Pecuária

Estresse psicológico em bovinos leiteiros

Ao contrário do que muitos imaginam, os bovinos estão, sim, sujeitos ao estresse psicológico. Este tipo de estresse – psicológico – está relacionado basicamente ao medo, seja de outros animais de seu próprio grupo, seja do homem (tratador) ou medo de qualquer situação nova que o animal possa perceber. É importante que o produtor considere que qualquer situação estressante para o animal pode alterar o bem-estar e consequentemente, reduzir a produtividade final de seu sistema.

 

Em criação de bovinos leiteiros, onde os animais são criados em espaços restritos, as interações entre animais e entre estes e o homem são exacerbadas, e, portanto, diversas situações estressantes podem ser vividas em um único dia.

 

Em relação às interações estressantes entre os próprios bovinos podemos citar a competição por alimento e manutenção do território, como o cocho, o bebedouro ou o local para descansar. Antes de aprofundarmos nossas considerações sobre as interações entre bovinos, devemos considerar que estes são animais gregários e que, portanto, possuem uma rígida hierarquia social baseada na força e agilidade de cada membro dentro de um grupo durante a luta.

 

Assim, ao introduzirmos animais novos em um lote, este animal deverá “interagir” com cada um dos outros até “encontrar” seu local na escala social daquele grupo. Este fato adquire grande importância em bovinocultura de leite quando remanejamos fêmeas entre lotes de acordo com a sua produção em kg de leite e sua necessidade de consumo de concentrado. Assim, a fêmea remanejada deverá se confrontar com cada uma das outras vacas do lote até que encontre sua posição na hierarquia social do grupo que passou a pertencer. Como conseqüência, deslocará energia da produção de leite para o embate e assim, sua produção diminuirá (assim como a daquelas com quem se confrontou e que lutaram para manter sua posição) o que acarretará, em última instância, a redução da produtividade do sistema em até 10%.

 

A partir do momento em que a hierarquia social é estabelecida, no entanto, os embates diminuem e, conseqüentemente o estresse também. Cada animal, já sabendo sua “posição” dentro do grupo, vai agir tal qual sua posição permite: as vacas mais fortes, em geral aquelas com chifres e mais pesadas e maiores, as ditas dominantes, têm prioridade quanto à alimentação, consumo de água e local de descanso. Isso significa que comem primeiro, bebem primeiro e têm oportunidade de escolher onde querem descansar, em detrimento das vacas “submissas”, as mais fracas e menores.

 

Problemas como este, relacionados à hierarquia social dos animais podem ser minimizados ou até mesmo resolvidos com o dimensionamento correto das instalações, sendo recomendado o mínimo de 30 cm no cocho e no bebedouro por vaca. A utilização de bebedouros com 60 cm linear logo na saída da sala de ordenha também é apropriada, visto que as vacas saem da ordenha com muita sede sendo este, talvez, o momento de maior atrito entre as mesmas por um espaço no bebedouro.

 

As situações estressantes relativas à interação bovino-homem em produção de leite estão principalmente relacionadas ao contato íntimo necessário em um manejo intensivo como as aplicações de medicamento e vacinas, a marcação a ferro, a descorna, a pesagem e a ordenha diária. Novamente é importante ressaltar que qualquer situação nova para o animal, ou seja, situações não familiares, pode ser considerada pelo mesmo como um fator estressante. Este tipo de medo é denominado neofobia e tem especial interesse quando os animais precisam entrar em contato com situações diferentes das costumeiras como transporte, intervenções cirúrgicas ou permanência em locais estranhos como exposições agropecuárias.

 

O medo de humanos e a aversão à novidade variam entre indivíduos em decorrência de experiência prévia e também da genética, visto que o temperamento é uma característica herdável.

 

A exposição gradual de um animal a experiências novas pode acostumá-lo a estímulos que anteriormente evocariam uma reação de fuga. Bovinos em manejo constante e em íntimo contato com pessoas são normalmente menos estressados que aqueles que raramente vêem pessoas ou que foram ou são mal-tratados. Neste contexto, é importante que bovinos de leite jovens tenham um manejo tranqüilo, não aversivo, e até mesmo carinho no início de sua vida a fim de se familiarizar com humanos e permitir um mais fácil manejo no futuro. Particular importância deve ser dada ao manejo de bezerras e novilhas, que poderão ser as futuras matrizes da propriedade e aos machos selecionados para a reprodução.

 

Neste contexto percebe-se então a importância que o tratador, aquele que lida diretamente com o animal todos os dias, tem dentro da propriedade e na produtividade final do sistema. Assim, a seleção do tratador deve ser baseada em um questionamento inicial: – Você gosta de trabalhar, de ter contato, com bovinos de leite? Em seguida, o produtor deve ter em mente que, mesmo o tratador que trabalha com vacas leiteiras desde a infância e que gosta do que faz, precisa de treinamento para que elimine vícios que porventura possua e que estressam sobremaneira os animais como: gritaria, batidas, choques, torcida de rabo. Estes “estímulos” são extremamente estressantes para as vacas.

 

Em relação à genética é recomendável que aquelas fêmeas mais assustadiças, briguentas, sejam paulatinamente eliminadas da propriedade, pois muito provavelmente suas crias herdarão esta característica. O produtor então deve pesar na balança não apenas a produção da vaca, que pode até mesmo ser muito elevada, mas também o trabalho que a mesma dá nas práticas de manejo rotineiras na propriedade (e que estressam até mesmo o tratador…) e o efeito negativo de sua dominância sobre as demais fêmeas do rebanho. Será que sua produção é elevada o suficiente para compensar a redução na produção de leite das fêmeas submissas ou os riscos a que o tratador está sujeito?

 

Assim, percebe-se que apesar do estresse psicológico diário a que os bovinos leiteiros estão submetidos serem ainda pouco considerados pelos produtores ligados a esta atividade, práticas simples e de baixo custo (como a redução da gritaria e o tratamento carinhoso) podem ter grande influência na simplificação do manejo na propriedade e, conseqüentemente, no lucro final da mesma.

 

Danielle Azevêdo

Pesquisadora – EMBRAPA/CPAMN

René Souza de Araújo

Mestranda do CCA – UFPI

 

Fonte: http://www.agronline.com.br/artigos/artigo.php?id=363&pg=3&n=3