A Criação de Ovinos em Mato Grosso

Uma alternativa para o ingresso de pequenos e médios produtores rurais na atividade

Devido a crescente demanda pela carne ovina, a ovinocultura de corte está se tornando uma atividade, cada vez mais atraente para a diversificação da produção agropecuária. Esse fato aliado às características dos ovinos de serem animais dóceis, de fácil lida e que não necessitam de áreas extensas, quando comparados com os bovinos, vem despertando o interesse de produtores rurais detentores de pequenas áreas, a desenvolver a criação de ovinos como alternativa econômica em suas propriedades, principalmente quando próximas a centros consumidores. Pelos mesmos motivos, são freqüentes as discussões a respeito da introdução da ovinocultura em projetos de reforma agrária no Estado.

Nos estados da região sudeste tem se intensificado a criação de ovinos para produção de carne como alternativa de diversificação e ampliação de renda nas pequenas e médias propriedades. Já nos estados do nordeste, tradicionalmente criadores de ovinos deslanados, os produtores estão aumentando o efetivo de seus rebanhos, devido à intensa procura de animais para a reprodução por produtores de outras regiões do país.

Em Mato Grosso a ovinocultura ainda é pouca expressiva. Normalmente os ovinos são criados juntamente com bovinos, ocupando o mesmo espaço e as mesmas pastagens, geralmente de grande extensão. Porém já existe no Estado alguns empreendimentos com investimentos que fazem da criação de ovinos uma atividade econômica, praticada com níveis satisfatórios de tecnologia. Atualmente existi poucos ovinocultores que se dedicam à criação de animais de alto padrão genético para a reprodução.

Para que a criação de ovinos de bons resultados é preciso obter-se alta eficiência reprodutiva do rebanho e alto índice de desmama, o que implica em maior número de cordeiros nascidos e baixa taxa de mortalidade na fase de amamentação. Esses fatos, aliados a um bom desempenho corporal dos cordeiros e a custos de produção compatíveis com o mercado da carne, possibilitam boa oferta de animais na idade ideal para o abate a preços competitivos.

No sistema de produção normalmente adotado, ou seja, onde os animais são criados totalmente em regime de pasto e sem manejo apropriado às diferentes categorias de animais, obtêm-se baixos índices de desfrute com a criação, devido a menor disponibilidade de alimentos em quantidade e qualidade em determinadas épocas do ano. Isto resulta em baixa fertilidade das ovelhas, nascimento de cordeiros fracos, menor produção de leite pelas ovelhas paridas e conseqüentemente, baixo ganho de peso dos cordeiros. Por outro lado, os ovinos são suscetíveis a uma série de doenças, algumas delas característica da própria espécie, que se não bem controladas através de um adequado manejo sanitário, afetam a eficiência reprodutiva do rebanho, prejudicam o desenvolvimento dos animais e provocam altos índices de mortalidade. Particularmente as verminoses, quando não bem controladas, causam perda de peso da ordem de 30 a 40% nos animais jovens, grande mortalidade de cordeiros, além do dispêndio com medicamentos, tornando a ovinocultura uma atividade economicamente inviável e impraticável pelos pequenos e médios produtores rurais.

A espécie ovina apresenta um rápido ciclo reprodutivo. As ovelhas têm vida útil de seis anos, sendo que as borregas atingem a puberdade entre o sexto e oitavo mês, idade em que já estão aptas para a reprodução, apresentam o primeiro cio, podendo ser cobertas e fertilizadas. Os machos também nessa idade entram em reprodução e já cobrem e fertilizam. Esse fato também requer manejo adequado, para que as fêmeas não entrem em produção precocemente, com peso corporal abaixo do recomendado, e também para evitar a consangüinidade do rebanho, devido ao acasalamento entre animais com grau de parentesco muito próximo.

Em sistemas intensivos de produção, como o desenvolvido pelo Instituto de Zootecnia de São Paulo (Revista O Berro, Nº 64, abril/2004), as ovelhas são mantidas em boas pastagens, manejadas com sistema rotacional de pastejo e os cordeiros do nascimento até a idade de abate, mantidos totalmente em regime de confinamento, obtém-se elevado desempenho ponderal dos cordeiros e boa conformação de carcaça. Nesse sistema, quando utilizado o cruzamento para fim industrial, através de ovelhas deslanadas cruzadas com carneiros de outras raças especializadas para produção de carne, os cordeiros nascem com 4,5kg, em média, e apresentam ganhos de peso da ordem de 240 a 280 gramas/dia. Dessa forma, os cordeiros já podem ser desmamados entre os 45 e 60 dias de vida, quando atingem 15 kg de peso, devendo chegar ao peso ideal para o abate, ou seja, 30 kg, entre 100 e 120 dias, apresentando rendimento de carcaça entre 12 a 14 kg, de boa conformação. Outro fator positivo desse sistema é a ausência de mortalidade de cordeiros por motivo de doenças, do nascimento até a idade de abate. Com isso, reduz-se o dispêndio com medicamentos, particularmente com vermífugos, pelo fato do cordeiro não ter acesso às pastagens.

Atualmente, a maior entrave para a expansão da ovinocultura no Estado, via o ingresso de novos criadores, é a dificuldade para a obtenção de matrizes aptas à reprodução. Os produtores que iniciam na atividade trazem ovelhas do nordeste. Esses animais, devido ao longo percurso da viagem em caminhões, adquirem stress que dificulta ainda mais a adaptação à nova região. Este fator aliado ao frete, onera o custo dos animais pelo fato de influenciar negativamente na eficiência reprodutiva, além de causar possíveis perdas por mortes.

A organização da ovinocultura de corte, pela iniciativa privada, voltada para a produção e oferta de matrizes e reprodutores, seja por criadores individuais ou pelas associações e cooperativas de pequenos e médios produtores, com o apoio governamental ao setor, seria o ponto de partida para a alavancagem de mais uma atividade econômica para o agronegócio mato-grossense.

Pequenos e médios produtores poderiam ingressar na atividade com o emprego de tecnologias mínimas recomendadas e instalações adequadas, com rebanho de até 300 ovelhas de cria, adotando sistema de produção em que se possa alcançar alta eficiência reprodutiva e com alto índice de desfrute do rebanho, visando à obtenção de cordeiros híbridos, de boa heterose, oriundos de cruzamentos com fins comerciais para o consumo. Nesse caso, todas as crias, tanto machos como fêmeas são abatidas, ofertando um produto de grande procura e de excelente qualidade, como é a carne de cordeiro. Dessa forma o rebanho seria composto de menos categorias de animais, o que facilitaria as práticas de manejo na propriedade.

Com a adoção de sistema de produção voltado à criação de cordeiros para carne, quando houvesse necessidade de reposição de fêmeas por motivo de descarte zootécnico, ou mesmo para aumentar a quantidade de ovelhas no rebanho, os criadores iriam recorrer aos criatórios onde estariam sendo produzidas matrizes, não obrigatoriamente puras de origem (PO), porém de bom padrão racial, de raça deslanada, no caso a Santa Inês. Raça esta, que melhor se adapta às diferentes condições climáticas do Estado, para constituir a linha materna na obtenção de animais cruzados destinados ao abate.

http://www.seder.mt.gov.br

João Batista Vechi

Méd. Veterinário, Extensionista Agrícola da EMPAER/MT. Esp. em Agente de Inovação e Difusão Tecnológica. Superintendente de Programas de Desenvolvimento na SEDER.