Pecuária

FAEMG: A difícil tarefa de produzir leite

06/10/2016

Presidente do Sistema FAEMG escreveu comunicado nesta quinta-feira (6.10)

Roberto Simões

Presidente do Sistema FAEMG

A irresistível vocação mineira para produção de leite mantém o estado como primeiro produtor nacional, com cerca de 30% do total.

Mas Minas tem condições de aumentar ainda muito esta produção, via aumento de produtividade, tornando-se o estado – e o país – exportadores também deste produto; o que, aliás, o mundo espera, pelas próprias projeções da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

A FAEMG vem procurando apoiar e incentivar a produção leiteira no estado, especialmente por meio do programa Balde Cheio, que já está presente em mais de 350 municípios e tende a crescer, racionalizando a atividade, via gestão adequada, viabilizando renda e o retorno das famílias às propriedades.

Isto se dá apesar de um quadro de extrema elevação de custos, segundo confirmam os dados dos levantamentos do projeto Campo Futuro, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Federações. Na outra mão, ainda não se conseguem a sensibilidade e o conhecimento suficientes dos governos e suas políticas públicas para esse crescimento, ou mesmo a sustentabilidade almejada.

Esta lacuna contribui para a desorganização do mercado, resultando em alta volatilidade, ora com preços muito elevados, ora muito baixos, ambos descontroladores do mercado, desaguando em momentos críticos como o que vivemos agora.

Recentemente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) produziu a IN 26, permitindo a reidratação de leite em pó para produção de leite UHT ou UAT para consumo interno (na região Nordeste do país), contrariando o artigo 6º da Portaria nº 196/1994, do próprio Ministério, que proíbe esta prática desde 1994, por considerá-la danosa à produção nacional.

Antes pensada para vigorar apenas por três meses, a IN foi autorizada pelo prazo de um ano, atendendo aos interesses de apenas uma empresa, com atuação no Nordeste, desconsiderando assim os interesses de produtores e agroindústrias de todo o país, inclusive do próprio Nordeste.

Uma vez que os preços internacionais estão abaixo dos nacionais, ocorreu uma avalanche de importação de leite em pó, 86% maiores no acumulado de 2016 quando comparada com igual período de 2015. E o saldo negativo de 305 milhões de dólares na balança comercial de lácteos. O estado do Espírito Santo, sintomaticamente, lidera as importações, com 31% do total.

Há cerca de um mês, fui portador de uma correspondência, tecnicamente justificada, da CNA, entregue ao presidente Temer, pedindo a revogação desta nefasta medida, que desorganizou todo o mercado.

Não se trata de fechar o país às importações, porque sabemos que a participação no mercado deve ter mão dupla. Mas é preciso organizar-nos para proteger a produção nacional, como fazem os outros países.

A iniciativa privada conseguiu firmar acordo com a Argentina, regulando o fluxo importador, mas o Uruguai se nega a fazê-lo, sendo responsável por 58% do volume importado.

A conclusão de tudo isto é que o oligopolizado mercado comprador brasileiro de leite já está anunciando queda de 40 centavos ou mais por litro, antes da safra que ainda não começou, desestabilizando e, mais uma vez, decepcionando o produtor nacional.

Fonte: FAEMG – Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais