Casco: Utilização de novas tecnologias para melhoria da performance do cavalo atleta

GUSTAVO FERRER CARNEIRO1

Médico Veterinário, Ph.D. – Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Garanhuns. Av. Bom Pastor s/n – Boa Vista – Garanhuns – PE – 55.296-901 – e-mail: gustavo@uag.ufrpe.br

INTRODUÇÃO:
O homem capturou o cavalo na natureza e alterou seu estilo de vida. Essas alterações tiveram um reflexo muito negativo na vida do animal. Um dos exemplos está em relação a saúde e a qualidade do casco. A maioria dos cavalos domésticos são acima ou abaixo do peso adequado, são mal alimentados e mal treinados, seja por pouco treinamento deixando-os fora de forma, ou com treinamentos exagerados provocando lesões que podem comprometer a performance de esporte ou lazer. Além disso, a seleção genética é feita de acordo com esta performance, nunca tendo havido um trabalho de seleção genética visando uma melhor estrutura córnea.  Essa combinação de fatores faz com que os animais atletas sejam mais susceptíveis a injúrias músculo-esqueléticas e articulares, apresentando ainda uma cascaria deficiente que pode comprometer o trabalho e levar a futuros problemas.  A maneira mais importante de se lidar com esses tipos de problemas está na avaliação individual de cada caso.

FERRAGEAMENTO:
O ferrageamento dos animais proporcionam uma maior confortabilidade e faz com que eles sintam mais segurança e tornem-se consequentemente mais competitivos. Sabe-se que a claudicação ou manqueira é a maior causa de problemas nos cavalos de esporte. Por sua vez, as lesões articulares caracterizam a maior causa das claudicações representando a maior casuística para os veterinários clínicos de cavalo de esporte. Imediatamente após o contato do casco com o solo – fase de estancamento – o atrito provoca uma desaceleração, reduzindo a velocidade da falange distal do membro para praticamente zero, caracterizando IMPACTO. O impacto é considerado a fase mais crítica para o desenvolvimento de lesões músculo-esqueléticas no cavalo atleta. O impulso repetitivo durante o andamento, trote, galope ou corrida, mesmo que dentro dos limites fisiológicos possuem influências marcantes para a formação de lesões articulares em humanos, animais de laboratório e eqüinos2-5. A utilização de dispositivos que proporcionem uma melhor comodidade ao casco podem efetivamente reduzir as forças de absorção de impacto acentuadamente. Back e colaboradores (2006) realizaram um experimento com o objetivo de testar o efeito de ferraduras de diferentes materiais na absorção de impacto. Foram utilizadas no experimento animais com ferraduras produzidas a partir de material sintético a base de poliuretano (PU), ferraduras de ferro (FE) e cavalos desferrados1. Neste estudo, as ferraduras PU foram cravejadas e o grau de impacto foi medido pela amplitude das forças de aceleração e vibração durante o choque do casco ao tocar o solo, através do uso de eletrodos medindo essas vibrações nos cascos dos animais envolvidos.  Observou-se nesse estudo que os animais ferrados com ferraduras PU, apresentaram uma resposta neuromuscular mínima além de uma menor amplitude de aceleração de impacto e menor fricção em comparação com animais desferrados e ferrados com ferraduras FE.
Os resultados desse estudo nos possibilitam prever que a utilização de ferraduras PU em animais sadios que não apresentem problemas articulares, irão possivelmente prolongar a vida útil desses animais, minimizando assim a ocorrência de lesões músculo-esqueléticas. Por outro lado, é importante sempre frisar nos cuidados necessários na utilização do ferrageamento. As ferraduras possuem um tempo limite de uso e ultrapassar esse tempo pode comprometer o ângulo do casco e a força de tração exercida. A má utilização das ferraduras associados a um ferrageamento inadequado pode levar a uma claudicação simplesmente pela má colocação dos cravos ou mesmo a queda precoce de ferraduras em cascos quebradiços em virtude de uma colocação muito rasa dos cravos.

RELATO DE CASOS:
Durante um projeto piloto, testamos as ferraduras PU em 5 cavalos de vaquejada comparando com 5 de um grupo controle ferrados com FE. Ao término de 60 dias, observou-se nos animais ferrados com ferraduras PU que o crescimento da camada córnea ocorreu com maior intensidade. Isso se deve possivelmente pelo material ser mais flexível, permitindo assim um crescimento mais natural da camada córnea do casco em virtude de haver uma maior circulação na região córnea.

