Defensivos

Controle Biológico de Pragas e seu Uso em Cultivos Protegidos

Autoria de Angelo Pallini, em 13/08/2009

O controle de pragas na agricultura, normalmente, é feito por meio de agrotóxicos, que também acabam com os organismos benéficos (predadores, abelhas e outros polinizadores), contaminando o solo e a água. Além disso, fazem com que as pragas adquiram resistência, exigindo doses mais altas ou produtos mais tóxicos. Uma opção eficiente é o controle biológico: a redução das populações de determinado inseto-praga por meio da introdução no ambiente de seus inimigos naturais (insetos, pássaros, ácaros,vírus, etc.). Saiba mais no artigo.

O controle biológico de insetos é definido como a ação de inimigos naturais sobre uma população de praga, a fim de mantê-la numa densidade populacional que não cause danos econômicos à cultura. Esta é uma estratégia particularmente interessante para ser incluída nos programas de controle de pragas de qualquer propriedade agrícola. Utilizam-se predadores, parasitóides (pequenas vespinhas) ou patógenos, nativos ou exóticos, multiplicados no laboratório e liberados posteriormente nas propriedades para controlar as pragas-alvo das culturas.

 

Algumas vantagens do uso do controle biológico sobre o químico são: a redução de exposição dos produtores e técnicos aos pesticidas; a ausência de resíduos nos alimentos; o baixíssimo risco de poluição ambiental; ausência de período de carência entre a liberação do inimigo natural e a colheita, e apreciação pelo público que demanda produtos livres de agrotóxicos.

 

Em 1970, o controle biológico no mundo era utilizado em cerca de 200 ha de cultivos protegidos; em 2000, passou para 15.000 ha e, em 2008, estava estimado em cerca de 25.000 ha. O número de agentes de controle biológico disponíveis no mercado mundial passou de dois, na década de 70, para cerca de 100, em 2000, para 800, em 2007, e para mais de 1000, previstos para 2009. A produção mundial desses agentes está concentrada na Europa (75%), devido, principalmente, à maior área com casas de vegetação e à tradição da pesquisa européia em controle biológico. Existe no mercado mundial, especialmente na Europa, um grande número de inimigos naturais disponíveis para uso em cultivos protegidos, dos quais 80% são empregados no controle de pragas em tomate, pepino e pimentão.

 

No Brasil, o controle biológico é utilizado em 8,7% das casas de vegetação e representado principalmente pelo uso de Bacillus thuringiensis, cujo produto comercial pode ser encontrado no mercado. Apesar de não se ter estatística da situação atual, estima-se que o controle biológico em ambientes protegidos (casa de vegetação, telados, túneis de plásticos) continue ainda restrito à utilização de B. thuringiensis e, eventualmente, à sua associação com o Trichogramma pretiosum, um parasitóide usado para o combate a várias pragas, principalmente em cana-de-açúcar e algodão. Isto se deve a diversas razões, mas em grande parte à falta de disponibilidade de agentes de controle biológico no mercado.

 

Poucos empreendedores se atrevem – ou se atreveram – a produzir e comercializar inimigos naturais no Brasil. Isto chega a ser um contrassenso, porque o mercado consumidor existe, pelo menos potencialmente. No momento, podemos encontrar poucas empresas constituídas com o fim de produção de agentes de controle biológico. Alguns exemplos são a Biocontrole (www.biocontrole.com.br), a Itaforte (www.itafortebioprodutos.com.br), Megabio (www.megabio.com.br), a Bug Agentes Biológicos (www.bugbrasil.com.br), Biocontrol (www.biocontrol.com.br) e a Promip (www.promip.agr.br). Essas empresas – constituídas no Brasil – podem, sob encomenda, produzir inimigos naturais entomófagos (que comem pragas) e entomógenos (que causam doenças nas pragas) para os agricultores.

 

A população de inimigos naturais deve ser inicialmente introduzida de acordo com a espécie ou grupo de espécies de pragas que se deseja controlar. Para isso, predadores, parasitóides ou patógenos, nativos ou exóticos, são anteriormente multiplicados no laboratório. A liberação desses inimigos naturais criados em massa pode ser de forma inundativa, ou seja, soltos em grande número visando ao controle imediato; ou de forma inoculativa: também em grande número, mas objetivando, além do efeito imediato, a formação de uma população que seja capaz de controlar as gerações das pragas durante todo o período da cultura. Essa última alternativa é a mais adequada para plantios em casa de vegetação, visto que o cultivo ocorre durante todo o ano.

 

Para que o sucesso do controle biológico seja completo, é necessário, entre outros, que os inimigos naturais liberados encontrem condições de se manterem e se multiplicarem no interior da casa de vegetação ou na lavoura-alvo. Para que isso ocorra, deve-se fornecer ambiente e recursos adequados para os inimigos naturais. A adição de pólen nas plantas no início do ciclo da cultura, por exemplo, pode possibilitar o aumento e o estabelecimento da população dos predadores liberados antes que a praga surja na cultura.

