Pecuária

Como fazer a limpeza de equipamentos de ordenha

“É fundamental que o sistema de ordenha esteja limpo para que o leite tenha máxima qualidade”. A afirmação é do médico veterinário David Reid, da Rock Ridge Veterinary Clinic, de Wisconsin (EUA), que recentemente esteve no Brasil revelando que o leite é um dos substratos mais propícios para o crescimento bacteriano, só perdendo nesse aspecto para o sangue. Comumente as bactérias que estão no leite são provenientes de fontes externas, as quais quase sempre tem como referência os equipamentos de ordenha, com destaque para os insufladores, seguidos da pele dos tetos, água e até mesmo o ar introduzido na linha de ordenha durante o processo.

Por isso, enfatiza com frequência a necessidade de dispensar a máxima atenção à limpeza de equipamentos de ordenha quando a pretensão é fornecer uma matéria-prima de alta qualidade. Reid costuma dizer que nem toda água é pura, assim como nem todo leite também o é, citando ainda que o resfriamento não destrói os possíveis microrganismos ou bactérias existentes no leite, mas apenas inibe seu crescimento. São conceitos de amplo conhecimento na pecuária leiteira norte-americana, onde o meio mais comum para analisar a qualidade do leite é o SPC (standing plate count), ou seja, a contagem bacteriana total. Consiste em coletar amostra numa placa, fazendo-se a contagem das colônias de bactérias por ml de leite.

Nos EUA, o limite legal é de 100 mil bactérias, mas muitos laticínios só pagam bonificação para o leite que apresente menos que 25 mil bactérias na contagem bacteriana total. Baixa contagem de células somáticas também merece um pagamento diferenciado, sendo prática atrelar as duas exigências para se remunerar melhor. Outro teste rotineiramente feito nos EUA é chamado de contagem preliminar à incubação (preliminary incubation countPIC). A diferença com o de contagem bacteriana é que no PIC o leite é incubado a 13oC por 18 horas, antes de se fazer a contagem bacteriana. “Esse teste denuncia o uso ou não de detergentes alcalinos e ácidos para limpeza do equipamento após cada ordenha”, cita Reid.

Quando se depara com PIC elevado, acima de 100 mil, há algumas suspeitas mais evidentes para se detectar o problema. Podem ser: falha na sanitização da linha de leite antes da ordenha ou no tanque de expansão; vacas sujas ou com tetos ordenhados ainda úmidos; uso de insufladores já desgastados e válvula de saída do tanque de expansão suja. Outros problemas relacionados com alta contagem bacteriana podem ainda ter origem em razão do uso de quantidades inadequadas de água quente, o que se constata na maioria das fazendas, e baixa qualidade de detergentes ou soluções inadequadas. Por fim, cita ainda os pontos baixos na linha, quando esta não se apresenta inclinada o bastante para permitir a drenagem completa após ordenha.

Segundo sua experiência, menos de 3% dos casos de alta contagem bacteriana se devem às vacas. Tal razão não deixa dúvidas de que uma análise sistemática em todo o ciclo de limpeza dos equipamentos é fundamental para determinar se tudo na sala de ordenha está ou não funcionando adequadamente. A começar pelo resfriamento adequado, o que significa que o primeiro leite colocado no tanque atinja, após duas horas, 4oC, enquanto que o leite da ordenha seguinte colocado no mesmo tanque alcance de imediato o máximo 10oC. Uma hora após o termino da ordenha esta temperatura deve retornar novamente os 4oC iniciais.

TEMPO, TEMPERATURA E TURBULÊNCIA DEFINEM A BOA LIMPEZA

Para assegurar a limpeza adequada, deve-se garantir a conjugação dos três fatores da limpeza: tempo, temperatura e turbulência. Juntos são capazes, por exemplo, de por um fim aos açucares do leite, que serão solúveis em água morna; a gordura, que será solubilizada em detergentes alcalinos; as proteínas que são solúveis em cloro; sais e minerais, solúveis em detergentes ácidos. “No Brasil ou nos EUA, tem-se produtos químicos específicos para remover resíduos específicos”, completa o pesquisador. Sempre deve ser lembrado que o leite é 87% água, a qual nunca é pura. Ao mesmo tempo, deve se levar em conta que quando se está limpando o sistema de ordenha mais de 99% da solução desinfetante usada é composta também por água. Desta maneira, a boa qualidade da água é fundamental para se ter certeza de que se está limpando o sistema com eficiência.

