Pecuária

Condomínio de produção de leite de cabra: uma alternativa a conferir


O condomínio é um método gerencial de exploração conjunta de atividades de produção e de transformação já utilizado na bovinocultura leiteira. Começa a ser utilizado experimentalmente na caprinocultura leiteira do Nordeste, como forma de aumentar a eficiência bio-econômica da atividade. Os condomínios da ACCOJUS, em Jussara-BA e da Associação Aprisco do Vale, em Santa Maria da Boa Vista-PE, são os mais conhecidos. O modelo seria também aplicável a sistemas de confinamento de caprinos e de ovinos. Seu grande impacto residiria na expressiva redução de custos que pode ser obtida no produto final. Sinteticamente, um condomínio de cabras leiteiras consiste em uma central de ordenha, preferencialmente vizinha ou próxima ao laticínio, onde cabras lactantes de distintos produtores são alojadas e exploradas conjuntamente durante quase todo o período de lactação. A gestão do condomínio pode ser de um grupo informal de produtores, de uma associação ou cooperativa ou do próprio laticínio que vai processar o produto. Em outras palavras, o produtor condômino entrega suas cabras recém-paridas (com ou sem as crias) ao condomínio e as recebe de volta ao final do período de lactação, quando atingirem produção leiteira incompatível com os custos diários mínimos da “hospedagem”. Essa “diária” é calculada com base no consumo diário de ração (variável em função do potencial produtivo individual) e em outros tratos dispensados a cada animal.    Durante o tempo de permanência no condomínio, as cabras são ordenhadas e tratadas de acordo com as recomendações técnicas, incluindo sua inseminação ou cobertura controlada com reprodutores de alta qualidade genética, de modo que as cabras sejam devolvidas aos seus proprietários já prenhes. Em suas propriedades os produtores só cuidam de suas matrizes durante sua gestação e parição. Todos os dados produtivos e de custos são diariamente monitorados de cada cabra “hóspede” e disponibilizados permanentemente aos seus proprietários para consulta. As vantagens advindas desse modelo podem ser inúmeras e beneficiam tanto o laticínio quanto o caprinocultor condômino. Para o laticínio, gestor ou não do condomínio, a grande vantagem estaria em praticamente eliminar a coleta diária de leite nas propriedades, para muitos deles o principal item de despesa operacional, já que as cabras são ordenhadas ali, ao lado, ou bem mais próximo. Investimentos em caminhões isotérmicos e em tanques de resfriamento seriam quase que totalmente eliminados. Outras vantagens incluiriam a simplificação no combate às fraudes e condições mais favoráveis para obtenção de uma maior padronização da matéria prima e, por extensão, uma melhoria de qualidade nos produtos finais. Para os caprinocultores, organizados em associações ou cooperativas, as principais vantagens compreenderiam:

Maior disponibilidade de tempo para se dedicar a outras tarefas da propriedade, já que estariam dispensados da extenuante tarefa diária de ordenhar e alimentar as cabras lactantes;

Maior disponibilidade de pastos para incremento do rebanho ou de áreas para cultivo em suas propriedades, já que boa parte das matrizes se encontra no condomínio por uma boa parte do ano;

Eliminação da necessidade de aquisição e manutenção de reprodutores de alta qualidade genética, geralmente um investimento a valores fora do seu alcance;

Eliminação do investimento na construção e manutenção de uma sala-de-ordenha e seus utensílios;

Viabilização da prática de duas ordenhas diárias em suas cabras no condomínio;

Eliminação do pesado investimento em aquisição e manutenção de tanques de resfriamento de leite, individuais ou coletivos;

Valorização, via melhor qualidade e maior escala de comercialização,  do esterco recolhido e tratado no condomínio;

Acesso permanente aos dados de desempenho zootécnico e econômico de suas matrizes.

Há, contudo, alguns pontos a ponderar, considerando que a incipiência das experiências de condomínio já em andamento na região, não permitiu ainda a formação e disponibilização de dados em escala suficiente para uma melhor avaliação. O principal deles é, sem dúvidas, o investimento necessário para que o condomínio se estruture para prestar todos os serviços mencionados com a qualidade que se deve exigir. Caso não fosse disponibilizada uma propriedade já com aprisco e sala-de-ordenha de um dos condôminos (ou da cooperativa ou do laticínio), seriam demandados recursos significativos para construí-los e equipá-los, para adquirir reprodutores e para formação de pastos e capineiras (preferencialmente irrigados para não tornar a oferta da matéria-prima vulnerável aos humores pluviométicos do semi-árido). O ponto mais crítico, contudo, seria a contratação de uma equipe de apoio técnico profissional ao condomínio, incluindo, em função do número médio de matrizes exploradas, um bom gestor (permanente), um veterinário ou zootecnista (tempo parcial) e um técnico agrícola (permanente), não esquecendo os tratadores qualificados e a estrutura informatizada necessária ao monitoramento e sistematização dos registros zootécnicos e econômicos.

Outro aspecto complicador é a questão das crias. Uma alternativa seria o produtor, mesmo retendo a cabra parida na propriedade uns dias a mais, a submetesse a um processo de desmame antecipado de modo que a cria não tivesse de acompanhar a mãe ao condomínio.

A terceira questão diz respeito ao arranjo organizacional.  Impõe-se uma forte articulação entre os distintos atores da cadeia produtiva, especialmente o produtor organizado e o laticínio, no sentido de identificar a forma de arranjo organizacional capaz de assegurar o melhor custo-benefício para o complexo produção-processamento de leite. Organizações débeis de caprinocultores dificilmente levariam a bom termo empreendimentos dessa natureza sem a contrapartida da parceria com um laticínio forte e relativamente consolidado em termos de mercado.

O condomínio de Santa Maria da Boa Vista-PE, com apoio financeiro da Codevasf e Sebrae e técnico da Embrapa Semi-Árido começou a operar ainda sem considerar todos os aspectos acima mencionados, mas as perspectivas são bastante animadoras. A propriedade onde se localiza o condomínio é formalmente cedida por um dos condôminos em comodato. Foram construídos aprisco e sala-de-ordenha. O condomínio, formado inicialmente por 17 produtores, já conta com 180 cabras, mestiças de Saanen e Anglo, utilizando pastos e capineiras irrigados. O laticínio da associação acha-se ainda em início de construção, sendo o leite produzido atualmente comercializado para outros associados fabricantes de queijos e parte distribuído na merenda escolar do município. O entusiasmo é grande. Vale a pena acompanhá-lo e apoiá-lo. Precisamos dos subsídios dessa experiência.

Clovis Guimarães Filho, médico-veterinário, M.Sc., consultor em caprino-ovinocultura.

Fonte: capritec.com.br

http://www.nogueirafilho.com.br/arquivos_noticias/condominiodecabras.htm