Reprodutivo

Avaliação correta

A pecuária de corte brasileira apresentou um forte crescimento nas últimas décadas, tendo chegado a um total de cerca de 195,55 milhões de cabeças no final de 2004, segundo dados do IBGE. É o maior rebanho comercial do mundo, menor apenas que o rebanho indiano, e corresponde à cerca de 16% do 1,22 bilhão de cabeças de bovinos espalhadas pelo mundo (estimativa da FAO). A taxa média de crescimento do rebanho brasileiro entre 1998 e 2003 foi de 3,3% ao ano. A pecuária brasileira apresenta produtividade média (taxa de desfrute ao redor de 22%), embora existam rebanhos de alta produtividade e excelentes índices zootécnicos. Cerca de 95% de nossos animais estão em pastagens, e apenas 2,5 milhões dos 35 milhões (valores aproximados) de animais abatidos por ano são terminados em confinamentos. Muitas são as causas da baixa produtividade média de nossos rebanhos: alto grau de degradação das pastagens, perda de peso dos animais nas estações de seca, status sanitário variável e baixo nível genético de nosso rebanho.

Nosso rebanho tem aproximadamente 65 milhões de vacas em monta natural, e são necessários por volta de 400 mil tourinhos de reposição por ano. Destes, apenas de 15 a 20 mil são geneticamente avaliados a cada ano, ou seja, ao redor de 5% do mercado é atendido por touros avaliados. O touro médio da pecuária brasileira é o “boi de boiada”. Isso é simplesmente assustador para o país líder do mercado mundial de carne bovina!
Urge, portanto, que os criadores passem a utilizar, com intensidade crescente, as modernas ferramentas de escolha de reprodutores e matrizes pelo seu patrimônio genético e pelo seu real valor. Ao mesmo tempo, é importante que invistam na melhoria das condições de ambiente, buscando maior produtividade.

As avaliações genéticas

Infelizmente, não é possível conhecer com precisão o valor genético dos animais. Jamais se conhecerá com precisão o valor que um animal tem como reprodutor, mas, através de metodologias diversas, é possível ter-se uma idéia desse valor, e essa idéia é a estimativa do valor genético.

O desempenho dos animais, também denominado de fenótipo, é resultado do patrimônio genético que o animal possui, o chamado genótipo, somado aos efeitos de meio ambiente, existindo ainda uma interação entre os efeitos de genótipo e de meio ambiente. Se simbolizarmos o fenótipo com a letra F, o genótipo com a letra G, o meio ambiente com a letra A e a interação entre o genótipo e o ambiente com as letras GA, o desempenho dos nossos animais, para qualquer característica, poderá ser colocado numa equação muito simples:
F = G + A + GA (1)

Essa equação nos mostra que, infelizmente, o fenótipo que medimos nos animais não corresponde diretamente à sua potencialidade genética. Essa produção ou medida F estará sempre influenciada pelo meio ambiente A e pela interação genótipo-ambiente GA.

A equação pode ser ampliada, partindo-se o genótipo G em três partes distintas, assumindo-se que todo gene tem um efeito. Esses efeitos se somam num efeito final, resultante da chamada ação aditiva dos genes, A, do desvio à interação entre alelos, chamado dominância, D, e, finalmente, de uma outra ação gênica, onde genes de um locus interferem na ação de genes de outros loci, em processos conhecidos como epistasia e pleiotropia, ou interação entre diferentes loci, I.

Assim,
G = A + D + I (2)

Juntando-se as equações (1) e (2), temos:
F = A + D + I + A + GA

Desses termos, o único com previsibilidade é o termo A, e as avaliações genéticas se concentram em prever esse valor, o valor genético aditivo para cada animal. Esse valor genético aditivo pode ser interpretado como o valor do gameta médio que um reprodutor, ou matriz, tem, e esses reprodutores devem ser encarados como fornecedores de gametas, que irão deixar descendentes nas propriedades dos pecuaristas.

