Produtivo

Calagem é investimento com retorno certo

Para alcançar maior produtividade e enriquecer o solo de suas propriedades, os agricultores brasileiros do Sudeste e Centro-Oeste já estão fazendo a correção de nutrientes e aplicação de calcário em suas terras. De acordo com o pesquisador José Antonio Quaggio, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), esta é a época para fazer a calagem nas lavouras da maioria das culturas (cereais, cana-de-ano, parte dos citros).

No Brasil, onde cerca de 70% dos solos são ácidos, a aplicação de calcário é considerada por especialistas e produtores uma tecnologia eficiente e barata. Além de poupar áreas nativas da exploração para agricultura, esse insumo é um dos maiores responsáveis pelo aumento da produtividade brasileira. “O maior uso de calcário para corrigir os solos e fertilizantes para adubar fez com que a produtividade quase dobrasse nas principais culturas do Brasil, nos últimos anos”, afirma Quaggio.

O pesquisador apenas lamenta que cerca de 50% dos pequenos produtores nem tenham idéia de como fazer a calagem. “A maior parte de grandes e médios agricultores faz a correção do solo, mas o pequeno produtor, que é importante fornecedor para o mercado interno, ainda não conhece as vantagens da calagem.”

Pesquisa feita pela Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola (Abracal) mostra que 40% dos produtores brasileiros, em geral, desconhecem a necessidade de corrigir o solo para obter produtividade mais alta. Por isso, entidades privadas e órgãos públicos de pesquisa têm trabalhado para esses agricultores estarem cada vez melhor informados sobre a importância de ter um solo em bom estado.

Primeiro passo – O mais importante nesse processo é, segundo Quaggio, fazer a análise do solo todo ano. O produtor deverá dividir a propriedade em glebas homogêneas de 10 hectares e coletar pelo menos 20 subamostras de terra. Essas subamostras devem ser misturadas em um recipiente limpo e constituirão, então, uma amostra de solo representativa da gleba. “Em regiões de solos homogêneos, como o cerrado, os donos de grandes propriedades podem até trabalhar com glebas maiores, de 20 hectares”, diz o pesquisador.

O médico veterinário e produtor rural Paulo Rossano Dutra dos Santos, de Santo Antônio da Patrulha (RS), corrigiu a tempo seus hábitos e o solo de sua propriedade. Há 17 anos, não sabia que era preciso fazer esse tipo de análise, nem que o calcário poderia ser uma ferramenta potente para aumentar a produtividade. Hoje, utiliza 2 toneladas de calcário por hectare de sua lavoura de arroz e produz 30% mais que antes. “Este ano, arrendamos mais 35 hectares, além dos 120 nos quais já trabalhamos. Como não tínhamos muito dinheiro, deixamos esses 35 sem corrigir”, conta. O resultado, diz ele, foi de 101 sacas de arroz por hectare na área não-corrigida. No solo corrigido, a produtividade chegou a 133,3 sacas por hectare. “No ano que vem, não vamos pensar duas vezes: vamos fazer a correção de toda a área e ponto final.”

Quaggio sugere que, a cada três anos, o produtor peça uma análise mais detalhada do solo de sua propriedade. “Todo ano o produtor deverá coletar amostras da camada arável (solo de até 20 centímetros a partir da superfície) e a cada três anos, além dessas amostras, ele deverá coletar outras, de uma camada mais profunda, de 20 a 40 centímetros de profundidade”, explica o pesquisador. “Isso servirá para identificar possíveis barreiras químicas ao crescimento das raízes.”

Segundo o pesquisador, essa necessidade existe porque a acidez do solo não tem conseqüências visíveis, como a falta de nitrogênio, que deixa a planta amarelada. “A acidez causa problemas diretamente na raiz da planta. Se as raízes não crescem, as plantas sofrem estresse hídrico e aproveitam água e nutrientes apenas das camadas mais superficiais.”

Laboratórios – Após a coleta, as amostras deverão ser encaminhadas a um laboratório idôneo, para uma análise segura. O IAC recebe e analisa amostras em seu próprio laboratório e tem disponível, para consulta, uma lista com telefones de 80 outras unidades credenciadas, que realizam o mesmo trabalho em 15 Estados brasileiros. O produtor pode procurar uma dessas unidades, um outro laboratório de sua confiança ou ainda encaminhar as amostras ao IAC (Caixa Postal 28, CEP 13001-970, Campinas, SP). Lá, a análise completa (macro e micronutrientes), com o parecer de adubação e calagem, sai por R$ 25,00 por amostra e fica pronta em uma semana. “Interpretamos o resultado e indicamos o quanto de calcário, nitrogênio, fósforo, potássio e outros nutrientes o produtor terá que usar em sua propriedade, para corrigir o solo”, diz Quaggio.

A Embrapa Solos também faz análise de solo. O produtor pode enviar as amostras ao Serviço de Atendimento ao Cliente (Rua Jardim Botânico, 1.024, CEP 22460-000, Rio de Janeiro, RJ). O preço de análise de rotina é R$ 13,50.

Se o agricultor quiser analisar também a quantidade de micronutrientes, o trabalho custa R$ 19. Ambos os valores são apenas para os resultados das análises. O produtor poderá solicitar interpretações desses resultados, mas, nesse caso, o preço será previamente combinado por telefone.

Particularidades – A calagem é feita, normalmente, de 60 a 70 dias antes do plantio e deve ser repetida a cada três anos. “É o tempo médio de duração do efeito residual da correção”, avalia Quaggio, do IAC. “Para cada real gasto com correção do solo, o produtor tem de R$ 12 a R$ 15 de retorno em produtividade, que cresce e se mantém alta mesmo sem a aplicação anual de calcário.”

O calcário pode ser aplicado na superfície do solo, no sistema de plantio direto, ou misturado à terra, com arados e grades, se o sistema de plantio for convencional. “Atualmente, a maior área plantada do País ainda trabalha com o sistema convencional, mas já há dados mostrando que o plantio direto ocupa 25% das áreas com culturas anuais”, diz o pesquisador Alberto Bernardi, da Embrapa Solos.

Fonte: O Estado de São Paulo

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