Reprodutivo

Aspiração bem feita

A indústria da tecnologia de embriões sofreu uma importante mudança nos últimos anos, com o advento da fecundação in vitro (FIV), ou, mais corretamente designada, a produção in vitro de embriões (PIV). O Brasil ocupa lugar de destaque no ranking mundial em número de embriões produzidos in vitro. Os principais motivos para esse crescimento referem-se à excelência dos serviços prestados por laboratórios privados e à valorização da raça Nelore verificada nos últimos anos. As vacas Bos indicus, particularmente a raça Nelore, apresentam um melhor rendimento na produção de embriões com a PIV em relação à transferência de embriões (TE), de forma que muitos criadores têm feito opção pela PIV, buscando mais rapidez na produção de descendentes de vacas de linhagens superiores.

A primeira etapa da PIV é a obtenção in vivo dos oócitos (ovum pick up – OPU), através da técnica de aspiração folicular transvaginal. A OPU tem sido estudada por diversos grupos de pesquisa, e importantes melhorias foram implementadas, objetivando aumentar a eficiência e reduzir o investimento inicial para realização da técnica.

No entanto, é essencial que a técnica seja realizada com muito critério, de forma a evitar danos à doadora. Um aspecto fundamental refere-se às agulhas utilizadas para a aspiração folicular. Considerando o fato de os ovários serem as estruturas responsáveis pelo armazenamento e viabilidade de todos os gametas femininos, torna-se fácil compreender o cuidado necessário para se perfurar esta estrutura. As agulhas longas (55 cm), produzidas especificamente para aspiração folicular, são excelentes, mas possuem um custo muito elevado, ao redor de R$ 70 a 100 a unidade. Devido ao preço, é comum observar-se que uma mesma agulha seja utilizada para vários animais. Com essa prática, a agulha perde o corte, obrigando o operador a utilizar mais força durante a punção. Nesse caso, há a possibilidade de danos ao ovário, especialmente naqueles animais submetidos repetidas vezes à técnica. Para contornar esse problema, hoje é possível a aspiração com agulhas comuns, as chamadas hipodérmicas descartáveis. Considerando seu preço irrisório, torna-se perfeitamente possível utilizar uma agulha por vaca, ou mesmo uma por ovário, minimizando os riscos de lesões e aumentando a vida reprodutiva da doadora.

A comparação de resultados, como número de oócitos por vaca, é prática comum entre os criadores. No entanto, é importante salientar a inadequação dessa prática, pois há consideráveis variações entre raças, equipamentos, habilidade do operador, estado corporal dos animais, idade, etc. Todo trabalho deve ser analisado com a natural ressalva em razão das particularidades de cada procedimento.

A condição fisiológica da doadora, considerando-se peso, raça, idade e a própria variação individual, merece atenção para se analisarem os resultados com adequado critério. A redução na quantidade e qualidade dos gametas nos animais mais velhos é freqüentemente notada. Situação semelhante ocorre em animais muito jovens, pré-púberes, cujos oócitos têm mostrado reduzida competência para se desenvolverem até embrião. Quanto à condição corporal, os extremos devem ser evitados, pois animais subnutridos, ou exageradamente obesos, normalmente produzem menos, ou são doadores de oócitos com menor capacidade para desenvolverem-se até a fase de embrião. Outro aspecto muito importante é a forma de manejar os animais, pois há trabalhos mostrando que animais submetidos a situações de estresse são propensos a doar oócitos menos competentes para o desenvolvimento in vitro dos embriões.

Em relação à variação individual, o aspecto mais interessante refere-se à raça. Animais da raça Nelore, ou vacas zebuínas em geral, apresentam normalmente um maior número de folículos nos ovários, em comparação com vacas de raças européias. Essa particularidade viabilizou um crescimento bastante rápido da PIV no Brasil, uma vez que a disseminação da PIV e a maior valorização da raça Nelore ocorreram de forma simultânea. Embora a TE continue sendo largamente utilizada em animais da raça Nelore, a PIV viabiliza maior número de embriões em um mesmo período de tempo.

Atualmente, a aspiração folicular tem sido realizada em momentos aleatórios do ciclo estral. Os resultados de campo têm mostrado que a qualidade dos oócitos não se altera em função da fase do ciclo estral. No entanto, o número de folículos disponíveis para a aspiração apresenta considerável variação, sendo os primeiros dias após o cio os mais favoráveis para a realização da OPU, pelo maior número de folículos e pela melhor eficiência de captação dos oócitos, pois nessa fase os folículos estão bem pequenos, fato importante para incrementar a eficiência do procedimento.

Uma grande vantagem da obtenção de embriões a partir da OPU/FIV é o fato de não ser necessária a utilização de hormônios, obrigatórios na TE. A aplicação de hormônios, se desejada, normalmente acontece apenas em vacas de raças européias, já que os animais Bos indicus, especialmente as vacas Nelore, apresentam naturalmente maior número de folículos nos ovários, dispensando a aplicação de fármacos.

Outro aspecto favorável da OPU/PIV é a possibilidade de se conseguirem embriões mesmo em fêmeas gestantes. Isto é possível porque os ovários mantêm sua atividade durante a prenhez, tornando viável a recuperação dos oócitos. Se a técnica de OPU for bem conduzida, não há qualquer risco à gestação, e pode-se realizar a aspiração folicular até o terceiro mês de prenhez, ou até o período em que o médico veterinário conseguir manipular os ovários sem que seja necessária uma tração vigorosa.

Vacas de alto valor genético que tenham adquirido comprometimento da fertilidade também podem gerar descendentes por esta biotécnica. Por exemplo, podem-se citar lesões nas tubas uterinas, obstruções na cérvix, ou ainda aquelas doadoras que não apresentam resultados satisfatórios na TE.

É importante frisar que a OPU, ou a obtenção dos oócitos, é apenas a primeira etapa para a obtenção dos embriões. Depois que os oócitos são recuperados, os processos de maturação, fecundação e desenvolvimento são realizados em laboratórios específicos.

Contrariando certo ceticismo inicial, a PIV atualmente é uma biotécnica consolidada, com expressivo número de animais nascidos por este procedimento, particularmente no Brasil.

No entanto, há vários desafios a serem superados. Os embriões produzidos in vitro possuem menor viabilidade, resultando em índices de gestação inferiores aos embriões obtidos pela TE. Além disso, a técnica de congelamento dos embriões PIV ainda não está bem estabelecida, e a quase totalidade das gestações é obtida com transferências “a fresco”. Estes são os principais desafios a serem superados pelos pesquisadores, e há muitas pessoas envolvidas na busca destas soluções.

As perspectivas são favoráveis, pois dois problemas importantes, como a maior proporção de fetos machos e a ocorrência de fetos gigantes têm sido gradativamente minimizados, graças ao avanço de novos métodos de produção dos embriões.

Finalizando, é importante salientar que a OPU/FIV não é boa, nem má. Como toda biotécnica, trata-se de uma ferramenta a serviço da pecuária. Se usada adequadamente, propicia resultados satisfatórios, correspondendo às expectativas dos criadores. No entanto, se mal utilizada, pode causar danos às doadoras, ou, o que é pior, gerar grande número de animais geneticamente inferiores.

Portanto, ressaltamos a necessidade da análise cuidadosa de cada proposta de trabalho com OPU/FIV, tanto por parte dos criadores como dos veterinários, para que a melhor parcela desta biotécnica possa contribuir para o engrandecimento da pecuária nacional.

Marcelo Marcondes Seneda
Centro de Ciências Agrárias – UEL

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=140