Equipamentos para Produção de Leite

Cruzamentos para aumentar sólidos

Produtores e pesquisadores fazem diferentes cruzamentos de raças visando elevar a produçao de sólidos no leite. Com isso, melhoram gordura e proteína, e também outros fatores

Luiz H. Pitombo

Cada vez mais, o produtor está sendo requisitado a ficar atento a qualidade do leite, conferindo fatores como a contagem de células somáticas, a bacteriana e o índice de sólidos. Certo é que diferentes açoes podem influenciar tais números, como ocorre com a alimentaçao, para a gordura e a proteína. Mas é a genética, por meio do cruzamento de raças, a maneira mais segura e duradoura de se otimizar esses teores, além de se obter outros benefícios.
No dia-a-dia, tanto produtores como pesquisadores fazem suas experiencias. Uns testam o que já se conseguiu com sucesso no Exterior, outros procuram novos cruzamentos, na esperança de estabelecer um caminho que mais lhes convenha. A comprovaçao real é demorada e depende de um bom acompanhamento com registros criteriosos. Isso ainda nao é muito freqüente na pecuária leiteira brasileira, o que evidentemente restringe conclusoes mais objetivas nessas circunstâncias.
Uma das cruzas que mais tem sido destacada é a da raça Jersey com Holandesa, tanto que a associaçao nacional da primeira dá como exemplo este procedimento, como também o cruzamento com o Girolando, como responsáveis pelo bom incremento nas vendas de semen dos seus reprodutores. No ano passado, já apareceu a comercializaçao, embora modesta, de semen do Jersolando brasileiro no relatório da Asbia-Associaçao Brasileira de Inseminaçao Artificial.
Diferentes países utilizam este cruzamento, sendo o exemplo mais freqüente e contundente o da Nova Zelândia. Para verificar seus resultados nas condiçoes brasileiras está em andamento um estudo, desde 2002, no campus da Ufscar-Universidade Federal de Sao Carlos, de Araras-SP. O número de animais em avaliaçao nao é grande, totaliza 15 femeas Jersolando. Porém, a apuraçao de dados está se aprofundando, e os resultados, até agora, tem sido promissores.
O professor Jozivaldo Prudencio Gomes de Morais, que conduz a pesquisa, conta que sao observados diferentes aspectos ligados a produçao e a reproduçao, através das várias lactaçoes. Um ponto fundamental é o aumento dos sólidos, visando a um mercado que se volta para isso. Como outros, ele aponta que o pagamento diferenciado é a forma de estimular o produtor a se preocupar mais com esse aspecto. Morais comenta que uma evoluçao de 1% nos teores já representa muito em termos do volume trabalhado pela indústria.

Morais: efeito por heterose

O rebanho utilizado como base da pesquisa na Ufscar é de Holandes PB, composto de 20 vacas procedentes do Uruguai, e o semen de Jersey é dos Estados Unidos. Os animais recebem concentrado e sao mantidos, nas águas, em pastos de mombaça rotacionados, e na seca, recebem cana-de-açúcar. Sobre a questao de se usar raças puras, ele comenta que nos cruzamentos, por meio da heterose, é possível aproveitar o que há de melhor nos diferentes grupos genéticos, aumentando a resistencia, reproduçao e produçao dos animais.

Jersolando na direçao do tricross – Os sólidos na pesquisa com os cruzados Jersolando meio-sangue (os 3/4 estao começando a produzir) “tem apresentado uma expressiva diferença, embora com teores abaixo dos do Jersey”, observa Morais. Eles estao, em média, com 6,07% de gordura, 3,00% de proteína e 4,47% de lactose, contra 4,08%, 3,05% e 4,31%, respectivamente, do Holandes PB. No total da lactaçao, o Holandes e o cruzado produziram em torno de 4.400 kg, com o Jersolando rendendo até um pouco mais; contudo, a diferença nao é significativa, pondera o pesquisador.
A idade ao primeiro parto do cruzado foi de 25,8 meses, e de 28,4 meses, para o puro, enquanto o período do parto até o cio ficou em 40,3 dias para o primeiro grupo, e em 70,8 dias, para o segundo. O retorno da concepçao mais tardia desse grupo, de acordo com Morais, pode estar relacionado a questao do estresse térmico desta raça mantida a pasto numa regiao quente. Outros a relacionam a questoes envolvendo a consangüinidade na raça.
Em relaçao aos cascos dos animais cruzados, nao se identificaram problemas. Um aspecto limitante do ponto de vista econômico pode ocorrer como resultado do sistema de produçao. Isso porque, como afirma, em vacas mantidas em free-stall se pressupoe um grande volume de produçao por animal, e aí, o Holandes rende muito mais.
Morais enfatiza que as pesquisas ainda estao em andamento e que espera um maior número de lactaçoes acumuladas e avaliadas; hoje, em número de quatro. Ele deseja estudar aspectos da longevidade, englobando produçao, fertilidade e cascos. Também irá estudar os hábitos de pastejo, como o tempo, horários e a taxa de bocado, pois lembra que em outros países sao utilizadas gramíneas que nao existem por aqui e o clima é diferente. Para dar continuidade a esse cruzamento, uma possibilidade, segundo Morais, seria o sistema “vai e volta”, alternando o semen das duas raças.

