Pecuária

Aspectos Gerais da Produção e Comercialização das Carnes de Caprinos e Ovinos

A demanda por carnes de caprinos e ovinos, em cortes padronizados; bem como por vísceras devidamente processadas, embaladas e comercializadas de forma resfriada ou congelada, vem apresentando crescimento considerável nas grandes cidades do Nordeste e do Sudeste do Brasil, principalmente nas áreas habitadas pelo segmento populacional detentor de maior poder aquisitivo.

No entanto, segundo Zapata et al. (1995), o consumo das carnes de caprinos e ovinos no Nordeste é ainda classificado como baixo em decorrência da baixa qualidade do produto ofertado, que é resultado de deficientes critérios de seleção dos animais para o abate, estocagem e comercialização das carnes e do baixo nível de higiene nas operações de abate e comercialização, tendo verificado que no comercio varejista da cidade de Fortaleza 48,5% da carne caprina é fornecida aos consumidos sem o uso de embalagem, o que expressa a baixa qualidade dos produtos em termos de higiene.

Estudando o circuito de comercialização de carnes caprina e ovina nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), Moreira et al. (1998), verificaram a inexistência de inspeção no local de vendas destes produtos, fazendo-se necessário uma maior atuação das autoridades sanitárias nesse setor.

Outros fatores limitantes afetam a comercialização das carnes de caprinos e ovinos, podendo-se destacar: a falta de padronização de carcaças, em razão do baixo padrão racial dos rabanhos; a irregularidade no fornecimento de carne e derivados ao mercado; o abate clandestino, que concorre deslealmente com frigoríficos industriais; a ausência de promoção comercial e os elevados preços praticados no mercado, impossibilitando a abertura de mercado e reduzindo a competitividade com os produtos concorrentes.

A oferta de carnes de caprinos e ovinos oriundas de animais abatidos em frigoríficos industriais licenciados pelos Serviços de Inspeção Federal (SIF) ou Inspeção Estadual (SIE), se caracteriza como um fator importante para o crescimento da demanda, assegurando aos produtos industrializados, um elevado padrão de qualidade sanitária.

Em função do crescimento da demanda por essas carnes, produtos industrializados têm surgido no mercado, desenvolvidos por instituições de pesquisa como o Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos/EMBRAPA; a Universidade Federal do Ceará, através do Departamento de Tecnologia de Alimentos; a Universidade Federal da Paraíba, através do Núcleo de Pesquisa de Processamento de Alimentos (NUPPA) ou ainda pela iniciativa privada. Entre os produtos desenvolvidos destacam-se: lingüiças frescal e calabresa, defumados, manta de carne seca, hambúrguer e, mais recentemente, os pratos preparados (arroz de carneiro, buchada, sarapatel, panelada, entre outros).

Os produtos industrializados e os pratos preparados representam uma alternativa importante para o aproveitamento da carne dos animais fora do padrão de abate, ou seja, aqueles que por razões diversas não se prestam para a produção de cortes padronizados.

A indústria de carne de ovinos e caprinos tem como alvo, um mercado em plena expansão que até pouco tempo se caracterizava como “mercado de subsistência”, no qual o produtor não conseguia ter excedentes para venda, em âmbito nacional como “mercado de carnes exóticas”, uma vez que não havendo oferta suficiente a preços adequados, não se conseguiu estabelecer o hábito de consumo, como conseguiram as carnes de frango, bovino e suíno, que passaram a fazer parte do cardápio diário da população brasileira em geral.

Os clientes potenciais dessa indústria de carne são as grandes redes de supermercados, os restaurantes e hotéis; as casas de delicatessens, as lojas de conveniências etc. Pelas características que tem, principalmente, baixos teores de gorduras, colesterol, fácil digestibilidade etc, a carne caprina não terá dificuldade de vencer os preconceitos que a cercam, tão logo haja oferta suficiente para consolidar o processo histórico desse hábito alimentar.

Além do esforço direto às cadeias de supermercados e outros agentes do comércio, também deverá ser levado à população em geral a informação precisa e diversificada nas formas, que assegure a disposição de testar uma alternativa alimentar saudável e economicamente vantajosa.