O valor genético dos animais depende da herdabilidade do caráter (quanto maior, melhor a concordância entre o genótipo e o fenótipo), do número de informações (quanto maior este número, melhor a estimativa do valor genético), do parentesco entre o animal avaliado e as fontes de informação (quanto mais próximo o parentesco, maior a ênfase que a informação deve ter) e do grau de semelhança fenotípica entre o animal avaliado e as fontes de informação (uma forma de avaliar os efeitos de ambiente que são comuns a diferentes fontes de informação).

As metodologias de estimação de valores genéticos dos animais vêm-se aperfeiçoando, e criaram-se ferramentas muito poderosas para a avaliação dos animais, como os chamados “modelos animais”, a mais moderna metodologia para avaliação genética hoje existente. Nessas metodologias, utilizam-se não só os registros de produção do animal que está sendo avaliado, mas também de todos os seus parentes, não importando o grau de parentesco existente. Assim, dados a respeito de primos distantes, avós, filhos, filhas, irmãos e irmãs de um reprodutor são avaliados, segundo complexos modelos matemáticos, o que resulta na estimação de seu valor genético, o A de nossa equação.

Os modelos animais consideram os efeitos fixos (sexo, idade da matriz ao parto, fazenda, grupo de contemporâneos etc.) e efeitos aleatórios (como os efeitos diretos dos genes dos animais, os efeitos dos genes de sua mãe, os efeitos permanentes de ambiente que uma vaca oferece à sua progênie etc.) de maneira simultânea. Os efeitos aleatórios dos genes dos animais são estimados com base nas informações fornecidas pelos registros de produção de todo e qualquer parente do animal. Isso se tornou possível porque, na montagem das equações de modelos mistos, a matriz de parentesco é adicionada à parte aleatória do sistema, “ligando” os dados de todos os animais que porventura tenham parentesco, e o valor genético estimado de cada animal é obtido, considerando-se as contribuições de cada parente.

Expressão das avaliações

Por definição, o valor genético aditivo esperado (Expected Breeding Value ou EBV) de um animal é o valor que ele teria como reprodutor, ou, ainda, é igual a duas vezes a diferença que seus filhos têm em relação aos filhos de outros reprodutores, desde que os reprodutores que estejam sendo comparados sejam acasalados com fêmeas escolhidas ao acaso na população. Em última análise, o valor genético aditivo é o que os rebanhos selecionadores vendem aos seus clientes, pois expressa o potencial dos animais vendidos como transmissores de genes. Em gado de corte, as avaliações genéticas são expressas em EPD (Expected Progeny Differences), ou a chamada DEP (Diferenças Esperadas de Progênie), que são a fração de uma superioridade de progênie devida aos efeitos dos genes do reprodutor. Como metade do patrimônio genético dos filhos vem da mãe, e a outra metade, do pai, os EPD ou as DEP equivalem à metade dos EBV.

No entanto, para se fazer uma avaliação genética adequada, é necessário que ela seja realizada com base em dados reais e confiáveis, os dados não viesados.

A confiabilidade de uma DEP é refletida no valor da acurácia. Contudo, um ponto que a acurácia não leva em consideração é a qualidade dos dados utilizados para o cálculo das DEPs. Assim, dados viesados ou parciais irão influenciar as DEPs para determinados animais. Três problemas comuns, considerando-se a qualidade dos dados a serem analisados, são encontrados freqüentemente nos bancos de dados das associações de gado e instituições responsáveis pela a avaliação genética dos animais:

1) Dados selecionados ou incompletos, fornecidos ao geneticista responsável pela avaliação genética;

2) Dados que não refletem a realidade, seja devido a erros de coleta ou digitação, seja devido a alterações voluntárias dos valores;

3) Grupos de contemporâneos ou de manejo, informados de maneira imperfeita, confundindo as reais diferenças de oportunidade entre os grupos de animais, o que causa severas alterações nas avaliações genéticas.