Jersey com Holandes apresenta resultados animadores na Ufscar

A pesquisa também enfoca, agora, os efeitos de uma terceira raça, a Sueca Vermelha, com os primeiros animais tricross nascidos devendo entrar em produçao no ano que vem. A meta é ver o resultado considerando que a heterose irá se manter mais elevada do que a alternância com duas raças, conseguindo com isso um resultado semelhante aos do meio sangue. A idéia é, depois, voltar com Holandes, Jersey e, de novo, com a Sueca Vermelha.
Esta raça, como indica Morais, tem características interessantes para o Brasil, pois está habituada a ficar um bom tempo solta no pasto, tem um porte robusto similar ao do Holandes e apresenta bons níveis de produçao, reproduçao e de sólidos; estes, ficando um pouco acima do Holandes, mas um pouco abaixo do Jersey. A raça já é pesquisada e utilizada em cruzamentos em outros países e por vários criadores no Brasil.

Girolando e as raças européias – Outro estudo que verificou os impactos de cruzamentos na qualidade do leite, na reproduçao e, principalmente, em relaçao ao retorno econômico, aconteceu por intermédio da Embrapa Gado de Leite. Ele foi realizado pelos pesquisadores Roberto Luiz Teodoro, desta instituiçao, e por Fernando Enrique Madalena, professor da Escola de Veterinária da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais.

Madalena: tricross surpreende

Foram 14 anos de coleta de dados envolvendo a análise de um total de 480 lactaçoes de 75 animais por toda sua vida produtiva. A base do rebanho foi resultante de cruzamentos entre Holandes e Gir, obtendo-se animais com vários graus de sangue, para posteriormente serem inseminados formando tres grupos para avaliaçao: um com a volta do Holandes, outro com Jersey e um com o Pardo-Suíço. A maioria do semen utilizado era procedente dos Estados Unidos e do Canadá.
Na análise econômica, entram os custos do concentrado, pastagem, volumoso, ordenha, dentre outros. Como receita, se considerou a venda do leite, novilhas excedentes e o descarte de vacas. O sistema de produçao adotado foi o da cria artificial das bezerras, com a venda dos machos ao nascer. Assim, suas conclusoes nao devem ser extrapoladas para outro tipo de manejo. No estudo, foram calculadas quatro situaçoes diferentes de pagamento do leite, desde a que nao remunera por sólidos até a que paga mais pela proteína; menos pela gordura e com desconto pelo veículo (volume).
Madalena comenta que o maior lucro, em todas as condiçoes de pagamento, ficou com o tricross de Jersey. Isso, por serem animais de menor porte, que exigiram um gasto mais baixo com a mantença. Mostraram-se mais férteis, com a média do primeiro parto acontecendo aos 2,68 anos, contra 3,07 anos do Holandes e 3,17 anos do Pardo-Suíço. Sua vida útil atingiu 8,12 anos, em média, com parando com 7,24 anos do Pardo-Suíço, e 6 anos, do Holandes.
Quanto aos teores de gordura e proteína, estes se mostraram mais elevados no cruzamento com o Pardo-Suíço, 3,77% e 3,16%, respectivamente, vindo, logo a seguir, a Jersey, com 3,73% de gordura e 3,10% de proteína. Mas o pesquisador afirma que a rentabilidade ficou menor com a Pardo-Suíço, por aspectos como a entrada mais tardia em reproduçao.
Ele ressalta que o pecuarista deve analisar todo um conjunto de fatores para determinar qual tipo de animal é realmente mais lucrativo. Uma alternativa para dar continuidade ao tricross de Jersey, como sugere Madalena, seria voltar com o Gir quando os animais apresentarem 7/8 ou mais de sangue europeu. A ele, se seguiria o Holandes, e depois, o Jersey.

