Uso de suplementação lipídica e suas implicações na nutrição de vacas leiteiras – Parte II

Nesta segunda parte do artigo vamos abordar as recomendações de suplementação lipídica e as suas conseqüências. Dietas de ruminantes possuem baixos teores de lipídeos, normalmente abaixo de 3% na matéria seca. Em vacas leiteiras em lactação, aumentar a densidade energética da dieta através da suplementação lipídica é uma prática muito utilizada pelos nutricionistas, no sentido de suprir o déficit de energia no início da lactação e obter maior eficiência de produção de leite.

Pesquisas demonstram que a quantidade mais adequada de ácidos graxos a ser suplementada na ração de vacas leiteiras deve ser equivalente à quantidade de ácidos graxos contida no leite.  Cerca de 60% dos ácidos graxos dietéticos são diretamente incorporados na gordura do leite, isso levando em consideração uma digestibilidade média de 80% para os ácidos graxos, e uma absorção de 75%.
Deve-se atentar ao fato de que a suplementação não pode ser feita de forma excessiva com fontes de lipídeos ricas em ácidos graxos insaturados, pois pode ocorrer inibição dos microorganismos que degradam a fibra e comprometer a biohidrogenação.
A quantidade de suplementação lipídica pode ser calculada através da fórmula:

% gordura suplementar = _____________6 x % FDA______________
                                            % total de AGI na gordura suplementar

Por exemplo, se temos uma ração com 20% de FDA e a fonte lipídica suplementar contém 60% de ácidos graxos insaturados, poderemos acrescentar 2% do suplemento a ração sem comprometer a fermentação ruminal, conforme mostrado abaixo:
% gordura suplementar = (6 x 20%)/60% = 2% de suplemento
Na prática, usa-se com freqüência mais de uma fonte lipídica e, por isso, essas regras práticas devem ser usadas com cautela.

Como visto na primeira parte deste artigo, os nutricionistas devem se preocupar com o balanceamento dos nutrientes da dieta, ou seja, efetuar o fornecimento máximo de energia, mas com atenção ao correto fornecimento de fibra efetiva e também uma formulação adequada de fontes de nitrogênio, para garantir o suprimento de proteína metabolizável (proteína microbiana + proteína não degradável no rúmen) que a vaca necessita. Isso evita decréscimos no teor de proteína do leite, o qual costuma ocorrer quando se faz a suplementação lipídica.

Além de decréscimos no teor de proteína do leite com uso de suplementação lipídica, podem ocorrer também decréscimos no teor de gordura no leite. E vem aquela pergunta: Será que entendi direito? Como um suplemento lipídico pode causar decréscimo na gordura do leite?

A pesquisa tem demonstrado que a depressão da gordura do leite é uma realidade quando se fala em suplementação lipídica. O alto consumo de ácidos graxos insaturados e o baixo pH ruminal levam a formação do isômero CLA trans-10 cis-12 18:2 que é provavelmente um poderoso inibidor da síntese de gordura do leite. Por isso, deve-se ter muita atenção nas fontes lipídicas utilizadas na suplementação. Fontes ricas em ácidos graxos insaturados não devem ser fornecidas em excesso, pois podem causar a depressão da gordura do leite. Por outro lado, fontes ricas em ácidos graxos saturados ou mais inertes no rúmen podem aumentar a gordura do leite.

A depressão da gordura do leite também está associada ao fornecimento de dietas com baixo teor de fibra em detergente neutro, alto teor de amido e, a animais excessivamente gordos e com laminite.

Recomendações:

– A suplementação lipídica deve ser adotada para vacas de alta produção até aproximadamente 120 dias após o parto;
– Deve-se dar prioridade a alimentos como caroço de algodão, e sementes de soja, girassol ou canola, e com qualidade;
– A suplementação lipídica deve ser adotada de forma gradativa em 10-15 dias;
– Os primeiros 500 gramas podem ser de uma fonte rica em AGI;
– Deve-se avaliar a viabilidade do uso de lipídeos protegidos como os sais de cálcio de ácidos graxos de cadeia longa, quando a suplementação supera 0,5 kg/dia.

O correto balanceamento dos nutrientes da dieta não é muito simples de ser realizado, mas é possível se alcançar o objetivo, de forma a permitir a expressão da capacidade produtiva das vacas leiteiras, e evitar o desperdício de nutrientes para o meio ambiente.

Bibliografia:

Palmquist, D.L.; Mattos, W.R.S. Metabolismo de lipídeos. In. Berchielli T. T. et al. Nutrição de Ruminantes. Jaboticabal: Funep, 2006 583 p. 28cm.

Grummer, R.R. Etiology of lipid-related metabolic disorders in periparturient dairy cows. Journal of Animal Science, 76: 3882, 1993.

Palmquist, D.L. The role of dietary fats in efficiency of ruminants. Journal of Nutrition, 124: 1377S, 1994.

Autor: Bruna Nunes Marsiglio

Fonte: http://gadoleiteiro.iepec.com/noticia/uso-de-suplementacao-lipidica-e-suas-implicacoes-na-nutricao-de-vacas-leiteiras—parte-ii