Uso de suplementação lipídica e suas implicações na nutrição de vacas leiteiras – Parte I

Vacas leiteiras de alto mérito genético demandam dos nutricionistas precisão na formulação das dietas, de forma a permitir a expressão da capacidade produtiva das mesmas, e evitar o desperdício de nutrientes para o meio ambiente. No início da lactação, do parto até o pico de produção, que ocorre por volta de 8 a 10 semanas, as vacas de alto mérito genético passam por um déficit de energia difícil de ser solucionado. Os nutricionistas devem se preocupar com o balanceamento dos nutrientes da dieta, o fornecimento máximo de energia e o correto fornecimento de fibra efetiva. Isto não é muito simples de ser realizado. Assim, buscam alimentos ou fontes de energia que possam aumentar a densidade energética da dieta e que não prejudiquem a fermentação ruminal.

A adição de fontes de lipídeos em dietas de vacas leiteiras é uma alternativa muito utilizada, pois aumenta a capacidade de absorção de vitaminas lipossolúveis; fornece ácidos graxos essenciais, os quais atuam como componentes das membranas celulares e precursores das moléculas regulatórias; e aumenta a eficiência de deposição de gordura no leite, levando a um aumento parcial da eficiência de produção do leite. Nesse caso, o que ocorre é a substituição das fontes de grãos (milho), ricas em carboidratos rapidamente fermentáveis por lipídeos.  Além disso, os lipídios adicionados à dieta modificam a composição da gordura do leite, aumentando a aceitação pelo consumidor.

Existem várias fontes de lipídeos que podem ser adicionadas na dieta, buscando aumentar a ingestão de energia pelo aumento da densidade energética da dieta sem reduzir o conteúdo de fibras. Sementes de oleaginosas como caroço de algodão, soja, girassol, entre outras podem ser usadas como suplementos lipídicos, já que o teor de ácidos graxos nas mesmas varia de 18 a 40%. Na maioria das sementes de oleaginosas e em cereais há predominância do ácido linoléico, e nas forragens o ácido graxo mais comum é o linolênico. Outras fontes de lipídeos que podem ser utilizadas na dieta são os óleos vegetais e os sais de cálcio de ácidos graxos de cadeia longa. Freitas et. al. (2008) observaram que a utilização de sais de cálcio de ácidos graxos de cadeia longa nas rações reduziu o consumo de matéria seca, sendo que esta diminuição pode estar relacionada a aceitabilidade desta fonte de gordura.

A adição de fontes de lipídeos na dieta de vacas leiteiras promove respostas variáveis na produção e composição do leite, sendo que estas respostas dependem diretamente da produção da vaca, da dieta basal, do balanço energético, do estágio de lactação, da composição e quantidade da fonte de gordura. Segundo Staples et. al. (2001) a utilização de uma fonte de gordura pode resultar em aumento na produção de leite de 2,0 a 2,5kg/vaca/dia, desde que seja considerada a aceitabilidade e adaptação do animal a fonte utilizada.

Freitas et. al. (2008) observaram que o teor de gordura no leite é maior quando se utilizada dietas com grão de soja como fonte de gordura, e isto pode ser devido à possível redução na digestibilidade das fibras ou pelo efeito de ácidos graxos intermediários resultantes da biohidrogenação ruminal, que podem ter influenciado a síntese de gordura no leite na glândula mamária. Além disso, as rações contendo grão de soja, quando fornecida para vacas leiteiras, provocam uma redução na produção de leite e proteína, sendo que o mesmo não ocorre com outras fontes como o óleo de soja, o qual juntamente com os sais de cálcio de ácidos graxos apresenta uma maior eficiência produtiva, o que indica maior produção de leite por kg de matéria seca consumida.

O metabolismo de lipídeos no rúmen é limitado pela taxa de liberação da matriz do alimento. Em grãos de cereais e sementes oleaginosas há necessidade da degradação da parede celular para que a hidrólise se inicie, e este fato traz vantagens ao uso destas fontes. Após a liberação da matriz, os triacilgliceróis são rapidamente hidrolisados a ácidos graxos e glicerol pelos microorganismos, através da ação da lípase microbiana. O glicerol é rapidamente fermentado.

Ao efetuar a inclusão de uma fonte de lipídio, deve-se reformular a dieta, inclusive para o teor de proteína não degradável no rúmen, pois poderá haver redução da síntese de proteína microbiana. Tal fato se deve à redução na quantidade de carboidratos não fibrosos, fonte de energia rapidamente utilizável pelas bactérias, e pelo fato que lipídeos não são fontes de energia para crescimento microbiano. Recomendações de suplementação lipídica e a queda de gordura no leite com uso de suplementação lipídica serão explicadas na parte II deste artigo.

Bibliografia:

Berchielli T. T. et al. Nutrição de Ruminantes. Jaboticabal: Funep, 2006. 583p.

Freitas J. E, Rennó F. P, Gandra J. R., Maturana M., Araújo A. P. C., Venturelli B. C., Foditsch C. Utilização de fontes de gordura em rações de vacas em lactação: Consumo, produção e composição do leite. Anais da 45ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2008.

Freitas J. E, Rennó F. P, Santos M. V., Maturana M., Gandra J. R., Cortinhas C. S., Carvalho M. V. Utilização de fontes de gordura em rações de vacas em lactação: Composição da fração protéica do leite. Anais da 45ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2008.

Autor: Bruna Nunes Marsiglio

Fonte: http://gadoleiteiro.iepec.com/noticia/uso-de-suplementacao-lipidica-e-suas-implicacoes-na-nutricao-de-vacas-leiteiras—parte-i