Cana de Açúcar

Boias-frias abandonam migração para o corte da cana em São Paulo

Folha de S. Paulo20 Abr 2015

 

Eles chegavam aos milhares em caravanas de ônibus, dormiam em abrigos para mais de 400 pessoas, ocupavam as praças, supermercados e quadras de esporte das cidades e fizeram, por décadas, parte da paisagem da região de Ribeirão Preto.

Mas, neste ano, os boias-frias desapareceram da mais tradicional região produtora de cana-de-açúcar do país.

Nesta época do ano, era comum a chegada de ônibus do Vale do Jequitinhonha (MG) ou de Codó e Timbiras, no Maranhão, com trabalhadores para o corte da cana na macrorregião de Ribeirão.

Mas, com a assinatura do protocolo agroambiental entre as usinas e o Estado, em 2007, a mecanização de cana avançou muito, levando os migrantes a abandonar a área.

Segundo a Pastoral do Migrante de Guariba (SP), em 2015 não chegou à cidade um único migrante, fato inédito em 40 anos. Na década passada, eram ao menos 15 mil ao ano. Agora, buscam outras regiões para atuar na construção civil e na citricultura, ou ficam em seus Estados.

Dos 1.200 boias-frias esperados no entorno de Guariba, no máximo cem devem ser migrantes, segundo o Sindicato dos Empregados Rurais da cidade. A mão de obra total já foi de 60 mil.

Mecanização nos Canaviais

Guariba é uma cidade símbolo da luta dos boias-frias, graças a um levante ocorrido em 1984 que resultou em uma morte e iniciou mudanças nas relações trabalhistas.

“Hoje, quando ocorre, a migração é espontânea. Ônibus com centenas de migrantes chegando não há mais, nem haverá”, disse a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, que estuda essa dinâmica trabalhista no campo há mais de três décadas.

Dos 5,5 milhões de hectares com cana em São Paulo, 85% foram colhidos por máquinas em 2014, segundo o IEA (Instituto de Economia Agrícola). Em 2007, a mecanização alcançava 42%.

A cada 1% de aumento na colheita mecanizada, 702 postos de trabalho são extintos, segundo o instituto.

Com restrições a queimadas, podão é coisa do passado, afirma tratorista

Boa parte dos migrantes que ainda vivem na região de Ribeirão Preto (SP) teve de se adaptar à nova realidade dos canaviais, hoje repletos de máquinas agrícolas.

A mecanização ganhou força a partir de 2007, quando aumentou a restrição às queimadas, que facilitavam o corte manual, mas trazem riscos ambientais. Com a máquina, é possível colher a cana crua, o que fez cair a contratação de boias-frias.

“Precisei me qualificar para deixar o podão, que é puxado. Isso é passado”, diz o tratorista João Lindomar dos Santos, 43, que saiu do Paraná para viver na região de Ribeirão Preto nos anos 1990.

Ele recebe pouco mais de R$ 2.000 mensais, valor superior ao de muitos boias-frias, que não chega a R$ 1.500. Contudo, mais importante que o valor, diz, é que o serviço é menos extenuante.

Ainda no corte de cana, o ex-migrante Valdomiro Rodrigues, em Guariba desde 1987, disse ter visto desde então conterrâneos (é mineiro) irem embora, por não aguentar a jornada de trabalho.

“Muita coisa mudou. As condições de trabalho melhoraram bastante, mas, por outro lado, muitas usinas fecharam devido à crise e muitas pessoas ficaram desempregadas. Não são todos que sabem trabalhar com máquinas.”

Para o presidente do sindicato, Wilson Rodrigues da Silva, 48, é preciso que o trabalhador aceite que a mecanização engoliu os empregos no campo. “Nós sabíamos que esse dia [fim da migração] chegaria. Ainda há empregos, mas são poucos”, diz.

Segundo Iza Barbosa, consultora em responsabilidade social corporativa da Unica (entidade das usinas), trabalhadores que perderam vagas no campo estão fazendo cursos do Pronatec, entre outros.

“As usinas estão requalificando cada vez mais. Funções como soldador, eletricista, mecânico e motorista são alvo das empresas. Não é só o trabalhador que precisa do emprego na usina, ela também precisa do funcionário.”

O setor sucroalcooleiro perdeu 22.551 vagas em 2014, segundo dados do Ministério do Trabalho. No ano anterior, havia perdido 1.241.

“Hoje não vale a pena vir para São Paulo cortar cana. Com a mecanização, não há emprego”, afirma Carlos Fredo, pesquisador do IEA.

MARCELO TOLEDO