A presença e o controle do ácaro nos cafeeiros

Paulo Rebelles Reis

Através de amostragens de folhas, ramos e frutos nos terços inferior, médio e superior da parte interna das plantas e contagens de ácaros em todos os estágios de desenvolvimento, constatou-se que o B. phoenicis ocorreu em maior quantidade em folhas internas, ramos e frutos dos terços inferiores e médios das plantas de café.

Nas folhas, os ácaros localizavam-se predominantemente na página inferior, próximos das nervuras, principalmente da central. Nos frutos, ovos e ácaros foram encontrados preferencialmente na região da coroa e pedúnculo. Nos ramos, foram freqüentemente encontrados abrigados nas fendas existentes na casca e, também nos nós.

No Brasil, o ácaro da mancha-anular Brevipalpus phoenicis (Geijskes) tem sido relatado vivendo em cafeeiros (Coffea sp.) pelo menos desde 1951; posteriormente foi correlacionado com a mancha-anular causada por vírus, Coffee Ringspot Virus (CoRSV), do grupo dos Rhabdovirus; é cosmopolita e polífago, infestando diversas espécies vegetais. B. phoenicis, ácaro-plano ou leprose, como é conhecido na citricultura é uma séria praga para essa cultura, atacando ramos e frutos. B. phoencis, além de estar associado à leprose dos citros e à clorose-zonada, está também associado à mancha-anular do cafeeiro.

Sintomas — Os sintomas aparecem nas folhas e nos frutos do cafeeiro, caracterizando-se por manchas cloróticas, de contorno quase sempre bem delimitado, às vezes com um ponto necrótico central. Nas folhas, as manchas tomam constantemente a forma de anel, podendo coalescer, abrangendo grande parte do limbo. Nos frutos, os sintomas também aparecem em formas de anéis. Nos ramos, os sintomas de ataque ainda não foram bem determinados.

Como ocorre em citros, também em cafeeiro duas hipóteses podem ser estabelecidas para explicar a sintomatologia do ataque, ou seja, as lesões podem ser causadas por uma toxina injetada pelo ácaro no tecido das plantas ou o ácaro e um vetor de um patógeno, provavelmente um vírus. A transmissão da leprose em citros, pela enxertia e mecanicamente, reforça a hipótese de que a doença, nessa cultura, é causada por um patógeno. Porém, não se descarta a segunda hipótese, e as duas podem ocorrer simultaneamente.

Ácaro e cafeeiro — Desde 1990, com destaque para 95, a infestação de B. phoenicis e da mancha-anular tem sido relatada em Minas Gerais, onde causa intensa desfolha em cafeeiros, principalmente na região do Alto Paranaíba, sendo também constatada a presença do ácaro nas demais regiões cafeeiras do Brasil, tanto em cafeeiro arábica, quanto em canéfora. O conhecimento dos locais preferidos pelo ácaro nos cafeeiros, com a finalidade de facilitar a presença do mesmo durante o ano e o conhecimento dos locais que devem ser alcançados pelos produtos fitossanitários foram o objetivo deste trabalho.

A exemplo do relatado para citros, foi constatada a presença de B. phoenicis nas folhas, ramos e frutos do cafeeiro. Nas folhas, os ácaros localizavam-se na página inferior, próximos das nervuras, principalmente da central. Nos frutos, ácaros e ovos se encontravam preferencialmente na coroa e pedúnculo, sendo também encontrados em fendas e em lesões na casca dos frutos, com aspecto de cortiça. Nos ramos, eram freqüentemente encontrados abrigados em fendas existentes na casca e também nos nós.

Na maioria das folhas e frutos apresentava sintomas semelhantes àqueles descritos para mancha-anular. Nas folhas, as manchas cloróticas, por vezes, acompanhavam o sentido das nervuras, adquirindo formato alongado. As nervuras na região das lesões, e na página inferior, geralmente apresentavam-se necrosadas. Após o ataque do ácaro, os frutos ficam pré-dispostos à penetração de microorganismos, como o fungo Colletotrichum gloeosporioides, comumente encontrado em condições saprofíticas em cafeeiros.

Ovos e ácaros — O maior número de ovos e ácaros foi encontrado nos terços inferior e médio das plantas, tanto nas folhas quanto nos ramos e frutos. Nas folhas, o maior número de ovos e ácaros foi encontrado naquelas dos terços inferior e médio e posição interna da planta, ou seja, naquelas da parte proximal dos ramos, e em menor número nas folhas da parte superior e posição externa da planta ou parte distal dos ramos.

Nos ramos, o maior número de ovos e ácaros foi encontrado na parte distal, que é a parte verde dos ramos, e o menor número na parte do ramo que não apresentava folhas, ou no interior das plantas.

Nos frutos, a maior quantidade de ácaros ocorreu naqueles do terço inferior das plantas, onde foram encontrados mais ovos do que outros estágios do ácaro. Estes resultados diferem daqueles encontrados para citros, com a mesma espécie de ácaro, onde a maior preferência foi para frutos e ramos, e os locais menos adequados foram as folhas. Porém, é possível que as diferenças sejam devido ao tamanho dos ramos e dos frutos, muito maiores nos citros do que no cafeeiro.

Nas folhas e ramos, em relação à altura nas plantas e posição interna e externa, a análise da distribuição espacial mostrou que o B. phoenicis apresentou em cafeeiro uma distribuição agregada, ou em focos. Nos frutos, a distribuição foi regular. Os resultados obtidos mostram que amostragens dessa espécie de ácaro, para efeito de controle, serão mais representativas se forem feitas em ramos e em frutos do terço inferior, e em folhas mais internas do terço inferior das plantas. Dão informações também de quais partes das plantas devem ser alvo de produtos fitossanitários para o controle dos ácaros, ou seja, o equipamento a ser utilizado deve proporcionar um depósito dos produtos nas partes interiores das plantas, principalmente dos terços inferior e médio.

Paulo Rebelles Reis é pesquisador da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais).

Fonte: Revista Cultivar, junho de 2000.

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