Referindo-se ao primeiro fator – o tempo -, a recomendação é fazer três ciclos para limpar o equipamento. O primeiro é o enxágüe; outro é o detergente alcalino clorado seguido de um enxágüe com detergente ácido. “O tempo de enxágüe com água morna deve ser suficiente para circular esta água uma vez pelo circuito, sendo drenada em seguida. Isso é o ideal para o enxágüe com água morna”, ensina Reid. Para o ciclo do detergente alcalino clorado, este deve durar no mínimo de quatro a cinco minutos e no máximo 10. O terceiro ciclo, da solução ácida, deve circular pelo menos uma vez. “Apenas um ciclo desta solução é suficiente para retirar os resíduos do detergente alcalino clorado, bem como os demais resíduos presentes no interior do equipamento”, observa.

O segundo ciclo, considerado o mais importante, deve ter no mínimo cinco minutos de duração e no máximo 10. A razão para não estender esta operação é que durante o processo de limpeza o detergente alcalino clorado produz espuma, fazendo os sólidos flutuarem na solução para depois serem removidos. Mas se o ciclo é muito longo, 10 minutos ou mais, a temperatura começa a cair e os sólidos retornarão ao equipamento. “Então não estaremos limpando efetivamente o sistema”, destaca, explicando que esta informação muitas vezes não é transmitida ao produtor, que acaba fazendo uma operação errada ao repeti-la em busca de maior eficácia. A água deve entrar no sistema a 71oC e sair a 49oC.

“Quanto mais quente a água, melhor será a potência sanitizante da solução e mais eficiente será a limpeza”, lembra o pesquisador. A terceira solução, a ácida, deve ser utilizada com a temperatura variando entre 27 a 44oC. No entanto, para alguns dos ácidos novos a temperatura não é crítica, podendo ser usados tanto com água morna como com água fria. Já com a solução alcalina clorada, a temperatura nunca pode chegar a menos de 40,5oC. Se isto ocorrer, a emulsão de proteínas, gordura e do próprio leite será redepositada novamente no interior da tubulação.

Já o fator turbulência deve ser entendido como a necessidade de se esfregar todas as partes internas do sistema de ordenha em todos os ciclos. Um das peças mais importantes do equipamento é o injetor de ar. Trata-se de uma válvula automática que controla a entrada de ar e admite-o dentro do sistema, dando origem a turbulência. Os injetores de ar podem ser de diversos tipos. A localização mais indicada é de 1,8 a 2,1 m acima da tubulação. O controle do injetor de ar permite que haja duas fases distintas, a fase de abertura e a fase de fechamento. Quando está fechado, o injetor de ar está admitindo água na tubulação e nenhum ar no equipamento. Quando aberto, permite a entrada de ar para criar slugges.

LIMPEZA DRÁSTICA FUNCIONA, MAS DESGASTA PEÇAS DO EQUIPAMENTO

Uma vez atingido o ponto ideal de turbulência, o injetor irá permitir a circulação de água por todo o sistema. “O seu papel é estabelecer ciclos de injeção de ar ideais para determinar uma turbulência que faça uma boa limpeza”, fala Reid. Lembra ainda que a meta é ter uma slugge que se mova por todo o sistema durante cada ciclo de injeção de ar. Um detalhe importante refere-se à velocidade da slugge na linha. Este é determinado pela taxa de flutuação do ar, que em muitos casos é medido por litros/minutos ou pés cúbicos/minuto, que move-se pelo injetor de ar. É importante lembrar que a slugge na linha de leite se inicia na válvula de dispersão perto da unidade final e irá ocupar, primeiramente, 1,8 a 2,1 m da tubulação; depois irá encurtar a medida que a água vai ficando para traz com o movimento da slugge.

