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Cepea: Dólar eleva preços internos de commodities agropecuárias

Publicado em 25/09/2015

A escalada do dólar em relação ao Real tem dado grande suporte aos preços domésticos de produtos agropecuários tradicionalmente exportados. De acordo com levantamentos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, soja, milho, açúcar, algodão, carne suína e de frango são alguns dos que têm se valorizado no mercado interno em função do aquecimento das vendas para o exterior.

O trigo também é puxado pelo dólar. Neste caso, o Brasil importa cerca de metade do que consome, e as compras externas a valores maiores têm proporcionado reajustes dos preços ao produtor brasileiro mesmo neste período em que está começando a colheita de uma safra que pode ser recorde.

Mas, o câmbio eleva também os custos de produção. Insumos importados têm disparado. Nos últimos dias, conforme o Cepea, importadores (distribuidores) de fertilizantes chegam a relatar que estão sem parâmetros de preços para o mercado nacional, tamanha a variação do câmbio.

Com base nos levantamentos mensais de insumos, a equipe Cepea informa que, em agosto, o custo médio com fertilizantes e defensivos (impactados pelo dólar) da soja, por exemplo, em Mato Grosso, esteve entre 27% (Sorriso e Campos Novos do Parecis) e 41% (Primavera do Leste) superior ao de agosto do ano passado – considerando-se esses insumos a preços do respectivo mês. No Paraná, o encarecimento médio de adubos e defensivos foi de 22% em Londrina, de 32% em Cascavel e de 41% em Castro. O impacto da desvalorização mais recente do Real deve começar a ser sentido nas compras, principalmente de defensivos, que ainda precisam ser feitas para a temporada de verão.

Nos grandes grupos do agronegócio, especialmente do segmento industrial, a situação é mais crítica para empresas que captaram dinheiro no exterior e não se protegeram contra as oscilações cambiais. Não são raros no setor os casos de forte abalo financeiro justamente por conta da exposição ao risco da moeda.

Confira o impacto recente do câmbio sobre alguns produtos exportados:

SOJA – Na parcial do ano foram exportadas 48,3 milhões de toneladas de soja, 5,8% a mais que em todo o ano de 2014, de acordo com dados da Secex. Em termos reais, os preços do grão são os maiores desde dezembro de 2013. Só neste mês (até o dia 24), o preço médio da soja no Paraná (Indicador CEPEA/ESALQ) aumentou 9%, com a saca de 60 kg a R$ 79,57 nessa quinta-feira. Os derivados acompanham as altas do grão. O farelo de soja sobe 11% e o óleo de soja, 8,4% ao longo deste mês.

MILHO – Mesmo com colheita recorde no Brasil, os preços acumulam elevação expressiva desde agosto. Segundo pesquisadores do Cepea, vendedores anteciparam o fechamento de contratos a termo principalmente para exportação, tanto da safra atual quanto da seguinte, motivados pela forte valorização do dólar. Os contratos, em Reais, estão em níveis superiores ao mercado físico atual. Referente à região de Campinas (SP), o Indicador ESALQ/BM&FBovespa subiu 15,8% em setembro, a R$ 32,62/saca de 60 kg no dia 24.

TRIGO – A dependência de importação ainda é grande e, atualmente, ocorre a custos elevados. Além disso, chuvas intensas e geadas no Rio Grande do Sul podem prejudicar a produtividade e qualidade do cereal que está no campo, o que também tende a elevar as cotações internas do trigo de boa qualidade. Na média de setembro, os valores pagos ao produtor do Paraná estão 12,5% superiores aos de setembro/14 e, no Rio Grande do Sul, 10% maiores. No mercado de lotes, na mesma comparação, a alta chega a 29% no Rio Grande do Sul, a 23% em São Paulo e a 28,8% no Paraná – as valorizações do dólar motivam reações mais rápidas no mercado de lotes, comparativamente ao de balcão.

AÇÚCAR – A vantagem para a exportação foi de 11,84% na última semana, conforme cálculos do Cepea. De 14 a 18 de setembro, as vendas externas equivaleriam a R$ 57,21/saca de 50 kg, enquanto o Indicador de Açúcar Cristal CEPEA/ESALQ (mercado paulista) teve média de R$ 51,15/sc. Nessa quinta-feira, o Indicador CEPEA/ESALQ fechou a R$ 52,91/sc, aumento de expressivos 12,3% na parcial de setembro mesmo com a colheita em bom ritmo na região Centro-Sul.

ALGODÃO – A colheita brasileira do algodão está terminando. Apesar da retração da demanda, os preços da pluma seguem firmes no mercado interno, em linha com a paridade de exportação. Atentos ao fraco ritmo da atividade industrial brasileira, compradores adquirem novos lotes apenas quando têm necessidade de entrega rápida – seja para uso na linha de produção (indústria) seja para o cumprimento de contratos de matéria-prima (comerciantes). Em setembro, o Indicador CEPEA/ESALQ com pagamento 8 dias, referente à pluma 41-4, posta em São Paulo, sobe 4%, fechando a R$ 2,3456/lp no dia 24.

CARNES – A reação da demanda interna por carne suína aliada às exportações crescentes tem elevado os preços do vivo e da carne. A média diária de exportação de carne suína in natura nas três primeiras semanas do mês foi de 2,6 mil toneladas, 28,6% maior que a de agosto e 58% superior à de setembro/14. Caso o ritmo atual se mantenha, serão embarcadas aproximadamente 54,2 mil toneladas da carne em setembro, o segundo maior volume registrado em 2015. No mercado atacadista da Grande São Paulo, as carcaças especial e comum se valorizam 28% e 29,5% no acumulado de setembro, negociadas no dia 24 a R$ 7,07/kg e a R$ 6,81/kg, respectivamente.

No mercado de frango, o movimento de alta dos preços se intensificou em meados de setembro e a elevação no mês já está próxima dos 20% tanto para o frango inteiro congelado quanto resfriado no atacado da Grande São Paulo. Nesta quinta, o frango inteiro congelado teve média de R$ 4,15/kg e o resfriado de R$ 4,25/kg. Além do bom desempenho das exportações, a demanda interna pela carne de frango vem sendo favorecida pelos elevados valores da bovina e pelas recentes valorizações da suína.

A carne bovina, apesar de também ter se tornado mais competitiva no mercado internacional, não tem apresentado aumentos de volume exportado. Segundo pesquisadores do Cepea, isso ocorre porque a carne bovina brasileira é tradicionalmente adquirida por países emergentes que também estão tendo desvalorizações de suas moedas. Nesses casos, a opção seria por carnes mais baratas, como de frango e suína.

Fonte: Cepea