Pecuária

Como planejar o pastoreio

Na edição de número 1 (Outubro de 2003) da Cultivar Bovinos, foi abordado o tema Produção Intensiva na matéria Produção em Escala (páginas 14 e 15) como sendo uma necessidade já atual e futura para o aumento na produção de alimentos, como a carne, que foi o produto abordado na matéria. Um sistema intensivo de produção a pasto é formado pela combinação integrada entre os componentes, animal, planta, solo e fatores ambientais, mais o método de pastoreio, com o objetivo de se atingir metas específicas. É comum a confusão do significado de sistema de pastejo com o de método de pastoreio, como ocorre quando se expressa “sistema de pastejo contínuo ou rotacionado”, mas o correto é expressar método de pastoreio dos tipos lotação continua ou lotação rotacionada. Sistema de pastejo tem definição e significado mais amplo já que engloba os vários fatores envolvidos na produção, enquanto o método de pastoreio é apenas o procedimento ou técnica de manejo do pastejo, idealizado para atingir objetivos específicos. Referente à estratégia de desfolha e colheita pelos animais. Os principais métodos de pastoreio estudados e adotados são os métodos de pastoreio dos tipos lotação contínua, lotação alternada e lotação rotacionada.

Ocorre também erro de definição em relação a estes métodos de pastoreio que ainda são conhecidos por pastejo contínuo, pastejo alternado e pastejo rotacionado. O método de lotação contínua pode ser adotado em duas modalidades: lotação contínua com taxa de lotação fixa ou lotação contínua com taxa de lotação variável. No primeiro, a taxa de lotação não varia com a disponibilidade de forragem, enquanto no segundo, a taxa de lotação é alterada com base na disponibilidade de forragem, a qual determina a capacidade de suporte da pastagem. Neste último, já há uma preocupação em manter a taxa de lotação na capacidade de suporte da pastagem. O método de lotação contínua com taxa de lotação fixa pode ser adotado quando o manejo do pastejo é extensivo (intensificação muito baixa) e as taxas de lotação são muito baixas (abaixo de 0,5 UA/ha.média.ano). O método de lotação contínua com lotação variável já pode ser adotado quando a intensificação e as taxas de lotação forem baixas a médias (entre 0,5-1,0 e 1,0-2,0 UA/ha.média.ano, respectivamente).

No método de lotação alternada aparece a preocupação com o período de ocupação e de descanso de cada piquete. Para a adoção deste método é preciso trabalhar com dois piquetes, de forma que, enquanto um está sendo pastejado, o outro está em descanso. A taxa de lotação pode também ser contínua ou variável. O método de lotação alternada é uma opção para média intensificação e taxas de lotação média (1,0 a 2,0 UA/ha.média.ano).

Mas quando a pastagem for explorada em níveis de intensificação altos e muito altos e as taxas de lotação forem altas (de 2,0 a 5,0 UA/ha.média.ano) a muito altas (acima de 5,0 UA/ha.média.ano) o método de pastoreio do tipo lotação rotacionada deve ser adotado. A relação entre intensificação e taxa de lotação com os métodos de pastoreio é a velocidade de rebrota da planta forrageira e a freqüência de desfolha da planta pelos animais. Quando o nível de intensificação é muito baixo a médio, a velocidade de rebrota é baixa a média de forma que os animais podem permanecer longos períodos, em um mesmo piquete, sem o risco de consumir a rebrota com freqüência.

O consumo freqüente da rebrota contribui para a redução do crescimento da planta já que as duas folhas que se encontram em expansão (em rebrota) são responsáveis por aproximadamente 78% da fotossíntese da planta. Os bovinos tendem a pastejar em touceiras com rebrotas maiores do que 10 a 15 cm porque a apreensão de forragem é mais fácil, mas, em sistemas de muito baixa intensificação, a rebrota chega a ser menor do que 0,5 cm/dia, o que significa que os animais tenderão a visitar as plantas numa freqüência de 20 a 30 dias, período suficiente para a planta recuperar a massa da sua parte aérea e radicular.

