Manejo humanitário no pré abate

Normalmente os consumidores de carne bovina avaliam a qualidade da carne com base na suculência, sabor, aroma, cor e principalmente maciez, e estes atributos influenciam no momento de adquirir o produto e posteriormente na satisfação do cliente.

Fatores ante mortem como, sexo, raça, idade, atividade física, função do músculo e nutrição, influenciam de forma direta na consistência da carne e nos seus atributos de qualidade. Além dos fatores citados anteriormente, outro fator ante mortem que influencia a qualidade da carne é o manejo que ocorre na propriedade ou fazenda antes do abate, denominado manejo pré abate. Algumas ações simples que melhoraram a qualidade da carne podem ser tomadas na propriedade rural como, evitar a utilização de elementos pontiagudos na hora de conduzir os animais, evitar o excesso de animais na hora de agrupá-los  para o embarque e evitar muito barulho, lembramos que este já é um momento estressante para o animal e, portanto, por mais difícil que possa parecer, devemos diminuir as atividades estressantes.
No transporte da propriedade até o frigorífico não deve ser excedido o número de animais por compartimento no caminhão, pois além de aumentar o estresse, estes animais podem causar injurias uns aos outros e até o óbito de alguns animais o que não é tão raro. Portanto, o principal aspecto a se levar em consideração no transporte é o espaço ocupado por animal, ou seja, a densidade da carga. Esta pode ser classificada em alta (600 kg/m2), média (400 kg/m2) ou baixa (200 kg/m2). O espaço na carroceria deve ser tal que o animal permaneça em pé, em sua posição natural, pois a densidade muito baixa também pode causar problemas de bem-estar e qualidade da carne. No caso de excesso de espaço, com a movimentação do veículo os animais podem ser jogados contra as estruturas da carroceria, assim, nem a densidade em excesso nem a baixa densidade são benéficas para o transporte de bovinos, e estudos comprovam que o ideal seria uma densidade média. 
Ao chegar no frigorífico estes animais devem ser descarregados sem muito barulho e gritaria, e sem a utilização de choques e elementos pontiagudos para conduzir  os animais. É importante relembrar que eles já estão estressados, foram transportados em caminhões, talvez em um número maior que o ideal, sem água e comida, e o que precisam nesse momento é um ambiente mais confortável. Portanto no momento em que as portas do caminhão se abrirem, os animais provavelmente sairão sem muita dificuldade. No frigorífico o embarcadouro deve dispor de uma rampa suave com declive máximo de 25 graus para facilitar a descida dos animais. O piso deve ser de material antiderrapante, sem fendas, declividades ou concavidades que possam ferir os animais.
Nos currais do frigorífico as cercas não devem ser de material resistente para não causar danos a pele dos animais, e estes devem ter acesso a água abundante e limpa, com área de bebedouro para atender 20% dos animais do curral ao mesmo tempo. Para condução dos animais, os dispositivos produtores de descargas elétricas somente devem ser utilizados em caráter excepcional, e com descarga inferior a 50v.
Os animais devem permanecer em um período de descanso, jejum e dieta hídrica, por um período de 24 horas, podendo ser reduzido para 6 horas quando a viagem não for superior a duas horas.
A condução dos animais para a sala de matança deve ser feita sem tumulto por parte dos condutores, sem o uso de elementos pontiagudos ou o uso de bastões de choque, e evitando que os animais corram, pois podem ocorrer quedas e o animal ser pisoteado pelos demais. Nesse procedimento, os animais devem permanecer por um período de 5 minutos no banho de aspersão, com água hiperclorada a 15ppm e uma pressão de 3 atm, para limpar sujidades grosseiras que se encontram no couro do animal e diminuir o estresse pré-abate. Após esta etapa os animais seguem para o box de atordoamento pela rampa de acesso, que deve ser construída em alvenaria com parede de 2 metros de altura e revestida de cimento liso. Essa instalação deve ter declive de 13 a 15% para escoamento da água, piso antiderrapante de concreto ou paralelepípedo rejuntado, as paredes devem ser afuniladas com uma deflexão de 45 graus, e os animais devem seguir para o box em fila indiana, entrando no mesmo, um por vez. Nesta hora o comportamento social dos bovinos com o ato de seguir uns aos outros ajuda no manejo.
Ao entrar no box o animal deve receber o golpe na região frontal, na junção entre a linha imaginária que fica entre a base dos chifres e dos olhos quando o método de insensibilização usado for o percussivo penetrativo. Quando o método usado for o percussivo não penetrativo este golpe deve ser disparado 2 a 3 centímetros acima da mesma linha imaginária.

Na insensibilização realizada conforme os padrões de bem estar animal, o bovino não deve ter nenhum reflexo ocular ou respiratório, mas movimentos em pedalada com as patas traseiras são aceitáveis. Em seguida, logo após este procedimento o animal deve ser içado e sangrado, para manter os atributos de qualidade da carne e bem estar animal. Entre a insensibilização e a sangria o tempo não deve exceder um minuto, para que o animal não retome seus reflexos. Para uma sangria completa, tanto as artérias carótidas como a jugular devem ser incisadas, e o animal deve permanecer na calha de sangria por 3 minutos para que todo o sangue seja evacuado.
Na calha de sangria deve existir um dispositivo elétrico para promover a estimulação elétrica nos animais, com a finalidade de acelerar a glicólise e início do rigor mortis. Enquanto o animal estiver na calha de sangria nenhuma atividade deve ser realizada, tal como corte de chifres, retirada de couro ou mocotó.
Todos esses procedimentos além de diminuir o sofrimento dos animais que serão abatidos, também são muito importantes economicamente. Atualmente os melhores mercados compradores de carne do Brasil, exigem em suas auditorias, que o bem-estar animal seja empregado, além é claro de uma carne de melhor qualidade, pois com isso reduz a quantidade de animais com carne DFD, ou seja, dura, seca e escura. 
É importante destacar ainda o valor que deixa de ser pago aos pecuaristas, pois quando um tratamento humanitário não é realizado nas etapas de abate, ocorrem contusões na carcaça, fraturas, cortes e hemorragias internas. Estas áreas são retiradas pela Inspeção Federal, pois não podem ser consumidas in natura, seguindo para a seção de subprodutos e, portanto, estas carcaças têm um peso final menor. Estudos mostram que quando o animal é submetido a transporte com densidade excessiva e o manejo pré-abate não humanitário, as perdas podem chegar a 15% do peso final, ou seja, um animal com peso de 280 quilos de carcaça as perdas serão de 42 quilos ou 2,8 arrobas. Portanto, vale a pena a aplicação do manejo humanitário na propriedade, mas os pecuaristas devem cobrar dos frigoríficos o mesmo, pois os resultados são grandes.

Referências Bibliográficas 

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regulamento técnico de métodos de insensibilização para o abate humanitário de animais de açougue.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Inspeção de Carnes – Padronização de Técnicas, Instalações e Equipamentos, I – Bovinos: Currais seus Anexos – Sala de Matança – 1971

Troeger, K. Sacrificio: Protección animal y calidad de carne.

Fleischwirtsch, 71, 1991.
 

GOMIDE, L.A.M.; RAMOS, E.M.; FONTES, P.R. Tecnologia de abate e tipificação de carcaças. Viçosa: UFV, 2006.
 

LUCHIARI FILHO, Albino. Pecuária da carne bovina. 1ª ed. São Paulo: LinBife, 2000. 

Autor: Marcos Paulo D F Branco

Fonte: http://gadoleiteiro.iepec.com/noticia/manejo-humanitario-no-pre-abate