 

Resultados positivos foram obtidos quando o pólen foi adicionado a plantas de pepino em casa de vegetação: 1) aumento populacional do ácaro predador Amblyseius degenerans, afetando negativamente a população do tripes F. occidentalis; 2) incremento na população de ácaros predadores que controlaram eficientemente a mosca branca Bemisia tabaci.

 

Mais de um inimigo para uma praga

 

A introdução de mais de uma espécie de inimigo natural para controlar uma ou mais pragas é prática comum em cultivos protegidos nos quais o controle biológico é utilizado. Entretanto, quando mais de uma espécie de inimigo natural é usada para controlar várias pragas no mesmo sistema, teias alimentares artificiais são criadas e as interações tritróficas (relações entre as plantas, as pragas e seus inimigos naturais) transformam-se em outras mais complicadas. A ocorrência de interações complexas e de onivoria (capacidade de um organismo comer tudo ou de quase tudo) nessas teias alimentares pode modificar a direção e a intensidade dos efeitos diretos dos inimigos naturais sobre as pragas.

 

O efeito das introduções múltiplas no controle das populações das pragas depende de como os inimigos naturais, as pragas e as plantas interagem. Deve-se, portanto, levar em conta toda a teia alimentar do sistema na avaliação da compatibilidade de inimigos naturais, considerando não somente as interações numéricas (por exemplo, predação e competição), mas também as interações funcionais (resistência induzida, comportamento antipredador, etc.).

 

Efeitos aditivos ou sinérgicos de liberações múltiplas de inimigos naturais podem ser alcançados quando as espécies introduzidas exploram diferentes subpopulações das pragas. Por exemplo, a liberação simultânea do crisopídeo Chrysoperla plorabunda e da joaninha Coccinella septempunctata teve um efeito aditivo negativo na população do pulgão Aphis fabae em feijão fava, pois esses predadores preferem explorar áreas diferentes das atacadas pelo pulgão nessa planta. Um efeito sinérgico da utilização múltipla de inimigos naturais pode ser obtido quando a presença ou comportamento de um deles altera o comportamento da praga, tornando-a mais vulnerável ao outro inimigo natural.

 

Efeitos indesejáveis no controle de pragas podem resultar da interferência de um inimigo natural no comportamento de outro, da predação intraguilda (feita por predadores que atacam e se alimentam de outros predadores), ou da modificação do comportamento de uma das pragas devido à presença de um dos inimigos naturais, tornando-a menos vulnerável ao ataque deles. Quando se utilizam predadores generalistas, apesar das suas vantagens (por exemplo: sobrevivência em situações de baixa densidade populacional da praga; facilidade de criação em laboratório quando comparados aos especialistas, e adaptação a presas alternativas), eles competem e se alimentam de outros inimigos naturais específicos (predação intraguilda). Como consequência, pode haver um aumento na população das pragas-alvo devido à exclusão da outra espécie de inimigo natural (presa intraguilda) e/ou à redução do tempo e esforços gastos pelo predador polífago (que come muito e coisasvariadas) na predação da praga-alvo.

 

 

Nesta figura, é apresentada parte de uma teia artificial em plantas de pepino em casas de vegetação, na Holanda, onde o controle biológico é aplicado. A teia alimentar é formada pela planta, duas espécies de pragas, o tripes Frankliniella occidentalis e o ácaro-rajado Tetranychus urticae e os inimigos naturais utilizados para controlá-lo. Os inimigos naturais do tripes são o ácaro predador Neoseiulus cucumeris e o predador generalista Orius laevigatus. Os Phytoseiulus persimilis e o N. californicus são usados para controlar o ácaro-rajado.

 

Considerações finais

 

O cultivo protegido avançou muito no Brasil nas últimas décadas devido à necessidade de se produzir alimentos e plantas ornamentais durante todo o ano. Para que esses produtos sejam obtidos com qualidade, é necessário que o manejo seja realizado dentro dos princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP), isto é, deve se enfatizar principalmente a aplicação do controle biológico de pragas e de outros métodos que visem à manutenção dos inimigos naturais no interior dos ambientes protegidos.

 

Técnicas para a aplicação do controle biológico de pragas em cultivos protegidos existem; há, agora, a necessidade de implementá-las. Deve-se evitar erros cometidos em outros países na adoção do controle biológico de pragas, pois o uso inadequado de agentes de controle biológico sem um estudo das teias alimentares (formadas artificialmente nas casas de vegetação, telados e outros ambientes protegidos quando se introduz um inimigo natural), pode causar gastos desnecessários e resultados negativos.

 

Literatura para consulta

 

Parra, J. R. P.; Botelho, P.S. M.; Corrêa-Filho, B.S.; Bento, J. M. S. (Eds). Controle biológico no Brasil: parasitóides e predadores. São Paulo, Ed. Manole. 2002.

 

Venzon, M.; Paula Júnior, T. J. & Pallini, A. Avanços no controle alternativo de pragas e doenças. Viçosa, EPAMIG/CTZM. 2008.

Angelo Pallini é professor do programa de pós-graduação em Entomologia do Departamento de Biologia Animal da UFV

 

Fonte: www2.cead.ufv.br