Boas práticas para a pecuária

Projeto
São José do Rio Preto, 13 de setembro de 2009

  Pierre Duarte  
Dutra:“A saúde e o bem-estar animal são condições para a produção sustentável de carne e leite saudáveis”

Carlos Eduardo de Souza

A Unesp de Araçatuba, em parceria com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), está desenvolvendo projeto para implantação de um sistema de normas para boas práticas sanitárias na pecuária de corte e de leite. De acordo com o professor Iveraldo Santos Dutra, o termo boas práticas significa fazer a coisa certa, da melhor maneira, da forma mais racional e que garanta a saúde do animal e a produção segura de alimento. Na primeira etapa, a Unesp vai implantar Unidades Rurais Demonstrativas em propriedades de corte e de leite com a finalidade de aplicar as tecnologias necessárias, com análise da sua viabilidade operacional e econômica. Nessa etapa, os proprietários participantes terão cursos de boas práticas e vão contar com profissionais que vão prestar assistência técnica. Ao mesmo tempo, será desenvolvida uma metodologia para sensibilizar os agentes da cadeia agroindustrial (corte e leite) para participar do processo e desenvolver mecanismos de valorizar as propriedades que adotam determinadas boas práticas.

Concluída a etapa inicial, a Secretaria vai lançar o programa no Estado de São Paulo de acordo com as estratégias e políticas do Programa Risco Sanitário Zero e Alimento Seguro. Estão previstas, concomitante ao desenvolvimento inicial do projeto, ações do governo paulista que integram o Programa Risco Sanitário Zero.
Dutra ressaltou que o Programa de Boas Práticas Sanitárias ainda não foi lançado e conta apenas com a assinatura de um protocolo de intenções entre o secretário de Agricultura e Abastecimento, João de Almeida Sampaio, e o reitor da Unesp, Hermann Vorwaald.

As ações que originaram o projeto fazem parte de um trabalho iniciado há mais de 10 anos e que foram desenvolvidas por Dutra em propriedades rurais de diversas regiões. “O projeto visava implantar as boas práticas, avaliar os seus ganhos e benefícios e foi apresentado ao secretário Sampaio, que se interessou desde o início”, disse o professor. Dutra explicou que o conjunto de ações proposto pelo programa enfoca questões relacionadas ao manejo sanitário e as suas interfaces com a saúde do rebanho, com aspectos ambientais relacionados especificamente à atividade como, por exemplo, dejetos, cadáveres, qualidade da água e da gestão de pessoas e com a segurança da carne e do leite como alimentos saudáveis.

Metas
O projeto define quais são as boas práticas para se garantir a saúde dos animais, evitar danos ambientais, usar racionalmente os produtos veterinários, treinar as pessoas envolvidas na lida do gado e na produção higiênica do leite. Enfoca, ainda, quais são as ações de vigilância sanitária que os proprietários devem observar e a necessidade de somente usar produtos veterinários e insumos autorizados pelas autoridades sanitárias. Apesar do objetivo principal do programa de qualidade ser a questão sanitária, temas como manejo racional dos animais são também condições que devem ser observadas. “O enfoque específico nesta etapa do projeto está relacionado diretamente com as questões sanitárias que, aliás, são condição para o início de um programa de bem estar animal”.

O professor da Unesp de Araçatuba acredita que o projeto vai estabelecer um novo estágio para a pecuária paulista e não é só inovador na gestão da saúde animal e do alimento seguro, mas é uma necessidade para o Estado e para o País. “Somos competentes em produzir alimentos em quantidade e qualidade. No entanto, necessitamos assegurar esta qualidade através de ações que consideram a realidade social, cultural e econômica dos sistemas de produção animal no País.”

Valorização
Dutra destacou que a parte mais importante do programa é valorizar os produtores e as propriedades rurais que investem e asseguram a qualidade da saúde animal e do alimento produzido. “Sustentabilidade, simplificação, eficácia e benefício de todos são as racionalidades que orientam o programa.” As boas práticas, destacou, somente têm valor quando reconhecidas pelo consumidor, pelo varejo e por toda cadeia agroindustrial. Elas perdem o sentido quando não geram benefícios para o negócio, para a margem de lucratividade lucro e para a função social da produção de alimentos. A qualidade dos produtos (carne ou leite) já é definida na propriedade rural e isto é o que deve ser reconhecido e valorizado.

“Se os produtores incorporam práticas que diminuem custos, melhoram resultados, diminuem mortalidade, melhoram a saúde do rebanho e, consequentemente, o bem estar e a produtividade, asseguram que os seus produtos têm qualidade e são saudáveis eles têm automaticamente benefícios.” Dutra lembrou que não é seguro produzir sem qualidade. “Veja os prejuízos que as questões sanitárias têm causado aos produtores e ao Brasil.” Ele recomendou que a cadeia agroindustrial reconheça, valorize e consolide os seus parceiros comerciais. O embargo da carne brasileira pela União Européia no ano passado, por não atender os protocolos da rastreabilidade, resultou em prejuízo substancial a toda cadeia produtiva. O País deixou de exportar cerca de 300 mil toneladas de carne bovina a US$ 2 mil a mais por tonelada.

”Todos nós perdemos. Vale ressaltar que a saúde e o bem-estar animal são condições para a produção sustentável de carne e leite saudáveis e inegociáveis para quem quer permanecer na atividade.” Para ele, a adoção das boas práticas sanitárias é um processo sem volta e deve ser o enfoque de uma nova política pública, que depende do compromisso dos produtores, do envolvimento dos médicos veterinários, dos profissionais e empresas da cadeia agroindustrial e também do reconhecimento do consumidor. “Afinal, queremos viver mais e com saúde. Assim, necessitamos de alimentos saudáveis”.

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