Reprodutivo

Cruzamentos para aumentar sólidos no Leite

Cruzamentos para aumentar sólidos

Cada vez mais, o produtor está sendo requisitado a ficar atento à qualidade do leite, conferindo fatores como a contagem de células somáticas, a bacteriana e o índice de sólidos. Certo é que diferentes ações podem influenciar tais números, como ocorre com a alimentação, para a gordura e a proteína. Mas é a genética, por meio do cruzamento de raças, a maneira mais segura e duradoura de se otimizar esses teores, além de se obter outros benefícios.
No dia-a-dia, tanto produtores como pesquisadores fazem suas experiências. Uns testam o que já se conseguiu com sucesso no Exterior, outros procuram novos cruzamentos, na esperança de estabelecer um caminho que mais lhes convenha. A comprovação real é demorada e depende de um bom acompanhamento com registros criteriosos. Isso ainda não é muito freqüente na pecuária leiteira brasileira, o que evidentemente restringe conclusões mais objetivas nessas circunstâncias.
Uma das cruzas que mais tem sido destacada é a da raça Jersey com Holandesa, tanto que a associação nacional da primeira dá como exemplo este procedimento, como também o cruzamento com o Girolando, como responsáveis pelo bom incremento nas vendas de sêmen dos seus reprodutores.
No ano passado, já apareceu a comercialização, embora modesta, de sêmen do Jersolando brasileiro no relatório da Asbia-Associação Brasileira de Inseminação Artificial. Diferentes países utilizam este cruzamento, sendo o exemplo mais freqüente e contundente o da Nova Zelândia. Para verificar seus resultados nas condições brasileiras está em andamento um estudo, desde 2002, no campus da Ufscar-Universidade Federal de São Carlos, de Araras-SP. O número de animais em avaliação não é grande, totaliza 15 fêmeas Jersolando. Porém, a apuração de dados está se aprofundando, e os resultados, até agora, têm sido promissores.
O professor Jozivaldo Prudêncio Gomes de Morais, que conduz a pesquisa, conta que são observados diferentes aspectos ligados à produção e à reprodução, através das várias  lactações. Um ponto fundamental é o aumento dos sólidos, visando a um mercado que se volta para isso. Como outros, ele aponta que o pagamento diferenciado é a forma de estimular o produtor a se preocupar mais com esse aspecto. Morais comenta que uma evolução de 1% nos teores já representa muito em termos do volume trabalhado pela indústria.
O rebanho utilizado como base da pesquisa na Ufscar é de Holandês PB, composto de 20 vacas procedentes do Uruguai, e o sêmen de Jersey é dos Estados Unidos. Os animais recebem concentrado e são mantidos, nas águas, em pastos de mombaça rotacionados, e na seca, recebem cana-de-açúcar.
Sobre a questão de se usar raças puras, ele comenta que nos cruzamentos, por meio da heterose, é possível aproveitar o que há de melhor nos diferentes grupos genéticos, aumentando a resistência, reprodução e produção dos animais.

JERSOLANDO NA DIREÇÃO DO TRICROSS

Os sólidos na pesquisa com os cruzados Jersolando meio-sangue (os 3/4 estão começando a produzir) “têm apresentado uma expressiva diferença, embora com teores abaixo dos do Jersey”, observa Morais.
Eles estão, em média, com 6,07% de gordura, 3,00% de proteína e 4,47% de lactose, contra 4,08%, 3,05% e 4,31%, respectivamente, do Holandês PB. No total da lactação, o Holandês e o cruzado produziram em torno de 4.400 kg, com o Jersolando rendendo até um pouco mais; contudo, a diferença não é significativa, pondera o pesquisador. A idade ao primeiro parto do cruzado foi de 25,8 meses, e de 28,4 meses, para o puro, enquanto o período do parto atéo cio ficou em 40,3 dias para o primeiro grupo, e em 70,8 dias, para o segundo.
O retorno daconcepção mais tardia desse grupo, de acordo com Morais, pode estar relacionado à questãodo estresse térmico desta raça mantida a pasto numa região quente. Outros a relacionam a questões envolvendo a consangüinidade na raça. Em relação aos cascos dos animais cruzados, não se identificaram problemas. Um aspecto limitante do ponto de vista econômico pode ocorrer como resultado do sistema de produção. Isso porque, como afirma, em vacas mantidas em free-stall se pressupõe um grande volume de produção por animal, e aí, o Holandês rende muito mais. Morais enfatiza que as pesquisas ainda estão em andamento e que espera um maior número de lactações acumuladas e avaliadas; hoje, em número de quatro.
Ele deseja estudar aspectos da longevidade, englobando produção, fertilidade e cascos. Também irá estudar os hábitos de pastejo, como o tempo, horários e a taxa de bocado, pois lembra que em outros países são utilizadas gramíneas que não existem por aqui e o clima é diferente.
Para dar continuidade a esse cruzamento, uma possibilidade, segundo Morais, seria o sistema “vai e volta”, alternando o sêmen das duas raças. A pesquisa também enfoca, agora, os efeitos de uma terceira raça, a Sueca Vermelha, com os primeiros animais tricross nascidos devendo entrar em produção no ano que vem. A meta é ver o resultado considerando que aheterose irá se manter mais elevada do que a alternância com duas raças, conseguindo com isso um resultado semelhante aos do meio sangue. A idéia é, depois, voltar com Holandês, Jersey e, de novo, com a Sueca Vermelha.
Esta raça, como indica Morais, tem características interessantes para o Brasil, pois está habituada a ficar um bom tempo solta no pasto, tem um porte robusto similar ao do Holandês e apresenta bons níveis de produção, reprodução e de sólidos; estes, ficando um pouco acima do Holandês, mas um pouco abaixo do Jersey. A raça já é pesquisada e utilizada em cruzamentos em outros países e por vários criadores no Brasil.

