Pecuária

CLUSTERS: AGRUPAMENTO E REESTRUTURAÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA DO LEITE

Várias são as restrições ao desenvolvimento da cadeia produtiva do leite no Brasil, iniciando-se na unidade de produção com a utilização de instalações precárias ou no mínimo insuficientes para a produção. É realmente flagrante a diferença dos índices de produtividade brasileira em relação a outros países, basta verificar que enquanto o Brasil possui uma produção média anual por vaca de leite de 1534 quilos, os EUA, Alemanha e Holanda atingem em média 8703, 6029, 7251 quilos respectivamente (Anualpec, 2004), demonstrando claramente a ineficiência da pecuária leiteira nacional.

 

Grande parte do cenário atual do agronegócio do leite brasileiro deu-se pela criação do Mercosul, e principalmente devido à paridade entre a moeda brasileira (Real) e a moeda americana (Dólar) até a liberação do câmbio em 1999, ou seja, durante cerca de 5 (cinco) anos vimos o setor leiteiro sofrer duros golpes, se decompondo em todos os elos, com destaque especial para os maus momentos vividos pelos produtores rurais e agroindústrias (laticínios).

 

Competir em um mercado internacionalizado foi realmente um duro golpe para uma pecuária leiteira arcaica e uma indústria debilitada pela falta de atenção governamental, entretanto, os laticínios que foram mais afetados foram os de pequeno e médio porte que mesmo sofrendo com a política agressiva e até certo ponto desleal das multinacionais, se viu em um mercado abarrotado de produtos estrangeiros, com qualidade relativamente superior às encontradas no Brasil.

 

Realmente esses anos deixaram marcas negativas impressionantes na cadeia produtiva do leite, especialmente na grande massa de trabalhadores que perderão seus postos de trabalho, uma vez que foi exatamente com a quebra (falência) de um grande pequenos laticínios que se deu à diminuição dos empregos no setor. Multinacionais como Nestlé, Danone, e Parmalat comemoravam durante esse período bons índices de retorno, o que não era reflexo da sua eficiência e sim resultado de crises vividas pelo setor leiteiro brasileiro.

 

Em outros tempos poderia se dizer que a justiça tarda mais não falha, o que vivemos hoje é uma retomada de força competitiva por parte dos pequenos produtores, que se organizam através de cooperativas, condomínios e associações formalizando uma verdadeira estratégia de negociação, mais não para por aí, as cooperativas somam forças por todo país, o mais disseminando por todo país uma nova cultura na cadeia produtiva do leite e conseqüentemente respondendo pelo alcance de aproximadamente 22 bilhões de litros produzidos por ano (Veja, Abril 2004), além da produtividade alcançada pelo rebanho leiteiro que em menos de três décadas saiu da média de 700 litros por vaca/ano para 1500 litros vaca/ano demonstrando uma evolução real nos índices de produtividade nas unidades pecuárias, com a aplicação de novas tecnologias, ente elas a utilização de ordenhadeiras, inseminação artificial, transferência de embriões, seleção genética entre outras.

 

Esta cultura tem contribuído para a formação de estruturas mercadológicas denominadas “Clusters” definidas por um dos maiores estudiosos do agronegócio brasileiro, Araújo (2003) como: “Um grupo econômico constituído por empresas instaladas em determinada região, líder em seus ramos, apoiadas por outras que fornecem produtos e serviços, ambas sustentadas por organizações que oferecem profissionais qualificados, tecnologias de ponta, recursos financeiros, ambientes propícios para negócios e infra-estrutura física. Todas estas organizações interagem, ao proporcionarem umas às outras os produtos e serviços de que necessitam, estabelecendo, deste modo, as relações que permitem produzir mais e melhor, a um custo menor. O processo torna as empresas mais competitivas”.

 

Estas transformações juntamente com a agressividade do marketing, direcionado claramente as expectativas e mudanças de hábito no consumo influenciam positivamente a essa retomada mesmo que tardia da motivação do setor leiteiro, que se por um lado não garante aos produtores retornos consideráveis, contribuem para a sobrevivência da unidade rural e abre horizontes mais atrativos para a atividade, exemplo disso é a queda da importação nos últimos 10 anos que chega a ser de mais de 300%.

 

O consumo de líquidos no Brasil nos dá a dimensão do ridículo em termos da preocupação com saúde dos cidadãos, basta analisar a surpreendente fatia de mercado de líquidos no país, que apresenta os refrigerantes e cervejas com 32,39% e 24,68% do mercado respectivamente, enquanto o leite alcança 24,29% do consumo total (Scot Consultoria). Essa influência é garantida por estratégias de marketing, embutidas em um composto agressivo, de publicidade e propaganda (promoções), logística, preços entre outros.

 

A reestruturação da cadeia produtiva, as parcerias, a integração vertical são cenários animadores para uma nova fase do leite brasileiro, com isso o potencial produtivo tende a melhorar, entretanto o desafio é aumentar o consumo e não mais atentar para a produtividade dentro da porteira, instituindo uma nova estratégia mercadológica que se volte para união dos interesses dos agentes do setor leiteiro, que através do fortalecimento do elo (consumidor) estará formalizando um ambiente flexivo, de alta diferenciação e enorme cooperação instituídos em um sistema complexo e bastante competitivo onde a sobrevivência, o crescimento e a lucratividade dependerão principalmente do fator competência, isso poderá ser conseguido com o fortalecimento dessas estruturas competitivas, denominadas Clusters.

 

Referências Bibliográficas:

 

ANUALPEC 2003: Anuário da Pecuária Brasileira. São Paulo: FNP Consultoria & Comércio, 9ºed, p.400.

 

ANUALPEC 2004: Anuário da Pecuária Brasileira. São Paulo: FNP Consultoria & Comércio, 10ºed, p.400.

 

ARAÚJO, Massilon J. Fundamentos de Agronegócios. 1ªed. São Paulo: Atlas, 2003. 147 p.

 

SCOT CONSULTORIA. Palestra Apresentada no Seminário da BM&F: Perspectivas para o agronegócio 2004 e 2005. Disponível em: http://www.scotconsultoria com.br. Acesso em: 20 de Maio de 2004.

 

REVISTA VEJA. Agronegócios: Retratos de Um Brasil que dá Lucros. Edição Especial nº 30. Ano 37. São Paulo: Editora Abril, Abril de 2004.

 

Odilon José de Oliveira Neto

Professor – UNEMAT

 

Fonte: http://www.agronline.com.br/artigos/artigo.php?id=177&pg=2&n=2