Tres raças em seqüencia – A Granja Arnetra, de Ponta Grossa-PR, há oito anos realiza o cruzamento de tres raças em seqüencia, tendo por base um rebanho Jersey. Os principais objetivos sao longevidade, volume de produçao e sólidos elevados.
Com a genética em sua totalidade sendo norte-americana, as vacas Jersey sao inseminadas primeiramente com Holandes VB. Essas filhas sao depois emprenhadas com Ayrshire, e as netas, com Guernsey, para depois retornar ao Jersey e, assim, sucessivamente. A pelagem vermelha, segundo o criador Wanderson Francisco, dono da granja, é uma questao de mercado, pois existem clientes que preferem esta cor nos animais que comercializam. Mas comenta que as duas outras raças que usa após a Holandesa VB produzem mais sólidos do que esta e sao mais rústicas. Por outro lado, acredita que se utilizasse o Holandes PB, poderia melhorar seus resultados, pois esse tipo dispoe de mais opçoes de touros.
Ele explica que dá continuidade ao trabalho que era realizado pelo seu sogro. “Antes, fazíamos cruzamentos de Jersey com Holandes PB, mas passamos a adotar as demais raças para manter uma heterose de quase 100%”, afirma o produtor. O rebanho atual da propriedade é de 215 cabeças, com 120 vacas em lactaçao manejadas em free-stall, que lhe rendem em torno de 3.000 kg de leite/dia. Quando esse trabalho começou, diz que a meta era chegar a um terço do rebanho com cruzadas, e o restante, de Jersey. Hoje, já está com 50% de cruzadas e diz que agora a meta é atingir 2/3 de cruzadas e um terço de Jersey.
O proprietário tem um bom controle das várias etapas do cruzamento. O rebanho de Jersey tem uma produçao média ajustada de 8.000 kg de leite em 305 dias, com 5% de gordura e 3,6% de proteína. No primeiro cruzamento, o volume sobe para 9.500 kg, com a gordura ficando entre 3,7 e 3,8%, e a proteína, entre 3,3% e 3,4%. Nas duas etapas seguintes, a produçao total se mantém em 9.500 kg, os teores de gordura ficam entre 3,9% e 4%, e a proteína, em 3,4%. A alimentaçao que fornece é a base de silagem de milho, pré-secado de azevém e concentrado, realizando tres ordenhas diárias. O lote puro, no qual os animais pesam cerca de 450 kg, é manejado separadamente das cruzadas, que tem peso médio de 550 kg a 580 kg.
Francisco afirma que a queda no teor de sólidos das cruzas frente ao Jersey puro é compensada pelo maior volume de produçao, 1.500 kg a mais por lactaçao, e também pelos sólidos ali contidos. Ele tem isso “na ponta do lápis”, pois recebe adicional de 2,4% pela proteína, e de 6,9%, pela gordura, a partir de um preço-base. A contagem de células somáticas e o resfriamento também lhe rendem bônus. Outro benefício importante que destaca é a longevidade, que, nas cruzadas, fica na média de 7,3 anos, embora tenha vacas de 14 anos em produçao. No rebanho Jersey, diz que a média é de 6 anos, com as mais velhas atingindo 10 anos. Ele acredita que os resultados desse cruzamento possam ser também alcançados em manejos a pasto.

Girolando é base para outros cruzamentos visando mais gordura e proteína

Cruzamentos para produzir queijo – Martin Breuer, produtor da regiao de Itapetininga-SP, mantinha na Fazenda Santa Luzia duas raças, a Holandesa PB e a Simental, com sua dupla aptidao. Entretanto, para conseguir um melhor destino e comercializaçao para os machinhos da primeira raça, passou a cruzá-la com a Simental.
Na época, ainda entregava sua produçao de leite a um laticínio, mas posteriormente montou uma queijaria artesanal. Foi nessa ocasiao que começou a dar real importância aos teores de sólidos no leite, que, na Simental, sao superiores. A partir daí, seu trabalho se direcionou para estabelecer um rebanho dessa raça, por meio de cruzamentos absorvendo a Holandesa. Nela, foi buscar um aumento na produçao de leite e qualidade de úbere. Breuer, que é jurado da raça Simental, avalia que em seu rebanho PC em formaçao, os úberes estao num patamar de médio para bom, com vários excelentes.
Atualmente, a fazenda tem cerca de 75 cabeças, com 29 vacas em diferentes estágios de lactaçao, sendo a maioria de Simental PC, rendendo um total de 350 litros de leite/dia. Considerando os dados médios do controle leiteiro de diferentes animais, realizado perto de 60 dias pós-parto, as vacas Simental PO estavam produzindo 16,02 litros/dia com 3,85% de proteína, 3,56% de gordura e 4,57% de lactose. Os animais PC estavam rendendo um pouco mais em volume, 16,53 litros, com teores de 3,84%, 3,65% e 4,52%, respectivamente. Nas vacas meio sangue, na primeira etapa do cruzamento, a produçao foi de 16,51 litros, com 3,81% de gordura, 3,35% de proteína e 4,46% de lactose, enquanto na Holandesa, esses teores estavam em 3,49%, 3,25% e 4,41%, respectivamente.
Martin Breuer ressalva que a produçao efetiva dos seus animais é maior, mas opta por manter os bezerros junto as vacas Simental para uma melhor cria, aliado a alimentaçao por meio do sistema creep feeding. Além do que, lembra que os animais nao estavam no pico da lactaçao quando o controle foi realizado. Independentemente disso, enfatiza que seu rebanho tem potencial para render mais, e que isso vai aparecer quando melhorar a nutriçao dos animais, que, hoje, é econômica.
Breuer destaca ídices de Simental com cruzamentos absorvendo Holandes

FONTE: REVISTA BALDE BRANCO