GIROLANDO

Outro estudo que verificou os impactos de cruzamentos na qualidade do leite, na reprodução e, principalmente, em relação ao retorno econômico, aconteceu por intermédio da Embrapa Gado de Leite.
Ele foi realizado pelos pesquisadores Roberto Luiz Teodoro, desta instituição, e por Fernando Enrique Madalena, professor da Escola de Veterinária da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais. Foram 14 anos de coleta de dados envolvendo a análise de um total de 480 lactações de 75 animais por toda sua vida produtiva.
A base do rebanho foi resultante de cruzamentos entre  Holandês e Gir, obtendo-se animais com vários graus de sangue, para posteriormente serem inseminados formando três grupos para avaliação: um com a volta do Holandês, outro com Jersey e um com o Pardo-Suíço.
A maioria do sêmen utilizado era procedente dos Estados Unidos e do Canadá. Na análise econômica, entram os custos do concentrado, pastagem, volumoso, ordenha, dentre outros. Como receita, se considerou a venda do leite, novilhas excedentes e o descarte de vacas. O sistema de produção adotado foi o da cria artificial das bezerras, com a venda dos machos ao nascer.
Assim, suas conclusões não devem ser extrapoladas para outro tipo de manejo. No estudo, foram calculadas quatro situações diferentes de pagamento do leite, desde a que não remunera por sólidos até a que paga mais pela proteína; menos pela gordura e com desconto pelo veículo (volume). Madalena comenta que o maior lucro, em todas as condições de pagamento, ficou com o tricross de Jersey. Isso, por serem animais de menor porte, que exigiram um gasto mais baixo com a mantença. Mostraram-se mais férteis, com a média do primeiro parto acontecendo aos 2,68 anos, contra 3,07 anos do Holandês e 3,17 anos do Pardo-Suíço.
Sua vida útil atingiu 8,12 anos, em média, com parando com 7,24 anos do Pardo-Suíço, e 6 anos, do Holandês. Quanto aos teores de gordura e proteína,estes se mostraram mais elevados no cruzamento com o Pardo-Suíço, 3,77% e 3,16%, respectivamente, vindo, logo a seguir, a Jersey, com 3,73% de gordura e 3,10% de proteína. Mas o pesquisador afirma que a rentabilidade ficou menor com a Pardo-Suíço, por aspectos como a entrada mais tardia em reprodução.
Ele ressalta que o pecuarista deve analisar todo um conjunto de fatores para determinar qual tipo de animal é realmente mais lucrativo. Uma alternativa para dar continuidade ao tricross de Jersey, como sugere Madalena, seria voltar com o Gir quando os animais apresentarem 7/8 ou mais de sangue europeu. A ele, se seguiria o Holandês, e depois, o Jersey.

RAÇA HOLANDESA


É inegável a superioridade da vaca Holandesa na produção de altos volumes de leite, particularmente em sistemas mais intensivos. Esta capacidade de grande produção de leite e de seus componentes faz com que a raça Holandesa seja reconhecida hoje por sua alta lucratividade, particularmente em períodos de justa remuneração pelo litro de leite.
Por ser a raça bovina de maiores produções de leite, tem sido a raça de escolha em diversas regiões, tanto no Brasil como em outros países. No Brasil, além das regiões de clima mais ameno onde a raça Holandesa já é explorada há muitas décadas, poderíamos citar a escolha da raça Holandesa em novos projetos leiteiros no estado de Goiás, hoje o segundo maior produtor de leite nacional, ou ainda no sudoeste paranaense, regiões até pouco tempo atrás consideradas inóspitas para uma raça européia especializada.
A principal qualidade da raça Holandesa é a sua extraordinária capacidade de produzir grandes volumes de leite. Por causa do seu sucesso como uma raça de altas produções leiteiras, por longos períodos de lactação, a raça Holandesa tem uma demanda crescente em todo o mundo.
Outro ponto a ser destacado é o notável melhoramento alcançado na raça Holandesa em volume (ou quilogramas) dos componentes gordura e proteína. Embora a raça Holandesa seja corretamente associada com a produção de leite com os mais baixos teores de gordura e de proteína é importante salientar que o mais importante para a indústria são volumes de componentes, e não seus percentuais.

A raça Holandesa é a raça leiteira que produz as maiores quantidades de gordura e de proteína, até mesmo superiores a raças reconhecidas pela excepcional composição do seu leite.A raça Holandesa tem que continuar a se preocupar com características de saúde, resistência e conformação que afetam a lucratividade vitalícia da vaca leiteira. É evidente que para dar retorno econômico a um produtor exige-se que esta vaca permaneça um tempo mínimo no rebanho.

Fonte : REHAGRO E RODRIGO ALMEIDA MÉDICO VETERINÁRIO