Precisamos de no mínimo 20% da tubulação de leite preenchida com fluído quando o injetor de ar se abre, para que este seja capaz de criar uma slugge que percorra todo o sistema e esfregue a tubulação. Outra regra é que sempre deve existir algum volume de água no fundo do tanque. O sistema de limpeza nunca pode sugar o resto da água da pia. Quando isto acontece, uma grande quantidade de ar é admitida dentro da tubulação, expulsando toda a água para fora do sistema. Isso pode resultar, então, no rápido resfriamento do equipamento de ordenha, que diminui a temperatura das soluções sanitizantes, comprometendo a eficiência das soluções e da própria limpeza. As unidades de ordenha podem ser efetivamente limpas quando o fluído de limpeza passa por estas numa taxa de 3 a 5 litros de solução/minuto.

Outro aspecto importante na limpeza dos equipamentos está na escolha do tipo de detergente químico e sua concentração. O detergente alcalino, ácido e cloro compõem as soluções sanitizantes. Assim, mistura-se o cloro com o detergente alcalino e água quente para remover principalmente a gordura e as proteínas. Para que isso ocorra com êxito, o pH desta solução deve ser no mínimo de 11,7, enquanto a solução ácida deve ter um pH de 3 ou menos. Há alguns testes que pode determinar se a limpeza está ou não sendo bem feita, principalmente quando se desconfia da qualidade da água utilizada para a limpeza.

Para isto é preciso de um kit para analisar a concentração (partes por milhão) de cloro na água e outro teste para a concentração de iodo (em mistura de iodo como desinfetante). “Lembre-se que a concentração de pH é muito importante. Uma diferença de pH de 1 é 10 vezes a diferença nas concentrações das soluções”, alerta Reid. Então, se o produto tem pH de 13,5 na sua solução alcalina clorada ou pH = 1 na solução ácida, conclui-se que uma concentração excessiva de detergentes deve estar sendo usada neste caso. Além do custo desses produtos usados em excesso, deve-se considerar que altas concentrações encurtam a vida útil de insufladores e mangueiras.

É preciso ter cuidado com tratamentos de limpeza drásticos. Nestes casos são usados altas concentrações de detergentes alcalino clorado e por vezes outros compostos químicos adicionados para limpar sistemas que não vinham sido limpos adequadamente, Quando o equipamento é submetido à esse tipo de tratamento, quase sempre as borrachas dos insufladores, das mangueiras e das válvulas são deterioradas. “Com tais procedimentos poderá se fazer uma limpeza adequada, mas com certeza vai ser preciso trocar muitas peças de borracha”, alerta Reid. Por isso, se o equipamento está muito sujo o melhor é lavar com soluções em concentrações normais de detergente alcalino clorado e ácido por vários dias.

Cabe citar também problemas no ciclo de enxágüe. Se a temperatura deste é muito baixa, ocorrerá pouca remoção dos resíduos do leite da tubulação, principalmente a gordura que tende a endurecer e permanecer na parede. Se a temperatura é muito alta tende a “cozinhar” a proteína dentro do sistema. A temperatura deste ciclo deve ser de 32oC a 38oC. Por outro lado é comum falhas de limpeza quando o detergente usado é em pó e sua diluição não for bem feita. O acúmulo de detergente se deposita no fundo do tanque alterando assim a concentração do detergente alcalino clorado nas soluções de enxágüe, resultando em uma limpeza pouco eficiente.

CHECANDO PROBLEMAS
Ao avaliar um equipamento de ordenha você deve checar os dez itens para que se possa estimar a razão de problema. É um procedimento muito simples para ser usado em propriedades que tenham problemas com alta contagem bacteriana.

A temperatura de enxágüe, que deve estar entre 32 e 38 oC.

