Manejo

Citricultura: implantação e manejo de um pomar de citros

Agricultura e Pecuária

Escrito por Claudemir Fantini

Propõe-se a implantação de um pomar de citros como alternativa de fornecimento de frutos in natura ao consumidor da região, assim como uma fonte de matéria-prima para uma provável produção de sucos, incrementando assim a renda do produtor. Conforme diagnosticado, existe no município demanda por frutas, e a produção local não a atende.

Escolha das Variedades
Para este pomar propõe-se a implantação de três variedades-copa de citros, a saber:
* Valência: variedade de laranja para suco/mesa, é classificada como média/tardia, apresenta boa produtividade, excelente qualidade de frutos e  fruto de tamanho médio.
* Folha Murcha: variedade de laranja, com aptidão para indústria e consumo in natura, classificada como tardia, produtiva, com frutos de tamanho médio e folhas enroladas, parecendo estar sofrendo por falta de água.
* Montenegrina: variedade de bergamota comum (Tangerinas/ Mandarinas), tardia, que apresenta árvore com porte redondo, vigorosa, produtiva e frutos de tamanho médio.
Como porta-enxertos, recomenda-se que o pomar contenha apenas as duas variedades recomendadas abaixo, na proporção de 50% das plantas para cada:
* Poncirus trifoliata: apresenta boa resistência ao frio, está adaptado aos diversos tipos de solos, inclusive aqueles sujeitos a alagamentos, é resistente à gomose, induz menor porte à planta e promove a produção de frutos de boa qualidade nas variedades copa
* ‘Citrange Fepagro’ C13: resultado do cruzamento de laranjeira com Poncirus trifoliata, proporciona a formação de frutos de boa qualidade e está adaptado às condições de clima do Estado.
Na aquisição das mudas, destaca-se que estas devem ser obtidas de viveiros registrados no órgão oficial competente (na nota fiscal devem constar as variedades e os porta-enxertos adquiridos).

Implantação do Pomar
Recursos para a Implantação do Pomar
Propõe-se que o pomar de citros seja instalado com os recursos provenientes do lucro obtido com a viabilização das atividades atuais, ou seja, o pomar de citros poderá ser instalado a partir de 2013, que é quando estima-se que as atividades da propriedade passarão a gerar lucro. Para tanto, o produtor poderá considerar os valores calculados e descriminados no texto a seguir, para a tomada de decisão de quando irá instalar o novo pomar.

Área
Propõe-se realizar a implantação do pomar de citros na área atualmente ocupada por milheto, Figura 29. A área a ser utilizada será de 0,62 ha. O pomar deverá ser implantado com as linhas no sentido norte-sul, visando-se o melhor aproveitamento da radiação solar pelas plantas.

Área proposta para a instalação do pomar de citros e que atualmente é ocupada por campo nativo

6.1.1.1.    Preparo do Solo
Sugere-se que o preparo do solo inicie pela descompactação com subsolador nas linhas de plantio das mudas, aproveitando-se este momento para corrigi-lo com nutrientes e corretivos, conforme recomendação a seguir.

6.1.1.2.    Recomendação para Adubação e Calagem
O pH do solo da área atualmente se encontra na faixa de 5,7, na profundidade de 0-20 cm. A correção deverá ser feita no sentido de elevar o pH até 6,0 conforme recomendação do Manual de Fertilidade dos Solos e Manejo de Adubação de Culturas (Bissani, 2004).
Para isso recomenda-se a aplicação e incorporação ao solo, seis meses antes da implantação do pomar, a dose de 7,5 t/ha no máximo (considerando-se o uso de calcário com PRNT 100%). No entanto, a dose deve ser ajustada conforme o valor de PRNT do calcário a ser adquirido pelo produtor, utilizando-se a seguinte equação:

Quantidade a ser aplicada (t/ha) = dose recomendada (t/ha) x (100 / PRNT (%) do calcário adquirido)

