Gerenciamento de propriedade cafeeira em época de crise

Existe um ditado popular que é nas crises que mais se aprende a administrar. Nesses momentos, os recursos são escassos e devem ser bem aproveitados. Com os preços do café abaixo da remuneração desejada, torna-se mais importante para o cafeicultor, gerenciar adequadamente todas as atividades da propriedade, adotando a prática correta no momento adequado, buscando também a redução dos custos de produção.

Em momentos de preços baixos, os tratos culturais como adubação, controle de pragas e doenças, são os primeiros a serem cortados, e não são os que mais pesam no custo final da saca. O cafeicultor deve estar atento ao reduzir custos, pois em curto prazo pode estar tendo uma economia, mas essa economia pode afetar não só a produtividade, como também a qualidade do cultivo. Quanto maior a produtividade por hectare (até determinada produtividade), menor será o custo unitário de produção de uma saca de café. Trabalho conduzido pelo Departamento de Administração e Economia da Ufla, sob a coordenação do professor Ricardo Pereira Reis, mostra que para os produtores que produzem abaixo de 20 sacas de café por hectare, o custo real de produção da saca na região Sul de Minas fica em R$ 171,48. Como o preço da saca de café está atualmente em tomo de R$ 120,00, os cafeicultores que estiverem produzindo até 20 sacas por hectare, estão pagando apenas uma parte dos recursos variáveis e nada dos recursos fixos. Isto significa que o produtor está descapitalizando, ou seja, usando recursos de outra atividade econômica para continuar produzindo café. A médio e longo prazo, ele não irá suportar, indo a falência ou abandonando a atividade.

O custo de produção de uma saca de café para quem produz abaixo de 20 sacas por hectare, estava alto há vários anos, mas o preço recebido pela saca também era alto, por esta razão ninguém se preocupou com o custo.

Abaixo, as principais estratégias sugeridas para gerenciamento de propriedades cafeeiras em épocas de crise:

1) Reduzir a adubação — Uma planta submetida à sub-doses de adubo irá diminuir sensivelmente a produtividade. Momentaneamente vai representar alguma economia, pois o produtor não terá que desembolsar recursos financeiros para adquiri-lo, mas já no curto prazo e principalmente a médio e longo prazo, irá onerar em muito o custo de produção por saca. Uma lavoura que tinha potencial produtivo de 8 litros por planta, quando adubada inadequadamente, pode chegar a produzir 2 a 3 litros por planta, o que irá onerar em muito o custo da colheita, prática que tem um peso muito grande no custo de produção de uma saca de café. O produtor deve fazer uso freqüente de análise de solo e foliar, pois se tratam de técnicas baratas e, se realizadas pelo menos uma vez por ano, vão significar economia de calcário e adubo. Devemos utilizar também as fontes orgânicas disponíveis na propriedade, podendo reduzir em muito a adubação química. A própria casca do café, muito rica em potássio, que pode ser usada para forrar currais ou estábulos, em presença da urina, fezes dos animais e da adição de alguns adubos químicos pode substituir o adubo químico. Mesmo que não seja compostada, a casca de café tem que ser devolvida à lavoura. Quanto aos micronutrientes, ao invés de se comprar produtos prontos, pode-se fazer a mistura na própria propriedade que sai muito mais em conta.

2) Compra em conjunto de Insumos Agrícolas — Outra alternativa muito oportuna em época de crise é a compra conjunta de insumos agrícolas através de cooperativas e associações, onde pode-se conseguir produtos com diferenciais de preços de 20 a 30% dos preços praticados no mercado. Um exemplo claro dessa vantagem é a Alcafé (Associação de Cafeicultores da Região de Lavras) que comprou em conjunto 12.000 litros de herbicida Gliphosato. Não há o que discutir, o poder de troca de uma compra dessa natureza é muito maior do que a compra de um produtor isoladamente, que compra 20, 3O ou até mesmo 100 litros do mesmo herbicida.

