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Flora apícola

Sem flores não há néctar; sem néctar não há mel; sem mel não há abelhas.

Essas relações simples fazem-nos ressaltar o transcendental papel das flores na Apicultura.

 

Tanto é eminentemente importante esse papel na Apicultura que, de atividade extremamente fácil, cômoda e econômica (em lugares ricos em flores! ), transforma-se em exploração difícil, penosa e altamente antieconômica (em lugares pobres em flores).

Sim, porque o mel é o alimento das próprias abelhas; cio excesso de sua produção é que tiram os homens as vantagens econômicas. Ora. se o local é inadequado para a Apicultura, devido ì ausência de pasto para as abelhas, elas muito mal conseguirão o indispensável para sua própria alimentação e consequentemente nada reverterão para lucro do apicultor.

 

A flora é pois o mais importante fator de progresso de uma exploração apícola, donde o apicultor deverá ter conhecimentos relativos às. essências principais do lugar, épocas de florescimento etc. Já falamos rapidamente sobre esse assunto ao tratarmos da Apicultura migratória. No entanto aqui procuraremos, dada a sua importância, alongar-nos um pouco mais, sem descer no entanto a detalhes por demais profundos.

 

Ressente-se a Apicultura nacional de um trabalho de cunho extensivo .sobre as plantas nectaríferas e poliníferas, com dados sobre espécies, variedades, épocas de florescimento, concentração dos açúcares do néctar, coloração do pólen, métodos de propagação do vegetal etc. Há apenas trabalhos esparsos de levantamentos locais destinados a outros fins que não apícolas e algumas investidas mais arrojadas no próprio terreno da Apicultura (Érico Amaral – Estudos Apícolas em Leguminosas, e Nogueira Neto – Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão). Um aluno nosso, (Engenheiro Agronomo Procópio Belchior) do Curso de Especialização de Zootecnia (1959), realizou um trabalho muito bom sobre a flora do Estado da Guanabara, em que compilou uma enorme variedade de plantas de valor para a Apicultura, com as épocas de florescimento.

 

Procuraremos, após uma explicação sobre a secreção do néctar e os fatores que sobre ela influem, dar uma relação das plantas nectaríferas e poliníferas mais importantes para a Apicultura.

 

A SECREÇÂO DO NÉCTAR

 

A maior parte do néctar aproveitado na Apicultura brasileira provém de plantas nativas, não cultivadas ou de essências florestais. É natural que o apicultor possa melhorar o pasto para suas abelhas, através de propagação de plantas apícolas (nectaríferas ou poliníferas) nas suas terras bem como nas terras vizinhas.

 

Outrossim as autoridades governamentais podem incrementar essa propagação bem como defender a vegetação já existente. através dc-adequados dispositivos legais.

O néctar é a secreção açucarada, proveuieute da seiva vegetal transformada em órgãos especializados, os nectários florais; porém êstes podem também ser localizados fora das flôres (nectários eztraflorais) como na mamona e no algodoeiro. O uéctar apresenta os seguintes açúcares, perfeitamente identificados segundo Goldschmidt e Burkert: sacarose, cpies-tose, melezitose e rafinose. Existe também o falso néctar, produzido pelos insetos afídios; não nos interessa no entanto.

 

Há uma infinidade de plantas que produzem néctar em elevada quantidade e, no entanto, as abelhas não as visitam.

 

A explicação mais lógica é que a procura das plantas pelas abelhas se baseia em diversos fatores:

 

Concentração de açúcar do néctar (as abelhas preferem os néctares com elevada concentração de açúcar; assim, se há 2 plantas em floraçâo n;i mesma ocasião, em igualdade de outras condições as abelhas preferirão a que tem néctar mais concentrado, isto é, menos aguado );

 

Gosto das abelhas, isto é as abelhas preferem o néctar de certas plantas ao de outras. talvez por esse néctar apresentar melhor aroma e sabor para elas;

 

Possibilidade de acesso aos nectários (é natural que, se uma planta tem néctar de elevada concentração e que poderia ser agradável às abelhas, porém os nectários são fechados ou protegidos por tecidos quaisquer, as abelhas não podem sugar o néctar e, portanto, desinteressam-se pela planta). Fim exemplo disso é a papoula-de-são-francisco (sem valor comercial para a Apicultura), cujos nectários são muito fundos e fechados, donde a abelha desprovida de aparelho mandibular cortador não pode chegar até êles; no entanto um besouro rói a corola, junto à base e a abelha, através do orifício, consegue sugar algum néctar. (Érico Amaral, em seus “Estudos Apícolas em Leguminosas”, verificou várias vêzes fatos idênticos a esse) ;

 

Escassez de alimentos: se há falta completa cìe néctares de elevada atração para as abelhas, elas recorrerão às plantas de néctares inferiores, premidas que sejam pela fome.