Portanto, caso seja adquirido um calcário com PRNT de 60%, devem ser aplicados na área 12,5 t/ha para atingir o pH ideal para o cultivo de citros. A correção do pH do solo deve ser realizada em toda a área do pomar.
Com relação à adubação com NPK, algumas medidas deverão ser tomadas antes de se fazer a implantação do pomar. Conforme a literatura, doses elevadas de K podem prejudicar a produção de citros, gerando inúmeros problemas fisiológicos para a planta, devido ao efeito negativo que o potássio (K) causa na absorção nitrogênio (N), magnésio (Mg), cálcio (Ca) e zinco (Zn). Além disso, o excesso de potássio no solo causa maturação retardada e os frutos ficam com tamanho grande, porém com polpa ressequida.
As análises do solo da área (Anexo 10.2) mostram que os teores estão abaixo do recomendado, e o fósforo apresenta maior deficiência, recomendando-se a aplicação, em toda a área do pomar, cerca de 97 kg.ha-1 de superfosfato triplo e 148 kg.ha-1 de fosfato natural reativo (80 kg.ha-1 de P2O5), atingindo o valor satisfatório para os citros, segundo análise de solo e recomendação para a cultura.
No caso do potássio, não se recomenda aplicar, pois este nutriente se encontra em alta concentração no solo, provavelmente devido ao material de origem do solo e  a aplicação prévia de doses inadequadas de potássio.
Para melhorar o teor de matéria orgânica no solo, recomenda-se o cultivo de aveia preta e ervilhaca, antes da implantação dos citros, melhorando a proteção da superfície do solo com palha.
Em relação à adubação nitrogenada, esta deverá ser aplicada na região da coroa das plantas. A dose a ser aplicada no 1° ano é de 100 g de uréia por planta, no 2° ano é de 170 g de uréia por planta, no 3° ano e de 230 g de uréia por planta e a partir do 4° ano em diante a dose a ser aplicada é de 340 g de uréia por planta, conforme o teor de matéria orgânica do solo.
Após feito o preparo da área e correção da fertilidade e do pH do solo, depois de seis meses, pode-se implantar o pomar. Nos primeiros três anos deve-se fazer o manejo da cultura, controlando invasoras e fazendo a adubação conforme o resultado da análise foliar das plantas (a ser realizada anualmente).
Para realização da análise foliar, as folhas devem ser coletadas entre os meses de fevereiro e março, de preferência de ramos da primavera, com frutos. Devem ser retiradas do ramo a 3ª ou 4ª folha a partir do fruto, na altura média da planta jovem ou a cerca de 1,5 m de altura de plantas adultas em produção e nos quatro lados da planta, sendo coletadas em separado as diferentes variedades, para então mandar para análise. Cada amostra deverá conter pelo menos 100 folhas, separando-se as folhas sadias das que apresentarem sintomas de deficiência. As amostras devem ser enviadas imediatamente após a coleta ou, se guardadas na geladeira, enviadas em até dois dias (Magalhães, 2006).
Após obter o resultado de análise, deve-se verificar quais nutrientes devem ser aplicados. É importante nesta análise verificar tanto os macro quanto os micronutrientes, devido ao elevado teor de K no solo e à baixa quantidade de matéria orgânica, podendo o pomar apresentar deficiência de alguns micronutrientes.

Espaçamento
Recomenda-se um espaçamento entre plantas de quatro metros e entre linhas de sete metros, possibilitando a livre circulação de máquinas entre as linhas. Propõe-se a implantação de três linhas de cada variedade, cada uma com vinte e quatro plantas.
As mudas devem ser plantadas em curva de nível, perpendiculares ao declive do terreno.

Preparo das covas

Após o preparo do solo, podem ser feitas manualmente covas com dimensões variando de 40 a 60 cm (largura e profundidade) ou ainda, utilizando-se equipamentos como “pé-de-pato”, que é utilizado após a  demarcação das curvas de nível com estacas, abrindo posteriormente pequenas covas que possibilitem acomodar o sistema radicular das mudas (tamanho de uma pá).

