Cana-de-açúcar: boa alternativa agrícola e energética para a agricultura nacional

Com os recentes problemas energéticos enfrentandos pelo Brasil – afundamento da plataforma P-36 da Petrobrás, as importações de petróleo, e a crise da energia elétrica – volta à tona a questão da independência energética do Brasil. Além da energia eólica e solar que devem ser cada vez mais adotadas no Brasil, na agricultura existe uma tecnologia barata e eficiente que está meio esquecida pelos nossos dirigentes, lideranças, técnicos e agricultores. Trata-se da produção de álcool combustível a partir da cana-de-açúcar, utilizando um micro destilador ao alcance dos pequenos agricultores familiares brasileiros. A matéria a seguir explica o assunto e foi extraída e resumida de artigo na última revista Agropecuária Catarinense, editada pela Epagri de Santa Catarina.

 

A descapitalização na agricultura nos últimos anos, especialmente dos pequenos agricultores familiares, e o crescente e constante êxodo rural têm levado os órgãos de assistência técnica, extensão rural e pesquisa agropecuária governamentais a buscarem novas alternativas econômica, social e técnicamente viáveis para o setor primário nacional. Uma destas alternativas, apesar de não ser uma proposta totalmente nova, é uma retomada de uma atividade que, com os devidos melhoramentos tecnológicos, está apresentando bons resultados e com boas perspectivas para os anos vindouros. Trata-se da produção de cana-de-açúcar e seu posterior processamento para obtenção de subprodutos como a aguardente, ou a popular cachaça, o açúcar mascavo, melado, rapadura e, mais ultimamente, a obtenção de álcool combustível.

 

Tudo parte desta notável planta com mil e uma utilidades que é a nossa tradicional e tropicalíssima cana-de-açúcar. Segundo a enciclopédia Delta Larousse, submetida ao simples processo de esmagamento, a cana fornece de 60 a 75% de suco doce e potável (garapa ou caldo de cana), rico em sais minerais e açúcares vegetais como glicose e sacarose. A evaporação da garapa fornece um melado ou xarope que, submetido a diferentes tratamentos, dá os diversos tipos de açúcar encontrados no comércio: refinado, cristal, mascavo, demerara, rapadura, etc. Esta garapa ou suco fermentado vai dar o vinho que por processo de destilação resultará na nossa famosa cana ou aguardente ou mesmo o álcool combustível, conforme regulagem na destilação, além de diversos outros componentes. E o bagaço resultante do esmagamento dos colmos para a obtenção da garapa pode ser aproveitado na fabricação de papel, produzindo papel amarelado ou róseo, facilmente branqueável. As cinzas desse bagaço fornecem excelente adubo potássico-fosfatado. Por outro lado, o vinhoto ou vinhaça, líquido que sobra no processo de destilação, e que por muito tempo era jogado nos rios e córregos, hoje em dia é reaproveitado como adubo na própria lavoura de cana. Numerosíssimas são as variedades cultivadas de cana-de-açúcar. Crioula ou mirim são as descendentes das primeiras mudas introduzidas no país, vindas da ilha da Madeira ou trazidas pelos holandeses para o nordeste. A caiena ou Bourbon, que melhorou a produção nacional, veio da Guiana Francesa a partir dos fins do século XVIII. Teve ainda introduções da Indonésia e de outras regiões. Existem também variedades cultivadas exclusivamente para forragem para o gado.

 

Microdestilador é eficiente e barato

 

Mais recentemente, no final da década de 70 e entrando nos anos 80, empresas como a Coopersucar e o Planalsucar, tendo em vista a primeira grande crise mundial do petróleo, desenvolveram intensas pesquisas e projetos na produção de variedades de maior rendimento visando a obtenção do álcool combustível. Não se pode esquecer também os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Agronômico de Campinas, SP que há mais de século desenvolve investigações científicas com diversos vegetais úteis, incluindo a cana. E, é claro, a Embrapa e as empresas estaduais de pesquisa agropecuária, nos últimos trinta anos, realizam constantes estudos para buscar alternativas aos produtores rurais brasileiros. Hoje, em função das investigações destas instituições nacionais de pesquisa, o Brasil conta com variedades que atingem mais do triplo ou quádruplo de rendimento das plantadas há um século ou menos.