Baseado nesses resultados, decidimos utilizar a ferradura PU em um potro Puro Sangue Inglês que encontrava-se com o casco completamente aberto em virtude de uma broca. Em virtude da raça não permitir por razões de regulamento do hipódromo a utilização de ferraduras corretivas ou que caracterizasse utilização de atrito maior com o solo, realizamos um ferrageamento terapêutico com o intuito de propiciar um crescimento mais rápido da camada córnea e com a possibilidade do animal poder treinar antes da colocação da ferradura FE ou de alumínio para a corrida propriamente dita. Neste caso e em virtude do casco se encontrar fragilizado, decidimos colar a ferradura ao invés de cravejá-la. A ferradura permitiu um crescimento mais rápido daquele casco, possibilitando ainda que o animal entrasse em treinamento durante o período do tratamento. Essa terapia, possibilitou que o potro pudesse ser utilizado com uma brevidade maior em provas de corrida.

Ficamos interessados também no aspecto de durabilidade do material. Para isso, mantivemos as ferraduras PU em um cavalo quarto de milha de vaquejada por um período maior que o recomendado e comparamos com a ferradura FE. Observamos que a durabilidade da ferradura PU é maior em comparação com a ferradura FE e que o desgaste ocorre por toda a ferradura por inteiro. O inconveniente da manutenção da ferradura PU por um tempo mais prolongado é que irá haver uma redução no que esta ferradura oferece de maior vantagem que é a redução do impacto, que será inversamente proporcional ao desgaste da ferradura.

Testamos ainda sua função terapêutica em uma égua de hipismo que apresentou doença do navicular e em um cavalo com crescimento da cartilagem alar. Ambos animais tinham uma queixa de queda de performance e encontravam-se ferrados com ferraduras FE (fechada). Em ambos casos, obtivemos resultados bastante animadores. Os animais passaram a trabalhar normalmente e segundo o cavaleiro e o veterinário responsável pelos casos, os animais apresentaram um conforto após o uso dessa ferradura.

Testamos em uma égua da raça Campolina que também apresentava uma lesão de navicular e que não conseguia completar as provas de marcha que participava. A égua participou a prova em Salvador durante a FENAGRO 2008. Foi a primeira vez que a citada égua conseguiu terminar a prova e em sendo ainda Campeã da categoria. Posteriormente a mesma égua entrou em uma prova durante a Exposição em Pernambuco (Limoeiro) e conseguiu o Grande Campeonato da Raça.

Um outro fator que favorece os animais ferrados com PU é o peso, que equivale a 1/3 da ferradura FE, fator que também contribui para a melhora da performance em animais que apresentem problemas ou não.

Em outro teste, com um reprodutor quarto de milha que apresenta sintomas de laminite crônica e rotação moderada da terceira falange. Utilizamos a ferradura PU associada a uma camada de silicone na sola, com uma abertura no ponto mais externo da rotação da falange na sola do casco. O animal, aceitou muito bem a ferradura e com 1 semana após o ferrageamento, voltou as atividades de coleta de sêmen.

CONCLUSÃO:
A utilização dessas novas ferramentas irão ajudar a minimizar os problemas em animais de performance, quer seja quando utilizados preventivamente ou em ferrageamento terapêutico, tomando-se sempre o cuidado de avaliar casa a caso. Baseado nesse relato de casos e projetos pilotos, nos permite concluir que a utilização da ferradura PU no dia a dia de um cavalo atleta vai indiscutivelmente reduzir lesões que ocorram em qualquer tipo de animal, prolongando assim sua vida útil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Back W, Van Schie MHM and Pol JN (2006). Synthetic shoes attenuate hoof impact in the trotting warmblood horse. Equine and Comparative Exercise Physiology 3(3); 143–151.
2. Dyhre-Poulsen P, Smedegaard HH, Roed J and Korsgaard E (1994). Equine hoof function investigated by pressure transducers inside the hoof and accelerometers mounted on the first phalanx. Equine Veterinary Journal 26: 362–366.
3. Gustas P, Johnston C, Roepstorff L and Drevemo S (2001). In vivo transmission of impact shock waves in the distal forelimb of the horse. Equine Veterinary Journal Supplement 33: 11–15.
4. Lanovaz JL, Clayton HM and Watson LG (1998). In vitro attenuation of impact shock in equine digits. Equine Veterinary Journal Supplement 26: 96–102.
5. Willemen MA, Jacobs MWH and Schamhardt HC (1999). In vitro transmission and attenuation of impact vibrations in the distal forelimb. Equine Veterinary Journal Supplement 30: 245–248.

Fonte: Centro de Eqüinos de Pernanbuco –http://www.centrodeequinosdepe.com/exibir_dica.php?id=1

http://www.agromundo.com.br/?p=17545