Como combater o carrapato em bovinos de leite

Quando um produtor percebe que seus animais estão altamente infestados por carrapatos, imediatamente pensa nos prejuízos acarretados e resolve tomar providências. E então inicia-se uma jornada de escolher um produto e realizar uma infinidade de tratamentos, muitas vezes sem obtenção de resultados satisfatórios.Na ânsia de resolver o problema, troca-se indiscriminadamente de produto, o que só vai agravar ainda mais a situação. Em conseqüência disto, perde-se anualmente no Brasil cerca de dois bilhões de dólares.  O problema é realmente complicado e grave, mas nem por isso a solução deve ser complexa. Basta que se tenha em mente que muito do que se perde com o carrapato decorre dos erros cometidos na tentativa de controlá-lo. Para minimizar os prejuízos, portanto, é importante conhecer bem o inimigo e identificar e corrigir os principais erros cometidos.

A vida do carrapato
Os bovinos adquirem o carrapato quando caminham por uma pastagem infestada. As larvas, que são os “filhotes” dos carrapatos, sobem no animal e procuram um local adequado para se fixar. É o início da fase parasitária, ou fase em que o carrapato permanece fixado ao animal, que dura em torno de 22 dias. Neste período, as larvas se alimentam e se transformam em ninfas que, posteriormente, darão origem aos adultos, que irão sugar sangue e acasalar. A fêmea fecundada se enche de sangue e abandona o hospedeiro, iniciando a fase não-parasitária ou de vida livre. No solo, a fêmea procura um local ideal para a postura de 2.000 a 3.000 ovos. Após a incubação, de cada ovo sairá uma larva, que irá se posicionar na ponta da pastagem à espera de um bovino, fechando o ciclo. Diferentemente da fase parasitária, que tem duração relativamente estável, o tempo de duração da fase de vida livre varia de acordo com a região geográfica e com a época do ano.
O tratamento carrapaticida

Por motivos de economia, pressa, cansaço ou falta de orientação, na maioria das vezes o carrapaticida é aplicado em quantidades insuficientes, o que contribui significativamente para a disseminação da resistência.
O problema começa na diluição do produto. Geralmente, a quantidade preconizada pela bula é colocada diretamente na bomba, seguindo-se a adição de água, sem diluição prévia. O ideal seria o preparo de uma “calda”, diluindo-se previamente a quantidade recomendada para o preenchimento de uma bomba em um balde à parte, com dois a três litros de água.  O conteúdo do balde é, então, colocado aos poucos na bomba, adicionando-se água até completar o volume recomendado.
Após o preparo correto do produto, este deve ser aplicado adequadamente. Para tal, o produtor deve ter em mente que o banho carrapaticida é, geralmente, a única medida que se adota para combater um inimigo tão prejudicial. Portanto, o dia de banhar deve ser reservado somente para aquela prática, conferindo-se total atenção às atividades desenvolvidas. Deve-se regular a pressão do jato, que deve ser suficiente para atingir a pele do animal. O carrapaticida deve ser aplicado a favor do vento (para proteção do aplicador) e no sentido contrário dos pêlos, atingindo-se até as regiões de mais difícil acesso, como úbere, face interna das orelhas e entre pernas. Ao final do processo o animal deverá estar completamente molhado, devendo-se, para tal, utilizar de quatro a cinco litros de solução para cada bovino adulto. Os banhos não devem ser realizados em horas de sol forte, para não intoxicar os animais, nem em dias chuvosos, para evitar perdas do produto e seleção de carrapatos resistentes.
Os cuidados a serem adotados pelo operador também são de fundamental importância. Carrapaticida é veneno e a exposição contínua ao produto pode levar a danos irreparáveis à saúde humana. O uso de trajes adequados, a aplicação a favor do vento e o impedimento do contato direto com a pele são fatores que auxiliam a manutenção da integridade do aplicador.
É importante, ainda, a leitura atenta da bula, com objetivo de, além de se ajustar a dose adequada, respeitar o período de carência para garantir a comercialização de um leite de qualidade, isento de resíduos químicos.
A orientação aos produtores sobre o manejo dos animais após o banho também deve ser considerada.  Equivocadamente, evita-se que os animais banhados tenham acesso a uma pastagem contaminada. O que deve ser feito é justamente o contrário, ou seja, levar os animais recém-banhados para piquetes infestados, de modo que estes funcionem como “aspiradores” das larvas, que serão combatidas no próximo banho, já na fase adulta. A repetição de banhos e o retorno dos animais às pastagens proporcionará a descontaminação progressiva destas.