3) Controle Integrado de Pragas e Doenças — Existe uma porcentagem de dano tanto da praga quanto da doença, que não causa danos representativos na lavoura. Até esse nível, não se justifica o controle químico. Para ver se realmente é necessário, o controle químico deve-se fazer o monitoramento constante da mesma, que é dividida em talhões e acompanhada a evolução do ataque. Por exemplo, o bicho mineiro em lavouras adultas só deve receber controle químico, quando a porcentagem de folhas minadas intactas for de 20 a 30%. Esses níveis de controle já estão estabelecidos para cada praga e doença. Atente-se também para o controle cultural e biológico, que mesmo não sendo 100% eficiente, reduz em muito o consumo de defensivos. Em caso de dúvida, procure um responsável técnico para melhor orientá-lo.

4) Manejo de Plantas Daninhas — O controle manual das plantas daninhas onera muito o custo de produção. Somente a capina da linha, conhecida comumente como trilha de uma lavoura em formação, custa em tomo de 120 a 150 reais por hectare e tem uma eficiência de, no máximo, trinta dias. Atualmente, existem no mercado uma série de herbicidas seletivos que podem ser aplicados desde a muda recém-plantada no campo, com um custo de aplicação em tomo de 60 a 70 reais, com a vantagem de proteger a lavoura por três a quatro meses. Para lavouras adultas, a mesmo consideração é válida ao usarmos herbicidas pré-emergentes, que nos dão proteção por pelo menos dois meses. Os herbicidas pós-emergência também apresentam um controle satisfatório, quando aplicados na hora e em doses certas. Dentro do conceito de manejo de plantas daninhas, temos que considerar uma alternância nos métodos de controle, para evitar que sejam selecionadas determinadas espécies de plantas e olaborar para a conservação do solo, da água e de todo o meio ambiente. O uso de roçadora costal que pode roçar em tomo de 6.000 covas por dia e custa aproximadamente 700 a 800 reais. O uso da foice para fazer roçagens é uma prática muito eficiente para pequenas propriedades, principalmente aquelas situadas em locais declivosos.

5) Uso de tração animal e a otimização de máquinas e implementos — Temos a opção de implementos que podem ser tracionados por tração animal e são muitos eficientes. Hoje a tração animal está sendo sub-utilizada em nível de pequenas propriedades, que muitas vezes compram um trator, não tendo a necessidade de comprá-lo. Um trator só se justifica quando o cafeicultor possui uma área de. pelo menos, 15 hectares com café. Um trator e os equipamentos subutilizados pesam muito nos custos fixos de uma saca de café.

6) Uso de culturas intercalares — O plantio de cultivos intercalares no cafezal está praticamente esquecido. As opções como feijão, arroz, milho e outras de interessa mais local, podem reduzir os custos de produção da saca de café, empregar mão-de-obra ociosa e agregar renda para a mesma área cultivada. O uso de parceiros ou meeiros é comum nas fazendas de café que utilizam cultivos intercalares em cafezais. O uso de parceiros ou meeiros quando bem utilizado é benéfico para o produtor quanto para o empregado.

7) Escalonamento da colheita — evitar colher grãos ainda verdes que, além de perda de peso, irão proporcionar um produto com qualidade inferior. O produtor de café tem como meta (terminar rápido com a colheita), não importando se, para isso, for necessário pagar um pouco mais pela mão-de-obra. No período de colheita, há uma demanda muito intensa de mão-de-obra, o que normalmente inflaciona o preço da mesma. Como a colheita pesa muito no custo final de uma saca de café, o cafeicultor tem que se programar para fazer uma colheita mais lenta, selecionando melhor os colhedores e, conseqüentemente, diminuindo seu custo. Por outro lado, uma colheita muito tardia pode prejudicar a qualidade do produto, bem como a safra seguinte. A mecanização é uma alternativa que precisa receber mais atenção do cafeicultor na colheita, pois reduz sensivelmente os custos. Na colheita manual, a medida de 60 litros pode custar, 3, 4, 5 ou mais reais, pois depende da quantidade de café por planta. Na mecanizada, pode chegar a custar até 1 real por medida. Não há necessidade de comprar uma grande máquina. Hoje existem empresas ou cooperativas que alugam essas máquinas. Há também, as derriçadoras manuais, com uma diversidade de marcas e modelos, acessíveis aos mais diferentes tamanhos de propriedades.

