Equídeos

Velocidade de R$ 7,3 bi por ano

Cavalos

Pio Guerra*
Sidney Almeida Filgueira de Medeiros**

A importância dos eqüinos para o desenvolvimento nacional vem desde os tempos do Brasil Colônia, nos ciclos extrativistas, agrícolas e de mineração. O animal participou das incursões do homem ao interior do território brasileiro e serviu como aparato armamentista para as Forças Armadas. Hoje, o uso do cavalo está associado às atividades rurais e urbanas, de trabalho, esporte ou lazer.

O agronegócio cavalo tem duas peculiaridades:

1. Elos com papéis duplos: uma escola de equitação, por exemplo, pode representar o consumidor final ou vir antes do frigorífico na cadeia produtiva da carne eqüina.

2. Inexistência de transformação agroindustrial: na maioria das vezes o cavalo produzido na fazenda está pronto para o consumo final.

Os animais destinados à produção de carne ocorrem ocasionalmente no agronegócio. Como acontece apenas a transferência de posse do animal vivo entre os diversos segmentos do setor, a área de insumos permeia diversos outros elos. O segmento de rações, por exemplo, fornece para o produtor e o treinador de cavalos, bem como para quem os adquirir como usuário, seja para esporte, trabalho ou lazer.

Devido ao pioneirismo do estudo e à insuficiência de dados primários, a avaliação econômica foi medida pela acumulação do produto gerado nas diversas atividades [valor bruto da produção]. Os valores se referem a 2005.

Emprego para 3,2 milhões

Dentre as várias dezenas de componentes mapeados, 25 segmentos puderam ser quantificados e classificados de acordo com a função dentro do complexo. O faturamento total é da ordem de R$ 7,3 bilhões, com geração de 641 mil empregos diretos, seis vezes mais do que a indústria automotiva e 20 vezes mais do que a aviação civil, outros importantes setores da economia brasileira. Quando se somam as ocupações diretas e indiretas, o agronegócio cavalo gera 3,2 milhões de postos de trabalho.

Cadeia produtiva nacional de eqüinos  
• Rebanho nacional: 5,9 milhões de cabeças, sendo 75% para lida e 25% com maior valor agregado e usos diferenciados;
• Terceiro maior rebanho do mundo: em primeiro, China (7,9 milhões de cabeças) e segundo, México (6,3 milhões de cabeças);
• 23 associações de criadores das mais diferentes raças;
• Maior rebanho estadual: Minas Gerais ( 860 mil cabeças), Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul.
 
   
   

Atividades antes da porteira: os segmentos mapeados fornecem insumos, produtos e serviços necessários à criação e ao uso de cavalos, com movimento, de R$ 523 milhões e a geração de 14.785 empregos diretos.

Segmento de selaria e acessórios movimenta R$ 174,6 milhões por ano e emprega diretamente 12 mil pessoas. As selarias são micro e pequenas empresas. Cerca de 70% do valor de cada sela produzida diz respeito à mão-de-obra.

Segmento de casqueamento e ferrageamento movimenta R$ 143,6 milhões ao ano e gera 2.100 empregos diretos. Cerca de 60% do custo de ferrageamento são devidos ao uso de mão-de-obra.

Segmento de medicamentos veterinários e de rações movimenta R$ 107,5 milhões. Apenas 360 mil animais consomem ração industrializada e 250 mil animais utilizam medicamentos veterinários. O fato de muitos produtos veterinários utilizados em eqüinos serem registrados e, conseqüentemente, contabilizados para bovinos, acarreta subdimensionamento dos números.

Segmento de educação e pesquisa mostra 270 cursos de graduação e 68 programas de pós-graduação relacionados à eqüinocultura, além de 34 grupos de pesquisa com mais de 650 pessoas. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Senar, vinculado à CNA, tem grande destaque, com a realização em 2005 de mais de 1.100 cursos para 17.400 pessoas.

Segmentos de transporte e de mídia, com faturamento de R$ 96,4 milhões.

