Combustível à soja

10/06/2014

Aumento da mistura de biodiesel ao diesel para 7% a partir de novembro deve elevar consumo da oleaginosa em 4,5 milhões de toneladas ao ano a partir de 2015. Indústria espera redução da ociosidade

A indústria do biodiesel deve abocanhar 18% da safra nacional de soja a partir de 2015. Cálculo elaborado pelo Agronegócio Gazeta do Povo, baseado nas proporções atuais praticadas no mercado, indicam que a oleaginosa terá uma demanda adicional de 4,5 milhões de toneladas ao ano.

Com o aumento da mistura do combustível renovável ao combustível fóssil para 7% a partir de novembro, as usinas deverão consumir, ao todo, 15,7 milhões de toneladas da oleaginosa. Hoje, cerca de 11,2 milhões de toneladas são transformadas em óleo e, posteriormente, combustível limpo. A notícia vem no momento em que há uma pressão de baixa sobre as cotações internacionais da commodity, por conta de uma expectativa de mais uma oferta global recorde, liderada por Estados Unidos.

O consumo extra pode dar sustentação aos preços, avaliam os especialistas. “Os impactos são amplos e benéficos para várias cadeias”, resume Leonardo Botelho Zilio, assessor econômico da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Quem mais comemora a medida é o setor do biodiesel. “Neste ano, no lugar de exportar, teremos que redirecionar para o mercado interno. A partir do próximo ano será necessário esmagar mais para atender o consumo do País e gerar excedente para exportação”, ressalta o gerente geral da usina BSBios, de Marialva, Antônio Borsolan Gaspar.

Setor pede antecipação da mistura B10

Apesar do anúncio da maior proporção de biodiesel no diesel ser motivo de comemoração, as empresas apontam atraso no projeto brasileiro de incentivo ao consumo de grãos para geração de energia. Segundo o setor, o Brasil tem condições de misturar mais do que os 7% programados para começar em novembro. “Temos muitos problemas, principalmente nas indústrias do Rio Grande do Sul. Temos uma grande capacidade de produção no Brasil, mas o consumo é baixo”, lamenta Carlos Antônio Borsolan Gaspar, gerente geral da unidade da BSBios em Marialva.

O Rio Grande do Sul reúne nove usinas, perde apenas para o Mato Grosso, com 20. O Paraná conta com quatro plantas. “O setor está penando hoje”, complementa Leonardo Botelho Zilio, assessor econômico da Abiove. O Brasil é atualmente o terceiro maior produtor mundial do combustível renovável, atrás de Estados Unidos e Alemanha.

O planejamento do governo federal é atingir 10% (B10) de biodiesel no diesel em 2020. “Precisamos antecipar esse cenário”, afirma Gaspar.

A Abiove, no entanto, diz que o País precisa rever seu projeto de combustível limpo para não entrar em colapso. Além das 62 indústrias instaladas atualmente, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) autorizou a construção de duas novas plantas, além do incremento da capacidade de produção em outras quatro. “Hoje o parque industrial já tem potencial para atender B15”, ressalta o executivo da BSBios, empresa cujo presidente é também representante de todos os produtores do País.

A ociosidade do parque industrial brasileiro de biodiesel deve ser reduzida com o aumento da mistura. No ano passado, as mais de 60 indústrias espalhadas pelo País produziram 2,9 bilhões de litros de biodiesel, 37% da capacidade instalada (7,8 bilhões de litros), de acordo com relatório da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Com a nova determinação, o governo federal “exige” que a produção passe para 4,3 bilhões de litros a partir de 2015. Essa quantidade representa 55% do potencial do Brasil. “Diminui [a ociosidade], mas não resolve”, comenta Gaspar.

Outras culturas

Para o assessor econômico da Abiove, os benefícios da nova medida vão além do uso da principal commodity agrícola produzida no mundo. Os pequenos produtores também terão que elevar a produção de canola, mamona, óleo de palma e outros produtos agrícolas que servem de matéria prima para o biodiesel. Até mesmo o setor de carne que fornece sebo para a fórmula do combustível limpo terá retorno financeiro.

“Além disso, desafoga um pouco os portos brasileiros, pois o País não terá que importar tanto [diesel]”, aponta Leonardo Botelho. “Existe a chance de reduzir o preço do diesel.” Se isso ocorrer, a medida causaria mais um impacto positivo no agronegócio, que usa boa parte da frota nacional de veículos movidos a diesel para plantar, colher e transportar a produção agropecuária do Brasil.

Fonte: Gazeta do Povo