Plantio
Recomenda-se que o plantio seja feito nos meses de junho a agosto, em períodos chuvosos, para o caso de mudas de raiz nua. Se se tratar de mudas com torrão ou substrato, o plantio pode ser feito num período bem maior, praticamente todo ano, desde que haja irrigação. Entretanto, recomenda-se evitar os meses de verão.

Manejo do solo
Na entrelinha do pomar propõe-se realizar a sobressemeadura anual de aveia preta e ervilhaca, utilizando-se a semeadora a lanço existente na propriedade. Sugere-se que a semeadura seja feita no período de março a maio, como cobertura de inverno, na densidade de 25 kg de semente/ha de aveia e 28 kg de semente/ha de ervilhaca, deixando-se no verão a cobertura natural de campo nativo. Após a semeadura, deve ser realizada uma gradagem leve sobre a área.
A aveia e a ervilhaca devem ser roçadas na sua fase de floração, deixando-se o material resultante desta operação sobre o solo, como adubação verde para proteção contra os efeitos erosivos da chuva. A linha de cultivo deve ser mantida roçada principalmente no período vegetativo (rebrote).

Poda de Formação
O objetivo desta poda é formar a árvore com uma estrutura forte e porte apropriado. Pode ser feita já no primeiro ano, ou até o quarto ano. Deve-se cuidar para não se retirar mais do que 25% da copa, causando assim atraso no crescimento da planta jovem.
Procura-se com a poda de formação principalmente corrigir defeitos nas pernadas primárias e alguns nas secundárias, buscando-se abrir o centro da planta e quebrar a dominância apical de algum ramo.
Deve-se então realizar o desponte da haste principal a 60-70 cm e selecionar 3 a 5 brotos em posição espiralada ao redor da haste, que formarão as hastes primárias.

Controle de Pragas e Doenças
É importante também dar continuidade ao controle da formiga nos primeiros anos, com inspeções freqüentes (semanais ou quinzenais).
Além disso, deve-se monitorar também a ocorrência de doenças e insetos causadores de danos nas mudas de citros e, verificada a presença destes, recomenda-se consultar um Engenheiro Agrônomo para a identificação da doença ou praga e posterior recomendação de controle.

2º Ano
Não se faz necessária a realização de outros manejos que não o controle de pragas e doenças, que deve ser idêntico àquele feito no primeiro ano.

3º Ano
Poda de Limpeza
A poda de limpeza é feita para retirada de ramos secos, ramos atacados por pragas ou doenças e ramos ladrões, improdutivos. Tem como objetivo a eliminação de focos de pragas e doenças e o favorecimento de melhor arejamento da planta. Quando algum ramo doente é podado, o corte remanescente na planta deve ser preferencialmente pincelado com pasta de cobre.

Raleio de Frutos
Como o pomar de citros entra em produção de frutos a partir do terceiro ano, em média, deve-se proceder a etapa de raleio destes.
Os benefícios advindos do raleio são:
– evita a alternância de produção de um ano para outro;
– aumenta o tamanho dos frutos colhidos;
– evita quebra de galhos com muita carga;
– favorece o crescimento adequado de plantas novas.
A época para se fazer o raleio, de maneira geral, é logo após a queda natural de frutinhos, que ocorre, em nossas condições, de novembro a dezembro. O raleio pode ser feito manualmente.
Na execução do raleio, o produtor deve deixar cerca de 15 cm entre frutos. Em ramos com quatro ou cinco frutos, recomenda-se deixar de um a dois frutos.
A intensidade do raleio vai depender da carga que a árvore apresenta. Em anos de alta produção, o raleio pode chegar até 70% do total de frutinhos; em anos de baixa produção, o raleio pode ser dispensado.
Ao fazer o raleio, o produtor poderá fazer uma seleção qualitativa dos frutos, retirando frutos miúdos ou com sintomas de pragas e doenças e