Todas essas situações podem levar os dados, e, conseqüentemente, as estimativas de DEP a se tornarem viesados (que não representam o real valor). Alguns desses problemas podem ser conhecidos, utilizando-se de programas computacionais específicos, mas a solução definitiva passa pela colheita responsável dos dados pelos criadores, com a finalidade de fornecer informações fidedignas a respeito de seus animais.

Informações selecionadas

Informação selecionada ou seletiva dos dados pode ser considerada como a apresentação incompleta dos dados de performance dos animais, ou, então, a apresentação dos dados de somente uma parte do rebanho (ou seja, dos melhores animais, visando desta forma obter melhores DEPs para os animais).

Um exemplo apresentado por Jubileu e Ferraz e repetido na Tabela 1 (veja abaixo como visualizar em PDF), é muito elucidativo de como simples comparações podem ser viesadas com a apresentação ou o fornecimento incompleto dos dados. Com todos os dados devidamente apresentados neste grupo contemporâneo, o animal de número 1006 tem um peso à desmama 29 kg superior ao da média (ou 13% acima da média), e os animais 1028 e 1026 também possuem peso à desmama acima da média. Agora, se este produtor tivesse informado apenas os dados dos 50% melhores animais neste grupo de contemporâneos (as duas últimas colunas da Tabela 1), o animal 1006 teria um peso à desmama somente 13 quilos acima da média (ou 6%), e os animais 1028 e 1026 estariam com o peso à desmama abaixo da média do grupo contemporâneo. Como as DEPs são calculadas através destes mesmos dados ou informações de performance dos animais, estariam sendo calculadas com base em dados seletivos, o que as tornariam viesadas, desviadas da realidade, e, provavelmente, elas induziriam o criador a erros em suas decisões de seleção, prejudicando o progresso genético do rebanho.

Problemas com dados seletivos não são limitados somente a características de crescimento ou performance dos animais, como o peso à desmama, mas também podem representar um problema para características reprodutivas, as quais sabemos que estão diretamente relacionadas com a rentabilidade da propriedade.

Dados irreais

Os dados devem ser fiéis à realidade. Dados errados, com certeza, levam a estimativas viesadas. Usando o mesmo exemplo de Jubileu e Ferraz, apresentados no www.beefpoint.com.br e na Tabela 2, estão as DEPs calculadas com os dados corretos e DEPs calculadas com algumas informações ou observações incorretamente fornecidas para a característica stayability ou habilidade de permanência no rebanho, característica ligada à longevidade das vacas no rebanho e que tem valores 0 (vaca não permaneceu no rebanho à determinada idade) ou 1 (vaca permaneceu no rebanho). Aparentemente, existe considerável mudança nas DEPs, quando estes dados errôneos são incluídos nos cálculos. O touro de número 447 mudou de 2.0 para –9.6, uma enorme mudança.

Outra fonte de alteração das estimativas de DEP é a identificação apropriada do grupo de contemporâneos. Um grupo de contemporâneos é um grupo de animais que foi exposto a um mesmo ambiente de criação e que, portanto, teve a mesma oportunidade de expressar seu potencial em desempenho. Num típico cenário de pecuária bovina de corte, seriam os animais que estavam no mesmo pasto ao mesmo tempo, foram tratados e manejados de uma maneira similar do nascimento à desmama, são do mesmo sexo etc. O ponto chave é que estes animais compartilharam das mesmas oportunidades, para, desta forma, expressar seu potencial genético.

Quando este é o caso, as DEPs refletem a verdadeira diferença genética entre os animais. Do contrário, importantes diferenças, causadas por mudança de dietas (como o caso de creep-feeding ou suplementação), qualidade de pasto, manejo e sanidade, caso não sejam informadas, tratando-se de características que não sejam transmissíveis para a próxima geração, serão consideradas como diferenças genéticas, induzindo a erros de seleção.

Sem a menor dúvida, os criadores participantes de programas de seleção e avaliação genética devem ser esclarecidos a respeito da necessidade do uso de dados não viesados nas avaliações genéticas.

José Bento Sterman Ferraz
Usp

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=108