8) A qualidade do produto — Mesmo em época de crise, a busca pela qualidade deve ser constante. Se com excesso de café no mercado, não há um ágio muito significativo para cafés de qualidade padrão, com certeza irá ter um deságio de 10 a 20% para cafés de qualidade inferior. Essa porcentagem pode significar a sua margem de lucro na atividade.

9) Renovação de Lavouras e Novos Plantios — O momento é oportuno para renovar plantios velhos e decadentes, desde que sejam plantados com cultivares de bom potencial produtivo e que não possuam muitas falhas. Ao realizar podas, o custo da lavoura diminui sensivelmente, dando-lhe mais chances de superar a fase de preços baixos. Caso o uso de poda não seja viável, recomenda-se substituir o talhão por um plantio novo, com cultivares modernas e diferentes épocas de maturação dos frutos, para facilitar o escalonamento da colheita. Atentar também para a escolha do espaçamento. Um stand adequado para cafezais gira em torno de 6.000 plantas por hectare. Se for utilizar a mecanização, evitar ruas muito largas, pois um espaçamento entre linhas de 4m, pode exigir uma passada a mais de uma roçadeira, simplesmente para eliminar uma pequena faixa de plantas daninhas que sobrou. Se, por exemplo, o espaçamento entre ruas fosse de 3,60m, com uma passada da roçadeira apenas, toda a rua ficaria roçada.

10) Outras alternativas de menor custo — Um metro quadrado de um terreiro pavimentado como concreto fica em tomo de 10 reais. Se for de asfalto, pode custar ainda mais. Atualmente existe uma forma de pavimentação de terreiro, utilizando-se “Lama Asfáltica” que deve ficar em 50 a 60 centavos o metro quadrado já aplicado. E uma tecnologia muito simples que pode ser significativa na redução de custos.

Muito cuidado com a mão-de-obra, pois ela representa de 40 a 60% do custo de produção. Deve-se racionalizá-la ao máximo, evitando-se desperdício. Um simples treinamento pode melhorar o rendimento de funcionários que operam tratores, colhedoras, lavadores, secadores e máquinas de beneficiar, com um retorno muitas vezes superior, ao investido no treinamento. É hora de se utilizar todo o conhecimento disponível e não de fugir do técnico. No momento de crise, o cafeicultor tende-se a afastar do técnico e é exatamente nessa hora que ele mais precisa dele. Abandonar o plantio nesse momento é a pior decisão a ser tomada, uma vez que o investimento mais alto foi feito na implantação da lavoura. A propriedade agrícola é uma empresa complexa, que deve ser gerenciada com eficiência. O verdadeiro empresário acompanha de perto todo o movimento de sua empresa. Faz custo de produção e procura basear-se em coeficientes técnicos pré-estabelecidos para verificar pontos falhos de sua atividade, para depois eliminá-los. Já não se admite amadorismo, na gestão da propriedade cafeeira. Ou o empresário rural se especializa ou com toda certeza irá abandonar a atividade. A cafeicultura brasileira já passou por inúmeras fases de preços baixos e essa com certeza não será a última. O que mais se exige hoje é competência para poder resistir. Numa época em que grandes conglomerados financeiros e várias outras empresas mesmo do setor agrícola, estão se unindo para enfrentar, esse mundo globalizado, o cafeicultor não pode se dar ao luxo de que querer enfrentá-lo isoladamente. Tem que se unir em associações, cooperativas e entidades de classe para ter maior poder de troca. E como mensagem final, lembre-se: quem está em crise é o cafeicultor e não o cafeeiro.

Carlos Alberto Spaggiari Souza é pesquisador da Universidade Federal de Lavras.

Fonte: www.coffeebreak.com.br