 

Atualmente a Epagri está estimulando a produção e o posterior beneficiamento da cana-de-açúcar pelos agricultores catarinenses, com vistas à agregação de valor. O Centro de Treinamento da Epagri em São Miguel do Oeste vem desenvolvendo há quatro anos o Curso Profissionalizante de Produção e Processamento de Cana-de-açúcar com ênfase na produção de melado, açúcar mascavo, rapadura e schmier (pastas de frutas). Enquanto isso, a Estação Experimental de Urussanga, no Litoral Sul do estado, especializou-se na agroindustrialização caseira de aguardente e, agora no ano de 2001, a partir de junho, vai iniciar cursos de obtenção de álcool combustível, o etanol para produtores rurais. Conforme revela o engenheiro agrônomo e pesquisador Jack Eliseu Crispim, um dos técnicos responsáveis pelo curso profissionalizante de Urussanga, desde 1996 já foram desenvolvidos 19 cursos para cerca de 500 participantes, não só de Santa Catarina, mas também de outros estados como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Um fato interessante, e que agora abre boas perspectivas devido à nova crise internacional do petróleo, é que o técnico da Epagri, ao longo destes últimos anos de experiência nos cursos, conseguiu idealizar um novo equipamento de destilação de cana. É uma máquina prática e barata, e que permite a qualquer produtor regulá-la tanto para a produção de cachaça como para produção de álcool combustível. Crispim explica que, na verdade, ele juntou dois equipamentos já prontos: o destilador convencional de Minas Gerais e o alambique com sistema de destilação contínua de Santa Catarina. A estes dois, anexou o sistema de refrigeração (serpentina) e formou uma nova máquina.

 

Crispim observa que para obter o álcool combustível, a cachaça ou aguardente a 50o GL (mais ou menos 50% de álcool e 50% de água, mais os ésteres) , ainda na forma de vapor, entra numa coluna de destilação, denominada coluna de retificação, onde, por pontos de temperatura mais baixa nesta coluna com serpentina, vai condensando a água e depois o álcool que tem ponto de condensação menor. Por fim, o álcool separado quase totalmente da água, sai com graduação de 91o GL. A partir de 85o GL já pode ser usado como combustível automotivo, diz o técnico da Epagri. Jack Crispim agrega ainda que o custo de um destilador para aguardente custa R$ 4.600,00 e o destilador para álcool combustível (que é o mesmo anterior mais a coluna de retificação) fica por volta de R$ 8.000,00.

 

Dependendo da variedade, há maior rendimento

 

Segundo os pesquisadores da Estação Experimental de Urussanga Jack Eliseu Crispim e Simião Alano Vieira, Santa Catarina possui 14.664 hectares de cana plantados, localizados predominantemente nas regiões mais quentes do estado, Litoral, Vale do Itajaí e Oeste, com uma produtividade média de 52.395 kg/ha. ” Esta produtividade pode ser elevada bastante ainda “, garante o engenheiro agrônomo e pesquisador João Afonso Zanini Neto, Líder do Projeto Estadual de Produção de Sementes Básicas, Mudas e Plantas Matrizes da Epagri, locado na sede da Empresa, em Florianópolis, que mostra que em experimentos da Epagri com diversas variedades tanto no sul como no oeste de Santa Catarina já se consegue atingir rendimentos de 150 a 180 toneladas por hectare. ” É claro que isto ocorre em áreas experimentais, conduzidas científicamente, mas já é perfeitamente possível para um pequeno ou médio produtor rural catarinense conseguir produtividades de 80 a 120 toneladas com alguns cuidados técnicos”, agrega Zanini Neto, e destaca o sistema agroecológico de cultivo como importante alternativa. Já o pesquisador Simião Alano Vieira relata que entre as práticas recomendadas pela Epagri está o uso de variedades recomendadas pela pesquisa, resistentes às doenças, com facilidade para a despalha (importante na hora da colheita e moagem). Igualmente os técnicos sugerem que o agricultor utilize espaçamentos de plantio e densidades adequados, bem como adubação recomendada pela análise de solo, com ênfase na adubação orgânica. ” Cada agricultor que faz o curso, recebe 100 colmos para iniciar sua lavoura, desde já com uma variedade adequada e de alta produtividade”, acrescenta Simião. Melhor ainda se os agricultores produzirem agroecologicamente, pois assim barateiam seus custos de produção, além é claro de ser ambientalmente desejado e para a saúde também.