 

O momento de banhar

A quase totalidade de produtores combate o carrapato somente nos períodos em que este se encontra em grande quantidade sobre os animais, determinando os prejuízos já relatados. Um programa de assistência técnica seria eficiente no intuito de orientar sobre o momento certo de se utilizar o carrapaticida como uma forma de prevenção de grandes infestações, ao invés de se combaterem surtos já estabelecidos. As pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Gado de Leite resultaram na elaboração do programa de controle estratégico dos carrapatos de bovinos de leite na Região Sudeste. Durante quatro anos foi acompanhado o nível de infestações, tanto nos animais (fase parasitária), como na pastagem (fase de vida livre), o que possibilitou a obtenção de informações úteis para a elaboração do programa de controle. Foi verificado, inicialmente, que o carrapato dos bovinos, na Região Sudeste, desenvolve de três a quatro gerações durante o ano. A geração presente entre os meses de janeiro e abril foi considerada como a mais fraca, pois o calor excessivo mata as larvas que estão na fase de vida livre, à espera do hospedeiro, reduzindo a quantidade de carrapatos presentes nos animais e na pastagem. As altas temperaturas atuam também na aceleração da fase não-parasitária, fazendo com que os carrapatos nasçam e morram mais rapidamente, contribuindo também para a redução do nível de infestações. A partir da identificação desta fase mais vulnerável, foi possível a elaboração do programa de controle estratégico do carrapato dos bovinos leiteiros na Região Sudeste do Brasil (válido também para a Região Centro-Oeste, por apresentar condições semelhantes).
Esta estratégia se fundamenta na aplicação de uma série de cinco ou seis banhos carrapaticidas a intervalos de 21 dias ou três aplicações de produto “pour on” a intervalos de 30 dias, durante a época mais vulnerável do ciclo do carrapato (janeiro a abril). O objetivo é combater intensamente a geração mais fraca, de modo a comprometer as gerações seguintes, que seriam as mais prejudiciais. Durante o restante do ano basta monitorar a quantidade de carrapatos nos animais e realizar banhos quando a contagem se elevar. É recomendada atenção especial ao mês de setembro, quando a quantidade de carrapatos tenderá a se elevar, pois o aumento da temperatura leva à eclosão das larvas que estavam em formação durante o inverno. Um banho pode ser suficiente para controlar o surto repentino. Normalmente, os tratamentos extras são necessários somente durante o primeiro ano da implantação do programa, mantendo-se os níveis de carrapatos na quantidade desejada nos anos seguintes somente com as aplicações efetuadas entre janeiro e abril. Uma carga parasitária entre 20 e 30 carrapatos em um lado do corpo do animal é considerada adequada para que os bovinos desenvolvam proteção contra os agentes da tristeza parasitária. Deste modo, o carrapato, que antes era tido como um inimigo altamente prejudicial à pecuária, passa a atuar como um aliado, funcionando como um “vacinador natural” dos bovinos.
Realizando-se as ações descritas de forma correta, é possível reduzir significativamente o número de banhos carrapaticidas, de 16 a 20, para apenas cinco tratamentos anuais. Além de representar considerável economia com a aquisição de carrapaticidas, esta prática leva à redução no estresse dos animais e nos custos com mão-de-obra, minimização de resíduos no leite, elevando a qualidade e agregando valor ao produto, preservação ambiental e, principalmente, retardo no processo de resistência, garantindo maior tempo de utilização das poucas bases químicas disponíveis.
Uma pequena desvantagem deste programa de controle consiste no fato de que os banhos devem ser realizados na época das chuvas, o que poderia levar a perdas do produto e disseminação da resistência. Este problema pode ser facilmente contornado transferindo-se os banhos para outro dia, caso o dia marcado para o tratamento esteja chuvoso, ou mantendo os animais em um galpão coberto por duas horas após o banho. Não havendo, na propriedade,  instalações suficientes para abrigar todos os animais do rebanho, a separação em lotes proporcionará a realização dos tratamentos sem transtornos.
É importante ressaltar, no entanto, que, para que o programa de controle estratégico seja bem-sucedido, tem de ser utilizado o produto certo, na dose recomendada, com diluição bem feita e aplicação adequada.

Outras formas de controle

Diante do grave quadro de resistência dos carrapatos aos carrapaticidas químicos, outras alternativas estão sendo pesquisadas e serão divulgadas à medida que sejam validadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. As vacinas contra o carrapato dos bovinos já são uma realidade. Desde a década de 90 está disponível no mercado brasileiro uma vacina cubana que tem ação sobre o sistema digestório do carrapato, matando-o ou inibindo a postura. Está em fase final de pesquisas uma vacina brasileira, com mecanismo de ação semelhante. Fungos e nematóides como controladores biológicos de carrapatos também estão sendo pesquisados, com resultados bastante promissores para uso até mesmo em associação com produtos químicos. Outras vertentes de pesquisas se referem ao uso de substâncias derivadas de plantas, os fitoterápicos e à formação de rebanhos a partir de animais que sejam comprovadamente resistentes a parasitas. Embora os resultados ainda não sejam passíveis de divulgação, é importante que todos saibam que existe uma significativa parcela de pesquisadores empenhada em buscar soluções que contribuam para o controle de carrapatos e para a garantia de segurança e qualidade nos produtos derivados dos animais tratados.

Fonte: CNPGL EMBRAPA

http://www.ruralpecuaria.com.br/2010/11/quando-um-produtor-percebe-que-seus.html