Se a taxa de lotação for baixa, os animais terão a opção de visitar apenas as plantas com rebrota maior do que 10 cm e com mais de 20 dias de descanso. Mas, em sistemas muito intensivos, a velocidade de rebrota é muito rápida, devido à grande aplicação de fertilizantes e, em alguns casos, o fornecimento de água via irrigação. Foi medida em pesquisa e a campo velocidade de rebrota de 9,5 cm/dia em capim Mombaça na primeira semana após o pastejo (AGUIAR e SILVA, 2002, dado não publicado). Considerando que os animais preferem pastejar em plantas com mais de 10 a 15 cm de rebrota, o capim Mombaça poderia ser desfolhado a cada 1,0 a 1,5 dia. Neste caso, a freqüência de desfolha deve ser controlada pelo homem através do método de pastoreio. Daí a necessidade de se fazer um maior número de divisões da pastagem em piquetes e adotar o método de lotação rotacionada.

Uma vez sendo necessária a adoção deste método de pastoreio passa a ser importante o conhecimento das variáveis, ciclo de pastejo, período de ocupação, de permanência, período de descanso, altura do relvado no pré e no pós-pastejo, a estrutura do relvado e a capacidade de suporte da pastagem. O ciclo de pastejo é o somatório do período de ocupação mais o período de descanso. O período de ocupação é determinado como sendo o período de tempo em que o piquete é ocupado pelos animais e o período de descanso é o período de tempo entre pastejos. Não se pode confundir o período de ocupação com período de permanência, pois o primeiro diz respeito ao tempo que o piquete é ocupado, enquanto o segundo diz respeito ao tempo em que os animais permanecem no piquete.

Quando o módulo de pastejo é ocupado por apenas um lote de animais, o período de ocupação será igual ao período de permanência, mas quando o módulo de pastejo for pastejado por dois lotes de animais, o período de ocupação passa a ser o somatório do período de permanência de cada lote de animais. O período de permanência, junto com o período de descanso são usados no cálculo do número de piquetes.

NP = PD/PP + 1 ou NP = PD/PP + 2

Onde:
NP = número de piquetes;
PD = período de descanso;
PP = período de permanência;
e + 1 ou + 2 é o número de lotes de animais que pastejarão o módulo de pastejo.

O período de descanso varia com a espécie forrageira, com a estação do ano, com as condições climáticas dentro da estação do ano e com o nível de intensificação (sem adubação, só adubado, adubado e irrigado). O período de ocupação, como já discutido anteriormente, depende da velocidade de rebrota, sendo que, quanto maior for esta menor deve ser o período de ocupação e maior será o numero de piquetes. Só se deve trabalhar com mais de um lote de animais quando as exigências, que sejam nutricionais, sanitárias, de sexo ou de manejo, entre eles, forem muito diferentes.

Quando o nível de exploração da pastagem for muito intensivo o período de permanência de cada lote não deve ser superior a um dia, de forma que o piquete seja ocupado por no máximo dois dias. A altura do relvado no pré-pastejo é um parâmetro de manejo do pastejo muito importante porque pode refletir a disponibilidade de forragem e determinar o momento do pastejo. Para cada espécie forrageira, a partir de uma determinada altura do relvado que representa uma determinada massa de forragem, não ocorre mais acúmulo de forragem porque a mesma quantidade de forragem produzida no crescimento é também perdida por envelhecimento e morte de partes da planta. Em um dado momento a curva de crescimento atinge um platô e depois começa a decrescer. Próximo do momento em que a curva de crescimento atinge seu platô o relvado está interceptando em torno de 95% da luz incidente e pouca luz atinge a base das plantas de onde surgem novos perfilhos. Além da perda de forragem por envelhecimento e morte da planta, ocorre também mudança na estrutura do relvado que tem a sua densidade reduzida e sua relação caule-folha aumentada, comprometendo a produção de forragem e a sua qualidade, com conseqüente redução do desempenho animal.

Na tabela (veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF) estão reunidos alguns dados sobre o manejo do pastejo para as principais espécies forrageiras exploradas em pastagens no Brasil. Alguns destes dados são de resultados de pesquisas, (CARVALHO, 1997; CARVALHO et al., 1999; GONÇALVES, 2002; LUPINACCI, 2002; MELLO, 2002; UEBELE, 2002; AGUIAR et al., 2004) enquanto outros são de dados de campo.

Com a tendência da intensificação dos sistemas de produção animal a pasto, o método de lotação rotacionada continuará a ser cada vez mais adotado e por isso é importante o aprofundamento dos estudos das principais variáveis que influenciam a adoção deste método de pastoreio. Numa próxima edição vamos abordar o tema Técnicas de Medição da Produção de Forragem e Cálculos para o Estabelecimento da Capacidade de Suporte da Pastagem.

Adilson de Paula Almeida Aguiar
FAZU / CONSUPEC

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=232