a altura de pastejo ideal para diferentes variedades de gramíneas tropicais, visando à maximização da produção e do uso das gramíneas em sistema de pastejo rotacionado.

A carga animal adequada não só é importante para a conservação e fertilidade do solo, como também para a planta e para a produção animal. Na prática, controlar o número de animais por unidade de área ao longo do ano é uma tarefa que exige esforço e correto gerenciamento das pastagens. Isto porque, com a chegada do período seco, não só a qualidade, como também a quantidade de pastagem produzida na fazenda, diminui, independente do sistema de manejo de pastagem adotado.

No caso de pastejo contínuo que é caracterizado pela presença dos animais em determinado pasto, o ano todo, a estratégia a ser adotada consiste em alterar a taxa de lotação do pasto, ou seja, quando o produtor dispõe apenas de pastagens, o número de animais por unidade de área deve ser menor no período seco em função da menor capacidade de suporte das pastagens neste período.

No caso de pastejo rotacionado ou diferido, o mais importante é respeitar a altura do corte da forrageira e estabelecer período de descanso suficiente para o restabelecimento da forrageira.

Outra estratégia de manejo importante para o aumento da produção animal no período da seca consiste na utilização de insumos denominados de suplementos minerais protéicos. Esta prática é importante porque o teor de proteína das pastagens, mesmo em pastos vedados é baixo durante a seca e, para manter de maneira positiva o desempenho do gado, faz-se necessário o uso dos sais proteinados.

Os sais proteinados são misturas que estão no mercado brasileiro de insumos agropecuários há alguns anos e estão fazendo muito sucesso entre os criadores. São formulados à base de fontes de minerais, farelos de origem vegetal e uréia. Seu uso visa atenuar a curva de decréscimo do ganho de peso que normalmente ocorre com a chegada da seca. O objetivo principal é impedir o efeito “boi sanfona”, ou seja, quando o animal ganha peso na época das águas e perde na seca.

Para os sais proteinados darem bons resultados, deve haver quantidade adequada de pastos, mesmo que secos, visto que o efeito principal desses produtos é o de aumentar o consumo da palhada seca, ou seja, produzir boi de capim, ou como vem sendo chamado, o boi verde, a grande vocação natural da pecuária de corte brasileira.

Marcos Sampaio Baruselli
Zootecnista da Tortuga / SP

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=138