 

Crispim raciocina que para cada tonelada de colmo produzida é perfeitamente possível obter 600 litros de caldo ou mosto de cana a 20 o Brix (unidade que exprime o índice de açúcar) que por sua vez podem resultar em 120 litros de aguardente a 50 o GL ou 60 litros de álcool e ainda sobra 300 a 500 kg de bagaço. O bagaço pode fornecer energia nas caldeiras de produção de álcool sobrando 20%. E para cada litro de álcool produzido sobra 12 litros de vinhoto que pode ser aplicado no canavial como adubo rico em N, P, K e micronutrientes. Pode-se aplicar até 100 m3 por ha do vinhoto. Continuando o raciocínio, para um hectare que produz 100 toneladas de colmo, o produtor rural pode optar em produzir aguardente ou álcool combustível, conforme for mais interessante, ou pode produzir os dois produtos. Exemplificando, as 100 toneladas de colmo fornecem ( 100 x 120 ) 12 mil litros de aguardente por hectare, que comercializados ao preço atual de R$ 1,40 reais/l, rendem ao ano R$ 16.800,00. Caso o produtor desejar vender a matéria prima bruta, ou seja, os colmos da cana, hoje em dia a cotação da tonelada é de somente R$ 25,00. Se considerar o custo de R$ 0,27 por litro de aguardente (sem considerar os custos iniciais do destilador e instalações), o lucro líquido por hectare atinge R$ 13.560,00. “Trata-se de uma boa renda, se considerarmos que são pouquíssimas as alternativas agrícolas atuais com esta performance econômica”, agrega Jack Crispim. Ele lembra ainda que na região sul do estado existem 300 alambiques, e no estado todo cerca de 1.200, a maioria absoluta em pequenas propriedades familiares. O técnico ressalta também que os três estados do sul – RS, PR e SC- só produzem 10% de sua demanda de aguardente, os outros noventa porcento vêm principalmente de São Paulo.

 

Autosuficiência energética

 

Outro cálculo bastante interessante é feito com o álcool. Uma família rural usando 50 litros de álcool semanalmente em seu veículo convertido (camioneta ou automóvel), em um ano consumirá 52 x 50= 2.600 litros. Em um hectare que produz 100 toneladas de colmo, o agricultor vai destilar cerca de 6 mil litros de álcool, portanto vai sobrar ( 6.000-2.600) 3.400 litros que podem ser usados em caminhão, trator ou microtrator, motores estacionários, trilhadeiras, trituradores, etc. A vantagem do uso do combustível, além de produzido no próprio estabelecimento e proporcionando autosuficiência energética, também está no preço gasto. Segundo Crispim, para produzir um litro de álcool, baseado no modelo de equipamento de destilação da Estação Experimental de Urussanga, gasta-se R$ 0,36 (sem contar o custo inicial de infraestrutura e equipamentos), bem mais em conta que o preço atual nos postos de combustíveis. Ademais este custo pode ainda ser baixado, se for considerado só o que o agricultor desembolsa, ou seja, não considerando a depreciação, juros, etc. Note-se que esta análise é somente para um hectare. Na realidade, as pequenas propriedades no sul do Brasil ou em outras regiões, com áreas médias totais de 20 a 50 hectares podem perfeitamente aproveitar 2, 3, 4 ou mais hectares seja para consumo próprio de combustível, seja para fabricação de aguardente, ou os dois produtos ao mesmo tempo, bastando que o agricultor tenha a coluna de retificação junto ao seu destilador modelo Urussanga. Hora ele produz a aguardente, hora ele regula para a produção de combustível, sem maiores problemas. Crispim sugere que caso for difícil para um pequeno produtor adquirir ou montar o destilador, este pode ser construído de forma conjunta com vizinhos ou amigos, dentro de uma mesma comunidade, conseguindo-se algum tipo de financiamento específico para a pequena unidade familiar rural , a exemplo do Pronaf, ou mesmo com recursos próprios.

