Sanitário

Calos nas patas

Os que já tiveram calos nos pés sabem como isso dói. A cultura popular está repleta de ditados neste sentido, tal como “só quem calça o sapato sabe onde o calo lhe aperta” e “só se sabe como dói pisar em um calo quando alguém pisa no seu”. Calo é o nome genérico de uma hiperplasia benigna, ou seja, um tumor benigno. A palavra “onkos”, em grego, significa calo e é usada para compor o nome da ciência que se ocupa do estudo dos tumores: oncologia.

Entretanto, não são apenas os humanos que tem o “privilégio” de sofrer com os calos. Os bovinos são bastante suscetíveis a um quadro semelhante. Trata-se da hiperplasia interdigital bovina (HIB), doença responsável por graves prejuízos aos pecuaristas. A HIB também é conhecida por vários outros nomes, tanto técnicos (tiloma, gabarro, límax, pododermatite vegetante, fibroma, granuloma interdigital), quanto populares (frieira, broca). Deve-se, todavia, ter cuidado com os nomes populares, pois usualmente o mesmo nome é usado pelo pessoal de campo para se referir a doenças distintas. Por exemplo, o termo “frieira” é usado no caso da HIB, mas também é empregado com freqüência no caso da pododermatite interdigital, que é outra doença, caracterizada por lesão da pele do espaço interdigital, mas sem necessariamente a ocorrência de hiperplasia.

A HIB consiste na proliferação benigna de tecido queratinizado no espaço contido entre as unhas dos cascos, freqüentemente nos posteriores. Normalmente ocorre com mais intensidade em um determinado membro, mas não é raro acometer todos os quatro. Animais adultos apresentam com mais freqüência a doença, fato que permite supor que o peso corpóreo seja um dos fatores que contribuem para o formação do calo. A doença acomete tanto gado de corte quanto gado de leite. Todavia, devido às adversas condições de higiene que normalmente se encontra nas criações de leite, é comum a HIB assumir uma gravidade maior em animais desse tipo de criação.

A causa mais comum é a irritação crônica provocada por inflamação na pele do espaço entre as unhas, sendo que diversas condições podem causar essa inflamação, dentre elas a manutenção constante dos animais em locais úmidos e sujos, tal como currais repletos de esterco. Além disso, existem evidências, em certos casos, de envolvimento genético na ocorrência desta doença, ou seja, alguns animais já nascem com uma predisposição para o desenvolvimento desta hiperplasia e as condições ambientais apenas aceleram seu surgimento. Isso é um tanto preocupante, pois há risco de transmissão hereditária do problema. Outro fator predisponente é a presença de unhas muito afastadas, que expõe de maneira mais intensa a pele do espaço interdigital, favorecendo traumatismos de forma mais constante.

O quadro começa com uma pequena formação no espaço interdigital, que causa pequeno ou nenhum desconforto ao animal. Entretanto, com a evolução da lesão, o calo aumenta de volume e começa a provocar muita dor ao andar. Isso pode ser rapidamente notado, pois os animais afetados mancam e o calo pode ser visualizado facilmente por um exame direto do espaço interdigital, mesmo com o animal em pé.

A dor traz várias complicações ao animal. Fêmeas diminuem o apetite e apresentam substanciais quebras de produção leiteira. Há perda de peso e apatia progressiva. Machos com lesões nos membros posteriores não conseguem saltar para cobrir fêmeas no cio. Em casos extremos, pode haver complicação sistêmica, com febre e septicemia.

Animais não tratados no tempo devido podem ter várias complicações. A mais comum é a ulceração e contaminação da lesão, com a instalação de miíases (“bicheiras”). Nestes casos, pode haver o comprometimento dos cascos, ou seja, a doença deixa de ser apenas interdigital e começa a afetar o casco com um todo. Pode haver destruição expressiva de tecido córneo dos cascos e, em casos extremos, não é possível recuperar o animal.

Entretanto, apesar dessa possível grave evolução, a HIB quando tratada precocemente apresenta boa recuperação. Assim, é fundamental que seja solicitada a intervenção de um médico veterinário em tempo para a resolução do problema. Infelizmente, não são raros os casos em que inúmeras soluções caseiras são tentadas antes de se chamar o veterinário. Nestes casos, face ao desenvolvimento da lesão, fica complicada a intervenção do profissional. A precocidade do tratamento é a chave do sucesso.

O veterinário irá decidir, inicialmente, se é necessário ou não ser feita uma cirurgia para resolver o problema. Casos simples, na fase inicial, podem apresentar solução quando tratados apenas de forma conservativa, por exemplo através do uso de pedilúvios com soluções anti-sépticas, como formol ou sulfato de cobre.

Na maior parte das vezes, porém, é necessário ser feita uma cirurgia para a remoção do tecido hiperplásico. É uma cirurgia simples, muitas vezes feita apenas com anestesia local, mas que precisa ser feita de maneira segura e habilidosa. O procedimento consiste basicamente na remoção do tecido com um bisturi, seguida da aplicação de um curativo específico. A intervenção feita por leigos, infelizmente, é muito freqüente e costuma dar muito trabalho ao veterinário que tem, posteriormente, que corrigir as seqüelas dessa intervenção, comumente caracterizadas por graves lesões decorrentes de queimaduras por ferros em brasa, hemorragias e infecções por falta de higiene.

Quando for o caso, o veterinário poderá também acrescentar uma medida para aproximar as unhas da pata afetada, reduzindo o espaço interdigital. Essa medida se aplica nos casos de animais que tenham as unhas muito afastadas e visa proteger a pele interdigital, prevenindo a reincidência do problema, a qual costuma ser muito freqüente.

Quando feita adequadamente, a recuperação da cirurgia é rápida. Muitos animais, imediatamente após a cirurgia, apresentam sensível melhora no andar, pois a simples remoção do tecido já lhes dá grande alívio na dor. A recuperação completa, porém, depende de cuidados com os curativos pós-cirúrgicos e costuma levar de duas a três semanas. Desta forma, para uma completa cura, é fundamental que os tratadores da propriedade se ocupem da troca periódica do curativo na pata afetada, medida fundamental para o sucesso da intervenção.

A questão principal da enfermidade, porém, está na prevenção. Um dos principais fatores associados com a doença é a falta de higiene ambiental. Currais sujos, com acúmulos de esterco e mal ventilados são um convite à doença. Na verdade, inúmeras outras doenças ocorrem nestas condições, tal como a mastite e as infecções uterinas. Assim, uma das principais medidas para a prevenção da HIB continua sendo a limpeza diária, com remoção do esterco e lavagem das instalações. Não há receita mágica.

Atenção especial deve ser dada, entretanto, à característica genética da doença. Em rebanhos em que a HIB é muito freqüente e as condições de higiene ambiental estejam sob controle, deve-se avaliar essa condição. Machos portadores da doença não devem ser usados para a reprodução, pois irão transmitir essa predisposição a todos seus descendentes. Um programa de progressiva eliminação de fêmeas acometidas também deve ser considerado.

Maurício Garcia
Universidade Anhembi Morumbi
Associação Brasileira de Buiatria

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=150