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Fosfato nas pastagens

O Brasil possui 178 milhões de hectares de pastagens, dos quais, 44% encontram-se em campos naturais e 56% em áreas cultivadas. Nestas, a rápida expansão ocorreu a partir da década de 70. No final da década de 90, a área de pastagens cultivadas, no Cerrado, já ocupava 49,5 milhões de hectares, cerca de 50% da área total de pastagem cultivada no país.

As pastagens no Cerrado, via de regra, foram estabelecidas sem adubação ou valendo-se do efeito residual de modestas adubações na cultura do arroz, sem que houvessem adubações de manutenção. O manejo inadequado destas pastagens foi e continua sendo uma característica marcante desses sistemas extensivos de produção animal a pasto. Como resultado dessa concepção extrativista, a degradação de pastagens avançou rapidamente a partir da década de 80. Atualmente, estima-se que mais de 60% da área de pastagem cultivada, no Cerrado, esteja degradada ou em processo de degradação. Esse cenário se contrapõe ao sucesso obtido na produção de grãos na região e justifica os baixos índices zootécnicos e econômicos, muito distantes daqueles que poderiam garantir sua competitividade e permanência como empreendimento economicamente atrativo.

A ausência de adubação na fase de estabelecimento e a falta de reposição dos nutrientes extraídos pela planta forrageira, durante décadas de exploração, podem ser considerados os principais responsáveis pela degradação das pastagens. Nesse sentido, torna-se necessária a sua recuperação com o uso de corretivos e fertilizantes, de maneira compatível com a disponibilidade do produtor para promover investimentos, respeitando-se as particularidades de cada sistema de produção. Em muitos casos, é necessário aplicar calcário, macronutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, enxofre) e micronutrientes (zinco, cobre, boro, molibdênio, manganês). O fósforo (P) e o nitrogênio (N), no entanto, são os principais nutrientes associados ao processo de degradação das pastagens no Cerrado.

A recomendação de fertilizantes fosfatados na fase de implantação das pastagens no Cerrado, é satisfatória para o estabelecimento adequado das espécies forrageiras. O grande problema ainda reside na adubação de manutenção. Na adubação fosfatada de manutenção é preciso considerar, entre outros aspectos, o nível desejado de produtividade animal; a atividade (cria, recria e engorda), que reflete a categoria animal, a taxa de lotação e o manejo da pastagem, traduzido, por exemplo, pela oferta de forragem e pelo resíduo pós-pastejo.

A adubação de manutenção em pastagens é recomendada com a finalidade de evitar sua degradação e de proporcionar níveis de produtividade que garantam a sustentabilidade do negócio. O fósforo deve ser aplicado a lanço, na superfície do solo, preferencialmente, no início da estação chuvosa. É importante ressaltar que resultados positivos com essa estratégia de adubação são observados quando há resíduos vegetais sobre a superfície do solo e quando a cobertura do solo pela área basal das plantas é adequada, respeitando-se o hábito de crescimento de cada planta forrageira. Nessas condições, a disponibilidade de água próxima à superfície do solo, região onde ocorre a maior concentração de nutrientes e de raízes, é favorecida.

A equipe da Embrapa Cerrados vem trabalhando para aprimorar as recomendações de adubação fosfatada para a região do Cerrado na fase de manutenção. A seguir, apresentam-se os resultados de uma primeira aproximação para fase de recria-engorda. Nesse período da pecuária de corte é que, normalmente, adota-se a adubação de pastagem.

As estimativas de doses de P para a adubação de manutenção, em função das expectativas de produtividade do sistema de recria-engorda (kg/ha de peso vivo), são apresentadas na Tabela 1 (veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF).  Nas situações em que a dose, na fase de manutenção, for inferior a 20 kg/ha de P2O5, é possível realizar aplicações a cada dois anos, do total recomendado para o período. Com isso, reduz-se o custo da aplicação e facilita-se o aspecto operacional da adubação em fazendas comerciais.

Os valores apresentados na Tabela 1 referem-se a uma condição média para a fase de recria-engorda na Região do Cerrado, citando-se: peso vivo dos animais oscilando de 200 a 450 kg, ganho de peso diário variando de 100 a 700 g/cabeça, digestibilidade de 55% e eficiência de pastejo de 50%. Variações nesses indicadores implicam em alterações nas doses de P, embora, para efeito de planejamento, o sugerido na Tabela 1 seja um bom indicativo. A inclusão da digestibilidade e da eficiência de pastejo, nesses cálculos, visa proporcionar uma estimativa da quantidade de matéria seca necessária à obtenção dos níveis de produtividade animal desejados.

Em áreas destinadas à produção de feno, silagem ou capineiras, a reposição do P deve ser feita com base na estimativa da quantidade de matéria seca removida da área. Sugere-se adotar um teor de P no tecido vegetal de 0,15%; assim, em cada tonelada de matéria seca, estarão sendo exportados 1,5 kg de P ou 3,5 kg de P2O5.

A possibilidade de se empregar em menores quantidades de P no estabelecimento da pastagem, prevendo, porém, o uso de adubações de manutenção em quantidade e freqüência adequadas, parece ser uma estratégia viável na produção de forragem. Essa estratégia permite melhorar o fluxo de caixa dos investimentos em adubação fosfatada. Ressalta-se, também, que a análise bioeconômica da adubação fosfatada em pastagens deve considerar o investimento e a resposta animal em médio e em longo prazos, a fim de contabilizar o efeito residual do P no solo. Quando isso é feito, a adubação com P, em pastagens, mesmo em sistemas que operam com eficiência moderada de uso dos recursos, torna-se atrativa economicamente.

Autores:
Djalma Martinhão Gomes de Sousa, Geraldo Bueno Martha Júnior e Lourival Vilela
Embrapa Cerrados

* Este artigo foi publicado na edição número 13 da revista Cultivar Bovinos, de novembro de 2004.

Fonte: http://www.portalruralsoft.com/manejo/manejoExibe.asp?id=177