 

O chefe da Estação Experimental de Urussanga, o engenheiro agrônomo e pesquisador Mauro Lavina forneceu a planilha de consumo de combustível da frota de 24 veículos da Estação, a maioria carros e algumas camionetas. Considerando que todos utilizassem o álcool combustível e levando-se em conta os 36.528 km percorridos pela frota no mês de novembro de 2000, dá para fazer o seguinte cálculo. A um consumo médio de 8 km por litro de álcool, resultaria 36.528 km dividido por 24= 1.522 km por veículo e 1.522 dividido por 8= 190,25 litros de consumo por veículo ao mês. Logo, num ano de trabalho (11 meses, pois o mês de janeiro é férias coletivas na Epagri), resultará em 190,25 x 11 x 24= 50.226 litros de álcool combustível a ser gasto pela Estação. O cálculo agora é saber quantos hectares de cana são necessários para este consumo. Assim, se um hectare produz 6.000 litros de álcool, logo 50.226 dividido por 6.000= 8,37 hectares. Isto sem falar na considerável economia financeira, ao se trocar a gasolina pelo álcool a 36 centavos ou menos. O microdestilador modelo Urussanga, idealizado por Jack Eliseu Crispim, pode ser adaptado também para maiores produções, para empresas ou grupos de agricultores que desejam investir com um volume maior de recursos, seja na aguardente de cana, seja em combustível.

 

O intuito desta matéria é mostrar que nosso país possui condições de oferecer alternativas viáveis aos produtores rurais, tanto do ponto de vista agrícola como também energético. A cana-de-açúcar não é um vegetal milagroso, mas possui características incomuns. É uma planta que consegue captar de maneira extremamente eficiente a energia solar abundante no Brasil, e transformar esta energia em diversos produtos. No caso específico de produção de álcool combustível, trata-se de uma alternativa que não só é econômica e tecnicamente viável, como também do ponto de vista estratégico permite ao Brasil economizar na importação de petróleo, hoje a um custo crescente no mercado internacional. Não se quer insinuar que o Brasil deixe de produzir gasolina e seus derivados, para investir no álcool. O que se quer mostrar é que, investindo também no álcool combustível, inclusive em pequenas e médias propriedades rurais, conseguir-se-á reduzir ou até estancar o envio de preciosas divisas ao exterior, ao mesmo tempo gerando um excedente de combustíveis, o que poderá ser muito salutar à economia. Sem falar que o álcool obtido na agricultura é uma fonte renovável de energia, e que utilizando métodos agroecológicos de produção, pode ser ambientalmente recomendável pois trata-se de um combustível com baixo índice de poluentes. E sem falar na geração de emprego e renda no meio rural, ajudando a estancar o êxodo rural. Finalizando, e para reforçar estes argumentos, vale registrar as declarações obtidas pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre, RS, no dia 22 de dezembro de 2000, do Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Alcides Tápias: ” Exportar álcool para os Estados Unidos, além de alimentos para o Japão, será uma das prioridade do Ministério “. E, logo em seguida, o jornal escreve, ” Segundo o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca, o Brasil consome 11 bilhões de litros de álcool por ano, mas tem capacidade para produzir 20 bilhões, podendo exportar o excedente”. E no dia 23 de dezembro, o jornal Folha de São Paulo, em coluna do conhecido jornalista econômico Luiz Nassif, confirma a prioridade de exportação pelo Ministério do Desenvolvimento, e faz uma análise global da crescente importância do álcool, mostrando diversos países que estão apostando no etanol .

 

Fonte: http://www.planetaorganico.com.br/trabcana1.htm