Pecuária

Aspectos Gerais da Produção e Comercialização de Peles de Caprinos e Ovinos no Nordeste

As peles de ovinos e caprinos do Nordeste são valorizadas no mercado pela maior elasticidade, resistência e textura apresentadas, prestando-se, assim, para um maior número de produtos nas indústrias de vestuário e de calçados. No entanto, apesar do reconhecimento de sua qualidade, as peles sofrem grandes depreciações na comercialização, devido aos altos índices de defeitos que são decorrentes de condições inadequadas do sistema de produção adotado, bem como nas fases de abate, conservação e armazenamento.

O sistema de produção predominante no Nordeste consiste na criação extensiva, sendo os animais expostos às condições adversas da vegetação, ao arame farpado das cercas de contenção e, em alguns casos, os animais são marcados na pele para facilitar a identificação. Além destes fatores, algumas doenças provocam danos às peles, a exemplo da miíase (bicheira), da sarna demodéfica e da linfadenite caseosa.

O sistema de abate de animais predominante no Nordeste é feito de forma artesanal e com o mínimo de cuidado, prejudicando a qualidade e aumentando a proporção de peles consideradas como refugo. Os animais são abatidos em locais impróprios e com técnicas pouco eficientes, deixando as peles sujas e manchadas. Do mesmo modo o uso de facas e canivetes aguçados são também responsáveis por cortes e perfurações prejudiciais.

A diversidade de raças exploradas, ocasionam a produção de peles diferentes em tamanho, espessura e textura, também contribui para a baixa qualidade da pele.

A comercialização de peles “in natura”, no Nordeste, é realizada por intermediários que revendem o produto em postos de compras pertencentes aos curtumes ou aos exportadores. Os curtumes adquirem as peles dos produtores ou dos intermediários e, após o beneficiamento as negociam com comerciantes do mercado interno e externo, ou com a indústria manufatureira.

O baixo preço da pele praticado por intermediários, em determinados períodos do ano, provoca insatisfação dos produtos que, por sua vez, sentem-se desestimulados a adotar as tecnologias capazes de melhorar a qualidade da pele.

De acordo com BNB/PDSORN (1999), 40% das peles processadas são consideradas refugo, representando um baixo índice de aproveitamento. Isto acarreta a desvalorização da pele “in natura”, impossibilitando a indústria de incrementar maior remuneração ao valor da pele.

As indústrias de curtume instaladas no Nordeste se deparam com problemas de ociosidade em sua capacidade operacional instalada. Esta fato tem como causa principal, a reduzida oferta de peles “in natura” com bom padrão de qualidade, caracterizando a existência de uma demanda insatisfeita por essa matéria-prima. De acordo com dados da Associação das Indústrias de Couro do Norte e Nordeste, existe uma capacidade instalada para processar anualmente 12 milhões de peles, sendo atualmente processada em torno de 8 milhões por ano, o que provoca uma capacidade ociosa de aproximadamente 33%. Na região Sul, a produção de peles curtidas em 2000 de aproximadamente 1,8 milhões de peles e os curtumes funcionaram com uma capacidade ociosa em torno de 50%.

As peles de ovinos e caprinos, industrializadas no Nordeste, são exportadas preferencialmente na forma de wet-blue, que corresponde ao couro curtido. Embora algumas indústrias realizem o processo de acabamento, sendo produzidos vários e importantes tipos de couros, tais como: marroquins, camurças, pergaminhos, algumas napas, pelica etc, utilizados na produção de calçados, bolsas, vestuários, entre outros.

Um fator importante que poderá estimular o crescimento do mercado de peles na região Nordeste consiste na instalação de fábricas de calçados oriundas das regiões Sul e Sudeste do país, atraídos pelos incentivos fiscais concedidos pelos estados nordestinos, especialmente o Ceará e a Bahia, poderá ser mais uma alternativa para a comercialização de peles beneficiadas de ovinos e caprinos.

Em razão do elevado índice de defeitos observados nas peles de caprinos e ovinos, apresenta-se como alternativa para o aproveitamento destas peles o couro atanado, que é obtido pelo processo de curtimento vegetal a base de tanino.

O couro atanado é largamente utilizado em produtos artesanais (bolças, calçados etc), assim como em produtos de montaria.

Outra vantagem do curtimento vegetal consiste na reduzida carga de poluentes dos resíduos gerados pelo processo de curtimento, quando comparado ao curtimento a base de cromo para produção do wet blue. Com isso, a implantação de curtume que busque a produção de wet-blue exige maiores investimentos na construção da estação de tratamento dos efluentes.

Finalmente, ressalta-se algumas ações importantes para expandir a oferta das peles “in natura” de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e cooperativas; capacitação tecnológica voltada para o manejo dos rebanhos, processo de esfola, conservação e armazenamento das peles; maior remuneração aos produtores; definição de preços diferenciados para aquisição das peles, buscando estimular a melhoria da qualidade e o combate aos locais de abate clandestino.

 

Fonte: http://www.capritec.com.br/