Equipamentos para Produção de Leite

Descarte: uma ferramenta muito útil

Por manejo se subentende operação, manuseio, utilização de meios, direcionamento, avaliação, prudência e tomadas de decisão na condução de sistemas de produção. Significa o uso consciente de princípios técnicos, aproveitamento efetivo da mão de obra, utilização racional e eficiente dos recursos disponíveis, e ação administrativa firme objetivando resultados econômicos na exploração de bovinos para a produção de leite.

Na realidade, manejo é mais do que a simples condução da rotina diária de trabalhos na fazenda, como alimentação, ordenha, inseminação artificial, vacinações, aleitamento de bezerros etc., até porque ações de gerenciamento do processo produtivo devem também fazer parte das atividades rotineiras.

Não existe no País tradição de incluir o descarte como prática de manejo, porque somente refugos são geralmente eliminados dos rebanhos por causa de acidentes, problemas sérios nos cascos, mastite crônica, perda de tetas e incapacidade de reprodução. Esse tipo de descarte é caracterizado como involuntário, pois a eliminação se dá não por escolha, mas, sim, por causa de ocorrências não programadas.

Quando o número de refugos é muito grande, isso indica que existem problemas na condução da atividade. Por exemplo, na análise de rebanhos leiteiros de alta produção se observou em um recente estudo que 86% dos descartes efetuados eram involuntários, aparecendo como causas principais: reprodução inadequada (35%), mastite (22%), problemas com pernas e pés (17,9%), acidentes e traumatismos (4,4%); todos, indicativos de deficiências operacionais.

Por outro lado, dados de descartes de fazendas conduzidas de modo mais eficiente indicaram que somente 43% destes eram involuntários, sendo que os problemas reprodutivos respondiam por 22%, e os casos de mastite, por 8% das causas de eliminação de matrizes.

A reprodução é uma das causas mais comuns para a retirada involuntária de animais do rebanho, pois se trata de uma característica difícil de ser controlada, pelo fato de ser influenciada por um número muito grande de fatores e porque interfere decisivamente na economia do processo produtivo. A ampliação do intervalo entre partos promove redução significativa na quantidade de leite produzido.

No País, geralmente não se detectam nas fazendas esforços no sentido de melhorar a eficiência do rebanho para a produção de leite, com a eliminação de animais que se afastem da média, que apresentem reprodução irregular, que não possuam persistência de produção, que revelem fluxo lento de leite na ordenha, que mostrem temperamento bravio, ou qualquer outra característica que interfira negativamente na eficiência do processo produtivo.

Esse tipo de descarte é chamado de voluntário porque o produtor escolhe os animais que devem sair do rebanho objetivando a manutenção de um plantel com boa produtividade e mais uniforme, características indispensáveis para se conseguir resultados econômicos significativos. O descarte voluntário deve ser uma prática usual no manejo de fazendas que gerenciam o processo produtivo com sucesso, eliminando ineficiências com o objetivo de melhorar a geração de receitas e a racionalização dos custos de produção.

Por exemplo, se matrizes com baixa persistência de produção permanecem no rebanho, a capacidade de produção diminui porque a porcentagem de vacas em lactação continua pequena durante o ano, fato que aumenta o numero das fêmeas que não produzem, mas eleva os gastos com manutenção. Se a persistência de produção for baixa e o intervalo entre partos for dilatado, o número de vacas em lactação por ano reduzirá consideravelmente e a produção de leite será bastante deprimida.

As taxas anuais de descarte são variáveis e dependem da pressão que se queira estabelecer para uma seleção mais efetiva no rebanho. Taxas de 20% são apontadas como adequadas por permitirem uma possível renovação completa em cinco anos, visto que matrizes idosas também devem deixar o plantel por perda de vitalidade e falta de condições para competir com as novilhas que, teoricamente, devem ser melhores do que as mães.

Entretanto, é possível optar pelo uso de taxas de descarte maiores visando melhorar a qualidade do rebanho e acelerar a uniformização do plantel. Quando o descarte é consciente e o manejo é adequado, o rebanho se torna diferenciado e pode receber, então, a denominação de selecionado, obtendo assim reconhecimento por produtividade e eficiência.

 

Fonte: Revista Balde Branco – Nº 586 – Agosto 2013

Vidal Pedroso de Farias – Professor da Esalq Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – USP e membro do conselho editorial de Balde Branco.