Trigo

Crise do trigo será levada ao governo federal

14/11/14 – 13:52
Luiz Eduardo Kochhann

A Frente Parlamentar da Agricultura, capitaneada pelo deputado gaúcho Luis Carlos Heinze (PP), pretende buscar uma solução para as perdas na safra de trigo junto ao governo federal. A apresentação de uma proposta ao Ministério da Agricultura, para renegociação dos passivos dos agricultores e para a comercialização dos grãos, depende, entretanto, de uma avaliação da qualidade da colheita. Os parlamentares, representantes dos agricultores e da indústria, Emater, Embrapa e agentes financeiros estiveram reunidos ontem, na Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), para discutir o assunto.

A preocupação gira em torno, principalmente, dos seguros privados, que não cobrem a baixa qualidade do grão, levando em conta apenas a quantidade obtida. Ou seja, são casos em que o produtor pode colher um volume considerável, mas um trigo sem condições de ser comercializado para alimentação humana e, em alguns casos, nem para ração. “Não adianta colher 30 sacas sem qualidade e ter que vender a preço baixo ou nem conseguir negociar. Por isso, vamos encaminhar até a próxima semana uma proposta ao Mapa e ao Banco Central para renegociar esse saldo, que não estará coberto por parte dos seguros”, explicou Heinze. A indústria, as cooperativas e cerealistas se comprometeram em apresentar pareceres sobre o estado dos grãos conforme a colheita avançar.

O Banco do Brasil e a Sicredi, instituições que, juntas, financiaram quase 900 mil hectares dessa safra, colocaram-se a disposição para uma possível renegociação de dívidas de produtores. Dos 15,3 mil acordos firmados pelo primeiro agente bancário, quase 14 mil foram acionados até o momento. A segunda firmou 12 mil contratos e recebeu, até ontem, 9,1 mil comunicados de perda. Nesses casos, a boa notícia é que 23 mil do total de contratos dos dois bancos são referentes ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) e ao Proagro Mais, que também amparam perdas na qualidade. “Não temos dúvidas de que os produtores terão um passivo ao fim da safra. Mas estaremos abertos a uma possível prorrogação de prazos e apresentação de um novo penhor ou avalista”, garantiu o gerente de agronegócios da superintendência estadual do Banco do Brasil, João Paulo Comerlato.

Quase 13 mil triticultores gaúchos comunicaram perdas na produção

O gerente técnico, Dulphe Pinheiro Machado Neto, apresentou o levantamento da Emater sobre a situação em seis regiões. Com 72% da colheita finalizada, foram realizados, ao todo, 12,9 mil comunicados de perda por agricultores. A região de Ijuí, maior área plantada do Estado com 330 mil hectares, registra perdas de 45% até o momento. Além disso, Santa Rosa, com 300 mil hectares, registra danos de 60%; Frederico Westphalen e Passo Fundo com 130 mil e 95 mil hectares, respectivamente, têm números 50% e 30% abaixo do esperado; por fim, Soledade e Erechim contabilizam diferença negativa de 50% e 40% entre a projeção e o que foi colhido. “Até podemos ter uma produtividade média entre 1,2 mil e 1,5 mil, mas, nesse caso, a preocupação seria com qualidade”, alerta Neto.

O diretor do Sindicato da Indústria do Trigo, Andreas Elter, afirmou que a maioria do volume que chegou aos moinhos, até o momento, não pode ser utilizado para alimentação humana devido ao baixo PH e a presença, acima do recomendável, da micotoxina desoxinivalenol, conhecida como DON. “Esse trigo não pode ser processado. Pode ser que não tenha qualidade nem para ração animal. Ou seja, a indústria tem demanda, mas vamos precisar avaliar o que está chegando e mesclar com trigo importado ou comprando o que está estocado da safra gaúcha passada”, destacou.

De acordo com o chefe-geral da Embrapa Trigo, Sergio Roberto Dotto, “o ano foi catastrófico” para o cultivo, especialmente na região Noroeste. As condições climáticas adversas – excesso de umidade e temperaturas elevadas – favoreceram o aparecimento da brusone, doença rara no Rio Grande do Sul e de difícil controle mesmo com aplicação de fungicidas. O fungo giberela ainda teve 50% de incidência. “Houve excesso de chuva na semeadora, na floração e na fase de enchimento do grão. E o quadro ficou ainda mais complicado porque foi impossível entrar no campo para fazer o controle das pragas”, lamenta Dotto. A Embrapa ficou encarregada de avaliar a possibilidade de utilizar os grãos de baixa qualidade para alimentação animal.

Conab realiza leilões Pepro de trigo e de venda de arroz

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) realizou, nesta quinta-feira, um leilão de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro) de trigo e outro de venda de arroz. O primeiro ofertou um prêmio relativo para venda e escoamento de 208 mil toneladas de trigo em grãos, negociando 72,5 mil toneladas, cerca de 34,8% do pregão.

Foi oferecido prêmio para o trigo oriundo dos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, sendo negociadas 18,1 mil toneladas da região 1 do Paraná  e 54,4 mil toneladas do produto gaúcho, com gasto total previsto de R$ 5,5 milhões.

O Pepro é um incentivo econômico oferecido pelo governo federal ao produtor rural ou a sua cooperativa que queiram vender seu produto, no caso o trigo e o algodão, pela diferença do preço mínimo e o valor equalizado arrematado no leilão. O arrematante deve escoar o produto para localidades estabelecidas. A finalidade da operação é estimular a distribuição do produto em excesso em uma região para outras mais necessitadas.

A Conab também ofereceu para venda 23,5 mil toneladas de arroz em casca de diversas regiões do Rio Grande do Sul. Nesta operação, foram comercializadas, por cartela, 15,7 mil toneladas do produto, com uma arrecadação de cerca de R$ 11,6 milhões.

Audiência discute alternativas para produtores de leite

A Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo da Assembleia Legislativa, presidida pela deputada Maria Helena Sartori (PMDB), promoveu, nesta quinta-feira, audiência pública para tratar da crise que está atingindo diversos produtores de leite do Estado. Muitos deles estão, há mais de dois meses, sem receber o pagamento pelo fornecimento do produto de empresas como a LBR, Promilk, Pavlat, Hollmann e Monday.

Segundo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), a dívida com os produtores chega a R$ 19,4 milhões, deflagrando uma crise no setor. Atualmente, 134 mil famílias gaúchas produzem leite. “O não pagamento pelo produto entregue resulta em inadimplência junto ao comércio dos pequenos municípios, além de comprometer a capacidade de investimento e de giro para continuar na atividade”, declarou o presidente da Fetag, Elton Weber.

O deputado estadual Ernani Polo (PP), proponente da audiência, defendeu a construção de uma linha de crédito emergencial, via Pronaf. Ficou acordado que a comissão irá a Brasília fazer a reivindicação. Ao mesmo tempo, foi apoiada a prorrogação dos financiamentos, alternativa que deve ser de conhecimento imediato dos produtores. Também deve ser estudada a viabilidade da criação de um seguro que garanta a renda para os produtores.