Poda de Produção
Com a poda de produção, o objetivo é a obtenção de maior produção e/ou maior qualidade dos frutos. Para tanto, procura-se permitir uma maior entrada de luz no interior da copa, aproveitando esta área como produtiva, e manter uma relação equilibrada entre madeira, folhas e frutos. Deve-se realizar o desponte dos ramos terminais mais finos e que ocorrem em grande volume, favorecendo assim a incidência de radiação solar no interior da copa. Nos ramos mais grossos é feito o desbaste (que consiste do corte de ramos inteiros, rente ao ramo principal), o que promove a maior abertura da copa e a maior incidência de radiação solar.
A época mais indicada para este tipo de poda vai desde logo após a colheita, cuidando para evitar danos por frio, até dois a três meses após a queda natural dos frutinhos, dependendo da variedade e do vigor de resposta que se deseja da planta.

Colheita
A indicação do ponto de colheita deve ser baseada em parâmetros preferencialmente objetivos. O teor de sólidos solúveis totais (°Brix) é um parâmetro adequado, podendo ser determinado através de um refratômetro portátil, um equipamento barato, de fácil leitura e manuseio, e que pode ser comprado em lojas de aparelhos para laboratórios.
A colheita deve ser executada nas horas mais frescas do dia.

Pós-colheita
Depois da colheita, os frutos devem ser retirados do pomar tão logo seja possível e colocados em lugar com temperaturas mais amenas e protegidos do sol, principalmente em colheitas de dias mais quentes e sem nebulosidade. Deve-se também fazer uso de caixas adequadas, com superfícies lisas e sem arestas, contribuindo significativamente para a redução de danos por movimentação do material colhido por abrasão e impacto dos frutos.

Armazenamento
Quando possível, os frutos após a colheita devem ser armazenados em ambiente refrigerado.
A temperatura de armazenagem para laranjas (Valência e Folha Murcha) pode ser próxima a 0ºC. Bergamotas não devem ser mantidas em temperaturas inferiores a 5ºC, a não ser por períodos de uma a duas semanas.
A umidade relativa dentro da unidade armazenadora não deve ser inferior a 90%.

4º Ano
Recomenda-se a repetição dos mesmos procedimentos de controle de pragas e doenças, poda, raleio, colheita, pós-colheita e armazenagem citados anteriormente.

5º ao 20º Ano

Sugere-se a repetição dos mesmos procedimentos de controle de pragas e doenças, poda, raleio, colheita, pós-colheita e armazenagem, citados anteriormente.

Poda de Rejuvenecimento
Esta poda é utilizada quando se deseja regenerar a planta e/ou estimular novas brotações. Para isto pode-se retirar pernadas terciárias, secundárias e até mesmo primárias, quando for o caso, devendo a árvore, ao final da poda de rejuvenecimento, apresentar aspecto semelhante às da figura 30 (no caso da variedade Montenegrina). Sugere-se que seja feita sempre logo após o inverno, para que as brotações já estejam resistentes ao frio no ano seguinte.

A execução da poda de rejuvenescimento deve ser feita iniciando-se com os ramos maiores, e então os menores.
As superfícies de corte dos ramos podados e o tronco devem ser pintados com cal para refletir raios solares que podem causar danos por queimadura na planta. Os cortes grossos com mais de 2 cm de diâmetro devem ser protegidos através de pintura com tinta plástica.
Recomenda-se também que a poda de rejuvenescimento seja realizada de forma escalonada, ou seja, deve-se planejar a poda de uma linha ou de algumas árvores a cada ano para que esta não afete significativamente a produção, pois as árvores que passam por esta poda voltam a produzir em média apenas após três anos.

Fonte: http://www.sabernarede.com.br/agricultura-e-pecuaria/citricultura-implantacao-e-manejo-de-um-pomar-de-citros