O ciclo de enxágüe deve percorrer o sistema apenas uma vez.

A água de lavagem deve entrar com temperatura superior a 71oC.

A duração do ciclo deve ser de no mínimo 5 e no máximo 10 minutos.

O pH da solução alcalina clorada deve ser maior que 11.

A temperatura de saída da solução de lavagem deve ser de 49oC.

A temperatura da solução ácida deve estar entre 32 e 38 oC.

O pH da solução ácida tem que ser menor que 3.

Checar os sanitizantes com um kit confiável.

Analisar ação da água e calcular o volume utilizado

ESCLARECENDO DÚVIDAS
Ao apresentar palestra proferida durante o III Interleite, o pesquisador David Reid respondeu a algumas questões específicas a respeito de limpeza de equipamentos de ordenha.BB – Muitos equipamentos de ordenha têm problemas com a formação de biofilmes, seja por impregnação de proteína, gordura e/ou sais minerais. Lembrando que muitos produtores não utilizam detergentes ácidos, qual seria a recomendação?
David Reid – Tendo em vista esta situação, a melhor solução seria utilizar altas concentrações de químicos, tanto detergente alcalino clorado como o detergente ácido, com pH=3 , por várias vezes. Se houver a possibilidade de se esfregar as peças com uma esponja, isto deve ser feito. As unidades podem ser retiradas e limpas manualmente. Uma vez que o interior do coletor central e da tubulação de leite estivessem limpos, seria bom substituir as mangueiras e insufladores por novos.

BBQual é a sua orientação para desinfecção de teteiras entre uma vaca e outra?
DR – Na maioria dos casos, após dois ou três animais, o desinfetante clorado perde sua ação germicida por aumento da matéria orgânica (leite) na solução. Se possível seria preferível ordenhar primeiramente vacas de baixa CCS e depois as de alta e depois sanitizar todo o equipamento de ordenha. Não havendo essa possibilidade, o melhor é usar uma mangueira com água quente (32 a 44oC), retirando a mangueira do leite e fazendo um back flushing para remover os resíduos de leite. Pode-se remover de 90 a 99% de qualquer bactéria causadora de mastite com este procedimento.

BBA alta contagem bacteriana no leite pode afetar as vacas causando mastite ou só será problema para a qualidade de leite?
DR – Poderá haver problemas com os dois, dependendo do tipo de bactéria que esta presente. Se o problema for da água, que estiver contaminada, esta pode entrar no sistema, crescer nas tubulações, e em contato com o orifício do teto causar mastite. Outra situação é que possíveis sujeiras das instalações podem ser locais para o crescimento de algumas bactérias que causam mastite, estas bactérias desaparecem quando o sistema é lavado adequadamente. Portanto pode ser sim um problema para as vacas.

BBConsiderando um sistema de limpeza eficiente é necessário desmontar o equipamento para a limpeza manual com qual freqüência?
DR – Se o sistema estiver bem regulado não há necessidade de desmonte. Uma prática indispensável é fazer a troca periódica de insufladores.

BBCom qual freqüência deve se usar o enxágüe com solução ácida?
DR – O citado enxágüe deve ser usado seguido do uso do detergente alcalino clorado, pois sua função é neutralizar o cloro e deixar o sistema com um pH médio que diminua o crescimento bacteriano. Quero dizer, deve ser feito constantemente.

BBQual sua opinião sobre o uso de dispositivos que intensifiquem o nível de vácuo durante a limpeza ao invés de permitirem entradas periódicas de ar. Há aumento da pressão mas não da turbulência.
DR – Em alguns sistemas o regulador de vácuo pode melhorar a limpeza. No entanto, pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que o nível de vácuo necessário para ordenhar é maior que o necessário para limpar, desde que o sistema esteja bem regulado.

Por: Nelson Rentero

FONTE:
Revista Balde Branco – Número 426

http://sincal.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=22:como-fazer-a-limpeza-de-equipamentos-de-ordenha&catid=22:leite-artigos&Itemid=39