Manejo

Controle biológico da broca-da-cana-de-açúcar

Com a expansão dos plantios de cana-de-açúcar para sua utilização como alimento volumoso para bovinos leiteiros nos períodos de seca, problemas com o ataque da broca-da-cana (Diatraea saccharalis), que também ataca o sorgo e o milho, têm se tornado cada vez mais freqüentes.

A cana-de-açúcar sofre o ataque da broca durante todo seu desenvolvimento. Sua incidência é menor quando a cana é jovem e não apresenta entrenós formados, aumentando os danos com o crescimento da planta. No entanto, esse comportamento pode variar em função da época do ano e da variedade de cana, principalmente.

Como tendência geral, as canas-plantas (que não passaram por nenhum corte) sofrem ataques mais severos quando comparadas às socas (que já sofreram cortes). Isso ocorre pelo fato da cana nova possuir um maior vigor vegetativo e ficar exposta durante um período maior à praga. Ao mesmo tempo, nesses canaviais, a atuação dos inimigos naturais é menor em função das diversas práticas culturais visando à instalação da cultura.

A fase jovem da broca pode causar danos diretos e indiretos. Os danos diretos decorrem da alimentação do inseto e caracterizam-se por: perda de peso (abertura de galerias no entrenó), morte da gema apical da planta (“coração morto”), encurtamento de entrenó, quebra da cana, enraizamento aéreo e germinação das gemas laterais. Esses danos ocorrem isoladamente ou associados, o que pode agravar os prejuízos.

Os danos indiretos são causados por microrganismos que invadem o entrenó através do orifício aberto na casca pela lagarta. Esses microrganismos, predominantemente, fungos (Fusarium e Colletotricum), invertem a sacarose armazenada na planta, provocando perdas pelo consumo de energia no metabolismo de inversão e pelo fato dos açúcares resultantes desse desdobramento não se cristalizarem no processo industrial. Entretanto, quando a matéria-prima se destina à produção de álcool, o problema é mais grave, pois os microrganismos que penetram no entrenó aberto contaminam o caldo e concorrem com as leveduras na fermentação alcoólica.

A partir do momento que a broca penetra no colmo da cana, o controle químico, com o uso de inseticidas, torna-se inviável devido ao alto custo e baixa eficiência dos produtos que são incapazes de atingir as lagartas no interior dos colmos. Uma alternativa interessante e ecologicamente desejável é o uso de inimigos naturais da broca que são eficientes em localizar as lagartas e específicos no modo de atuação.

Para compreender a ação dos inimigos naturais um pré-requisito é conhecer a biologia da praga. As lagartinhas após a eclosão migram para a região do cartucho da planta à procura de abrigo, permanecendo ali por um período que varia de uma a duas semanas, alimentando-se pela raspagem da folha da cana. Apenas nessa fase o uso de inseticidas é viável. Após esse período, as lagartas perfuram a casca do colmo na região mais mole e abrem uma galeria na planta, permanecendo o restante da sua fase de lagarta protegida da ação de fatores externos e produtos químicos como os inseticidas.

Um inimigo natural muito importante e específico da broca-da-cana é a vespinha Cotesia flavipes (Figura 1) que tem a capacidade de localizar as lagartas através de substâncias presentes nas fezes das lagartas.

Para o controle biológico da broca são realizadas liberações de vespinhas, parceladas ou únicas, com uma média de 6.000 adultos (fêmeas + machos)/ha/ano, sendo que essa população não deve ser inferior a 2.500 nem superior a 10.000. As vespinhas devem ser liberadas de forma a cobrir toda a área-problema, posteriormente, transferindo-se o controle para outro local. Uma observação importante é que canaviais em maturação não devem receber liberações, pois nessa fase já não há mais tempo hábil para evitar danos.

As vespinhas só devem ser levadas ao campo para liberação quando no mínimo 80% tiverem emergido no laboratório. As liberações devem ser realizadas em uma hora em que a temperatura do canavial estiver próxima à do laboratório (27oC). Executam-se as liberações no interior do talhão, em pontos distanciando 50 a 60 metros um do outro. Em cada ponto abre-se um copo plástico com cerca de 1.500 indivíduos, mantendo-o aberto durante o caminhamento de um ponto para o outro. No final dos 50 a 60 metros, um copo contendo as “massas” (vespas prestes a ser tornarem adultas) é preso aberto, entre a bainha e o colmo, na posição horizontal.

A maioria das grandes usinas sucro-alcooleiras apresentam um laboratório para a criação massal dessas vespas e posterior liberação no campo em função do nível de infestação da broca-da-cana. No entanto, há uma carência de laboratórios no Brasil que comercializam e viabilizam a utilização dessa estratégia de controle eficiente, barata e ecologicamente desejável.

Figura 1. Vespa (Cotesia flavipes) parasitando a broca-da-cana (Diatraea saccharalis)

 

por Rosangela Marucci, Equipe ReHAgro

Fonte: http://www.rehagro.com.br/siterehagro/publicacao.do?cdnoticia=1247