Determinados fatores podem alavancar produção agrícola, diz entomologista

28/01/2014

Cultivar, clima e manejo são fatores determinantes para a produção agrícola. A escolha da cultivar varia conforme as intenções do produtor aliada à realidade do ecossistema de sua região e propriedade. O clima é uma variante na qual ele não tem muito controle, exceto, prevenir-se e o manejo, esse sim, é uma ferramenta a ser utilizada, adequadamente, por ele, e em tempos de sustos com a Helicoverpa armigera, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) é garantia de ganhos econômicos e ambientais. Todavia, apesar dos resultados evidenciados pela pesquisa, o MIP ora é esquecido ora é conduzido erradamente pelos produtores rurais e lembrado quando uma nova praga surge. 

Seus princípios para a cultura da soja consistem em uso do pano-de-batida para o monitoramento dos insetos, tomada de decisão de controle apenas quando os níveis de ação preconizados pela pesquisa sejam atingidos e utilização de produtos recomendados e seletivos. A eficiência do MIP depende dessas referências. O monitoramento da área e o conhecimento sobre o assunto também colaboram para a eficiência do programa de manejo.

“A cultura da soja tem um alto potencial produtivo que de encontro aos fatores de estresses bióticos e abióticos sofre riscos consideráveis de produtividade. As estratégias de manejo possibilitam que a cultura expresse seu maior teor produtivo”, ressalta o entomologista Crébio José Ávila, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em Dourados-MS.

O especialista explica que a ocorrência e a distribuição de pragas variam de acordo com os estádios de desenvolvimento da cultura. A fase VE, emergência, é dominada pelas lagartas. Ao final dessa etapa até a V2, segundo nó e primeiro trifólio aberto, os insetos de solo e superfície chegam para desestabilizar o sistema. Já na V1, primeiro nó e folhas unifolioladas abertas, as lagartas desfolhadeiras e as brocas aparecem permanecendo até a fase R2, floração plena, e da V3, terceiro nó e segundo trifólio aberto, a R6, vagens com granação de 100% e folhas verdes, a mosca branca, os percevejos, as lagartas e os ácaros são os companheiros de uma lavoura de soja.

Classificadas em iniciais, intermediárias e tardias, o entomologista Crébio destacou algumas. A começar pelos corós, os quais provocam destruição de plântulas. Entre as táticas de controle, o tratamento de sementes e a pulverização do sulco são indicados. Para a lagarta elasmo, ele menciona uma fiscalização baseada na quebra do ciclo da praga na dessecação, pulverização da cobertura, inseticidas aplicados nas sementes e produtos que apresentam sistemicidade.

Para o tamanduá-da-soja, a estratégia mais importante, conforme o cientista da Empresa, é limpar a área, para isso o produtor deve rotacionar o sistema com uma cultura inadequada ao tamanduá, como o milho e o algodão no centro da área e soja ou feijão nas bordas. Caracóis e lesmas danificam a base das plântulas, se alimentam dos brotos, causam perfurações e consomem as bordas das folhas. “Podem comprometer o desenvolvimento das plantas, reduzir o estande das lavouras e diminuir a produtividade”, destaca Crébio. Para esses moluscos há moluscicidas formulados com metaldeído, por exemplo, e iscas caseiras.

A enorme gama de lagartas faz de seu manejo imprescindível, destaque para a falsa-medideira, que nas últimas safras passou de uma praga secundária para primária. A aplicação exagerada de inseticidas sem critério técnico afetou as populações dos inimigos naturais, que controlavam naturalmente a medideira, e o uso de fungicidas não seletivos no combate à ferrugem asiática causaram, segundo o entomologista, um desequilíbrio e consequente acréscimo na população de lagartas. “Todos preocupados com a Helicoverpa, ela chegou, focamos nela e nos esquecemos da falsa-medideira, mas essa lagarta vem causando prejuízos às lavouras de soja e dando trabalho à pesquisa”, revela Crébio. De hábito diferente da lagarta-da-soja, a medideira, continua o pesquisador, é mais tolerante a inseticidas e doses maiores são necessárias.

O especialista reforça o MIP com a Helicoverpa armigera e aponta como maior problema a sua mobilidade. “Na fase adulta, ela migra até mil quilômetros. Também tem alta capacidade de reprodução, mais de 3 mil ovos/fêmea, é de rápido desenvolvimento, ataca mais de 180 espécies de plantas e tem capacidade de desenvolver resistência a pesticidas. Tudo isso a torna uma praga séria”, avalia.

Os percevejos fitófagos formam um complexo de risco para a cultura da soja e conseguem causar grandes danos. Com as suas picadas, para se alimentarem, atingem diretamente os grãos em formação, afetando o rendimento e a qualidade da planta. O especialista recomenta o uso de inseticidas seletivos para o controle, o monitoramento após o florescimento, a utilização de produtos e doses efetivas, a rotação de ingredientes ativos nas aplicações, a maior precisão na aplicação na lavoura e para cultivares médias e tardias, aplicação nas bordaduras. “Um controle precoce pode frear o crescimento populacional do percevejo”, também enfatiza.

Por fim, Crébio Ávila, alerta quanto aos ataques da mosca branca. Tal inseto suga a seiva debilitando a planta. Além disso, é transmissor do vírus da necrose-da-haste e ao se alimentar, continuamente, a mosca expeli nas folhas uma substância que favorece a formação de fumagina e “então se instala o problema. A fumagina dificulta a captação dos raios solares, reduzindo a taxa fotossintética das folhas o que provoca a queima da planta pela radiação solar”.

E os desafios não param aqui, para o pesquisador José Fernando Grigolli, da Fundação MS, há pela frente o monitoramento dos capins, das culturas de inverno como crotalária e nabo forrageiro e o momento exato da tomada de decisão, “por isso se o produtor não fizer o monitoramento dificilmente acertará o produto e a dose na hora certa. Uma amostragem bem definida reduz o número de aplicação, custo de produção, resistência de insetos e riscos ambientais”. As mudanças dos sistemas de cultivo alteraram esse universo e o produtor precisa “ficar de olho não somente na Helicoverpa, mas olhar o todo, transformar a crise em uma oportunidade”, finaliza o entomologista Crébio Ávila.

O assunto Manejo Integrado de Pragas foi tema do último painel desta edição do Showtec, em Maracaju-MS. Promovido pela Fundação MS, entidade de pesquisa agropecuária sul-mato-grossense, o evento congrega instituições de pesquisa e empresas mais atuantes na produção de alimentos e energia do Brasil e do mundo, entre elas, a Embrapa, representada por suas Unidades – Agropecuária Oeste (Dourados-MS), Gado de Corte (Campo Grande-MS), Pantanal (Corumbá-MS), Suínos e Aves (Concórdia-SC), Soja (Londrina-PR), Pecuária Sudeste (São Carlos-SP) e Milho e Sorgo (Sete Lagoas-MG).

Caravana Embrapa – Esta semana a Caravana Embrapa de Alerta às Ameaças Fitossanitárias estará em Mato Grosso do Sul. Dourados (28/01), Naviraí (29/01) e São Gabriel do Oeste (30/01) serão as cidades visitadas. A Caravana Embrapa conta com o apoio da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

Fonte: Agrolink
Autor: Dalízia Aguiar