Os consumidores das carnes de caprino e ovino, se caracterizam pelo alto nível de exigência com a qualidade, uma vez que atendam a um público classe A e B, que muito bem informado estará sempre atento à qualidade do produto expressa no processo de produção e embalagem. O consumidor da região Nordeste, continuará por algum tempo consumindo produto sem qualidade, comprado em feiras e açougues do interior sem qualquer controle sanitário, uma vez que esta é a tradição local que demandará muito esforço para mudar, através da conscientização da população.

A questão promocional assume grande importância, onde o marketing deve explorar o baixo teor de colesterol da carne e a característica de fácil digestibilidade. Isto representa um fator importante de atratividade de mercado, visto que o apelo de saúde sempre influi de forma relevante no comportamento do consumidor, especialmente naqueles de nível cultural mais elevado. Assim, o esforço de marketing deverá se concentrar nas classes A e B, inicialmente, explorando as vantagens das carnes caprina e ovina em relação as demais carnes. As classes populares, virão oportunamente a reboque, como tem sido sempre em todos os processos de formação de opinião pública e desenvolvimento de mercados desenvolvidos no Brasil.

O consumo per capita de carne ovina no Brasil foi estimado em 0,7kg, pouco representativo em relação ao consumo das carnes bovina, frango e suína, estimado em 36kg, 24kg e 10kg, respectivamente SEBRAE/DF (1998). Assim, existe um grande espaço para a expansão do consumo de carne ovina no mercado de carnes.

O aumento no consumo interno resultou em crescimento das importações de carne ovina. Para o abastecimento do mercado interno o Brasil vem importando ovinos vivos para abate, carcaças de ovinos resfriadas ou congeladas e carne desossada resfriada ou congelada, conforme mostra a Tabela 1.

Tabela 1 – Importações de carne de ovinos no período de 1992 a 2000.

Anos Ovinos vivos

(t)

Carcaças de borregos

(t)

Total de carcaças

(t)

1992 119,5 163,9 2.075,9
1993 2.180,8 309,9 3.702,6
1994 4.628,9 823,5 4.694,5
1995 1.630,9 444,0 3.869,3
1996 5.732,0 325,4 5.715,1
1997 8.674,1 520,6 4.961,2
1998 5.179,4 530,4 6.148,3
1999 4.056,1 231,7 4.343,5
2000 6.245,9 278,6 8.216,4

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio – MDIC

A ovinocaprinocultura dada a sua importância sócioeconômica para a região Nordeste carece de uma política de desenvolvimento que priorize: a oferta contínua de carnes com elevado padrão de qualidade; a competitividade de preços em relação aos produtos concorrentes; a comercialização de carnes submetidas aos serviços de inspeção federal ou estadual e ações voltadas para promoção comercial (prospecção de mercado, adequação de produtos, marketing e publicidade, participação em feiras nacionais e internacionais de alimentos, entre outras).

Uma estratégia de desenvolvimento semelhante ocorreu no agronegócio da carne do frango, no qual a partir de uma política de estímulo à produção associada à competitividade de preço, atingiu crescimento de 178% no consumo per capita no período de 1992 a 2002, conforme dados apresentados na Tabela 2.

 

Tabela 2 – Consumo per capita anual de carne de frango no Brasil (1992 – 2002)

Ano Frango(kg/hab.)
1992 16,8
1993 18,1
1994 19,2
1995 23,3
1996 22,2
1997 24,0
1998 16,3
1999 29,1
2000 29,9
2001 29,5
2002 29,9

Fonte: União Brasileira de Avicultura (UBA)

Atualmente, de acordo com a política governamental, o aumento das exportações é de suma importância como forma de reduzir o “déficit” do balanço de pagamentos. Dentre os produtos agropecuários com potencialidade no mercado externo, configuram as carnes caprina e ovina. De fato, nos países que apresentam alta renda per capita, é crescente a demanda por carnes, e o Brasil, pela condição favorável para produção, poderia se transformar em importante exportador desses produtos.

Finalmente, vale ressaltar algumas ações importantes para estimular o crescimento da produção e comercialização das carnes de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e cooperativas; capacitação tecnológica e gerencial; melhoramento genético dos rebanhos; acesso à linhas de crédito com juro diferenciados; certificação de qualidade das carnes; política de marketing para as carnes de caprinos e ovinos e o combate aos locais de abate clandestino

 

Fonte: http://www.capritec.com.br/