 

Isto explica a importância de plantas nectaríferas ou poliníferas que, de pouco significado comercial em época de fartura, transformam-se em valiosa ajuda para minorar a fome das abelhas em época de acentuada escassez. É o caso na nossa região do amor-agarradinho, da esponja e da marianeira.

 

Ressaltamos quatro fatores incidentes na preferência das abelhas por determinadas plantas. No entanto quase sempre o fator preponderante é a concentração de açúcar do néctar. Isto é fácil de explicar por um raciocínio muito elementar que coloca em evidência o notável instinto das abelhas: o conteúdo de açúcar do mel, como já sabemos é quase totalmente formado de glicose e levulose. Ora, esses dois açúcares são obtidos pelo desdobramento da sacarose (principal açúcar cio néctar) pelas enzimas do próprio néctar ou produzidos pelas abelhas. Logicamente, quanto mais concentrado for o néctar (isto é, quanto mais sacarose contiver), mais glicose e levulose fornecerá, com a mesma quantidade de néctar. Portanto, os néctares mais concentrados permitem obter, com o mesmo trabalho (igual número de viagens para colher o néctar e mesma atividade para evaporar a água) maior quantidade de mel. Daí resulta a importância da seleção, tanto quando possível, das espécies de plantas mais ricas em néctar e. dentro de uma mesma espécie. das variedades que apresentam maior concentração.

 

Esse trabalho de levantamento da concentração do néctar das plantas é feito com auxílio do refratômetro de campo, aparelho provido de lentes e de uma escala graduada que dá as leituras diretas da concentração do néctar em açúcares. Já existem desses aparelhos fabricados no Brasil. O néctar pode ser recolhido diretamente nas flores ou pegando uma abelha coque o esteja recolhendo e apertando a sua boca contra o vidro do refratômetro: ela expele uma gotinha de néctar que é então medido.

 

A flora apícola é o que se pode chamar de pastagem das abelhas. É das flores que as abelhas recolhem o néctar e o pólen, que vão alimentar a colônia.

 

Conseqüentemente, boas fontes de pólen e néctar contribuem para aumentar a produção do apiário. Por isso, sempre que possível, o apicultor deve planificar a formação do pasto apícola antes mesmo da instalação do apiário.

 

Há plantas que produzem flores com elevada concentração de néctar, outras que produzem bastante pólen e outras ainda que fornecem igualmente pólen e néctar. Infelizmente, não existe o chamado pasto apícola ideal. Uma espécie vegetal de alto potencial apícola- o eucalipto, por exemplo, pode não se adaptar à sua propriedade. Aliás para o apicultor iniciante, o pasto apícola composto por monocultura deve ser evitado, por proporcionar alimento às abelhas durante uma única época do ano. A exploração do pasto apícola de monocultura sé se justifica na atividade comercial, quando o apicultor realiza a chamada apicultura migratória. Neste caso, o produtor leva suas colméias a pomares ou culturas de floração, transferindo – as para o outro pasto assim termina a florada.

 

A apicultura fixista, praticada principalmente por pequenos produtores, sitiantes, hobbistas e iniciantes, é mais indicada exploração do pasto apícola constituído por espécies nativas, principalmente árvores que, pela sua diversificação, podem garantir alimento às abelhas continuamente, ainda que, em pequenas quantidades. A partir daí, cabe ao apicultor promover o melhoramento dessa pastagem, introduzindo variedades de maior valor apícola, desde que adaptadas à região onde se situa a propriedade. culturas de médio porte e arbustivas, de alto potencial apícola, devem ser cultivadas próximas ao apiário. Algumas boas fontes de néctar e pólen que podem melhorar a alimentação das abelhas são melilotus, manjericão, manjerona, cosmos, guandu, colza, girassol, citros, frutíferas em geral, curcubitáceas (abóbora, abobrinha, melão, pepino etc.), leguminosas de uma forma geral, hortaliças, entre outras.

 

Até as chamadas plantas daninhas são excelentes fontes de alimento para as abelhas. Plantas como o assapeixe, carqueja, vassourinha, gervão, trapoeraba, sete – sangrias, vassoura, picão, entre tantas outras consideradas matos devem ser encaradas como fontes de néctar e pólen para as abelhas.

 

Não deixe também de cultivar, próximo ao apiário, plantas aromáticas e medicinais, pois seu odor atrai muito as abelhas e diversificara ainda mais as fontes de alimento das colônias.

 

Uma palavra final: o mais importante, na formação do pasto apícola, é que o apicultor

procure identificar as espécies mais apropriadas e adaptadas a sua propriedade. Um exemplo: a astrapéia (lombeija). Essa planta tem a vantagem de florescer em pleno inverno garantindo, assim, alimento à família num período de escassez. No Rio de Janeiro, apresenta uma concentração de 28 a 44% de açúcar em seu néctar, enquanto em Florianópolis, SC, não concentra mais de 15% de açúcares.

 

Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/abelhas/flora-apicola.php