Soja

Custo alto exige lavoura planejada e produtiva

29/10/2013

 

Capital utilizado equivale a 2,5 mil quilos de soja por hectare em MT, o que limita receita líquida a 20% e reduz margem de manobra. No Paraná, despesas consomem 2 mil kg/ha

Os agricultores brasileiros terão de investir pesado no campo para tirar da terra as cerca de 90 milhões de toneladas de soja e as 33 milhões de toneladas de milho prometidas para a safra que está começando. A alta do dólar abriu uma via de duas mãos para o setor: sustenta os preços dos grãos, mas encarece os custos das lavouras. E o aumento do limite de crédito oficial não cobre os reajustes nos preços dos insumos em boa parte das regiões agrícolas.

Os investimentos em semente, fertilizante e agrotóxico levaram os custos totais da lavoura para o mais alto valor da história em Mato Grosso, conforme levantamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). No estado, que é líder nacional em colheita de grãos, as plantações de soja estão exigindo R$ 2,34 mil por hectare, 23% a mais do que no ano passado. Ou seja, os custos consomem o equivalente a 2,5 mil quilos da oleaginosa por hectare, se considerado o preço de R$ 55,7 por saca praticado nesta segunda-feira (28/10) em Sorriso.

No Paraná, segundo maior produtor, o valor também passa dos R$ 2 mil por hectare, mas a alta no ano é de 10%. Cálculos da Secretaria da Agricultura (Seab) apontam para um custo total de R$ 2,2 mil por hectare, incluindo depreciação de maquinário e remuneração pelo uso da terra. Só para cobrir esse custo, é necessário produzir 2 mil quilos de soja por hectare, considerando o preço atual, de R$ 66,70 por saca de 60 quilos.

Esses números mostram que a margem da soja caiu a menos de um terço, considerando a média de 3 mil quilos por hectare. Na última temporada, o índice chegava a 45% da renda bruta. E a ampliação dos custos não foi acompanhada pelo aumento do crédito. Com os recursos oficiais destinados ao custeio da safra, os produtores conseguiriam plantar 255 hectares em Mato Grosso e 272 hectares no Paraná. O limite de crédito por CPF subiu de R$ 500 mil para R$ 600 mil neste ano, ou seja, 20%.

Vendas atrasadas

No estado do Centro-Oeste brasileiro, os custos ameaçam diretamente a rentabilidade da safra, afirma Otávio Celidônio, superintendente do Imea. “Os produtores venderam em média 40% da produção esperada, a um preço médio de R$ 49 a R$ 50 por saca. Se o restante da safra for vendido a uma média de R$ 44 ou R$ 45 por saca, as contas devem ficar empatadas. A margem dessa safra está muito apertada”, resume.

No caso de Mato Grosso, nem a antecipação das compras dos insumos foi suficiente para amenizar as despesas. Além disso, o estado ainda não considera aumento de aplicação de agrotóxicos no campo, que tende a ser generalizado. O ataque da lagarta Helicoverpa armigera às lavouras tem preocupado o setor produtivo. A praga é considerada uma forte ameaça por conta da dificuldade para controlar sua disseminação. Em algumas regiões produtoras do estado do Centro-Oeste, o inseto chegou a atacar plantas logo após a germinação.

“Para nós do Paraná, a Helicoverpa ainda não é problema. Fizemos um questionamento em todo o interior e a nenhum técnico reclamou da praga”, afirma Francisco Simioni, chefe do Departamento de Economia Rural (Deral), órgão ligado à Seab. Ele ressalta que a compra antecipada dos insumos no Paraná, via cooperativas, impediu maiores altas nos custos de produção do estado.

“Considerando uma série histórica de 2003 a 2012 observamos que o volume de insumo entregue durante o primeiro semestre do ano vem aumentando 2,51% ao ano, enquanto que o volume entregue no segundo semestre vem diminuindo em 1,37% ao ano”, relata David Roquetti Filho, diretor executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).

Estimativas de consultorias contratadas pela entidade apontam que o volume de entregas de fertilizantes no Brasil será da ordem de 30,5 milhões de toneladas, um novo recorde. Em 2012, foram 29,537 milhões de toneladas, conforme estimativa da GO Associados.

 

Fonte: Gazeta do Povo
Autor: Cassiano Ribeiro