A elevada importância dos segmentos de casqueamento e de selaria na geração de mão-de-obra é bastante explorada em outros países, como China e Índia, com bastante empenho para aproveitar o apelo social inserido nesses setores.

Atividades dentro da porteira: os segmentos mapeados utilizam o cavalo diretamente em suas atividades, com movimento de R$ 6,6 bilhões e oferta de 625 mil empregos.

Segmento de lida merece especial atenção, com movimento de R$ 4,0 bilhões por ano e geração de mais de 500 mil empregos diretos nas propriedades rurais, 85,0% deles formais.

Segmento fornecedor de animais e serviços para três finalidades: comercial (vender produtos), profissional (prestar serviços a terceiros) e particular (uso próprio), com movimento de R$ 1,65 bilhão e ocupação de mão-de-obra direta de 91,4 mil pessoas. A partir desses agentes são produzidos os animais que farão parte de todos os outros segmentos das atividades dentro da porteira, com exceção da lida.

Segmentos para uso militar, turismo eqüestre, jockey clubes, exposições e eventos, escolas de equitação, equoterapia, esportes hípicos e outras modalidades de esporte, como o pólo, o trote e a vaquejada, com movimento de R$ 1,0 bilhão e oferta de 125 mil empregos diretos.

Atividades fora da porteira: os quatro segmentos mapeados encerram o ciclo do cavalo, com geração de 1.360 empregos e movimento de R$ 123 milhões.

Segmento exportação de carne eqüina: avançou de R$ 11,7 milhões em 1990 para R$ 80 milhões no ano passado. O Brasil é o quinto maior exportador, conta com sete frigoríficos habilitados para este tipo de abate e a inauguração de um oitavo está prevista para 2007. A exportação de animais vivos saltou de US$ 260 mil em 1996, para US$ 2 milhões em 2005.

Segmento de leilões, entre 1995 e 2004: a) número de remates aumentou 103%, ao subir de 133 para 270 leilões por ano; b) número de animais, embriões e coberturas leiloados foi de 4.652 a 10.374, ou seja, 123%; c) o faturamento alcançou R$ 19,1 milhões.

O segmento de curtume apresentou um faturamento de R$ 15 milhões em 2005.

Tendências

As atividades de apoio correspondem aos serviços de medicina veterinária, às seguradoras de animais e às instituições financeiras, com contribuição para o adequado desempenho do complexo e atuação ao longo de toda a sua estrutura.

A partir dos vários entraves mapeados, propostas podem ser priorizadas para possibilitar um melhor direcionamento de ações estratégicas em favor da eqüinocultura brasileira, com vista à melhoria da eficiência sistêmica do complexo e o estabelecimento políticas públicas setoriais.

No ambiente organizacional, a recente estruturação política do setor no âmbito da Comissão Nacional do Cavalo da CNA e da Câmara Setorial de Eqüideocultura do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA – proporciona o alcance de resultados positivos, como a construção de um terminal para transporte aéreo de animais vivos, a desburocratização na exportação de animais, o diálogo para a revitalização dos jockey clubes e a mobilização em torno de um plano eficiente de sanidade eqüina e de controle de resíduos da carne.

Como não se tinha um conjunto de políticas públicas consolidado para o setor, qualquer ação do governo voltada para a eqüinocultura será de grande valia para o seu desenvolvimento. No Brasil, as peculiaridades edafoclimáticas regionais propiciam formas de interação das diferentes raças eqüina com o meio ambiente e a tendência de reciprocidade da população urbana com a natureza, onde o cavalo é um importante elo de ligação e de enorme potencial.

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* Engenheiro-agrônomo, produtor rural, vice-
presidente executivo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA, presidente da Comissão Nacional do Cavalo da CNA.
** Engenheiro-agrônomo, mestre em Ciências Agrárias, assessor técnico da Comissão Nacional do Cavalo da CNA.
Estudo encomendado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq/USP.

Fonte:

http://www.agroanalysis.com.br/index.php?area=conteudo&mat_id=131&from=mercadonegocios