Máquinas e Implementos Agrícolas

Aplicação de agroquímicos em citros

Escrito por Aparecido Tadeu Pavani

Mais do que uma simples regulagem, a TAPF – Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários, envolvecomponentes de vários ramos da ciência, servindo ao produtor como importante fator de redução de custo.

“ Na defesa de plantas, a arma química deve ser usada como um estilete, não como uma foice”. A. W. A. Brown, 1.951 Embora seja uma das práticas mais comuns dentro das atividades agrícolas, a aplicação de produtos fitossanitários se reveste de uma importância tal, que um estudo mais aprofundado revela uma atividade complexa pelas muitas influências que a mesma recebe de diversos ramos do conhecimento. Assim, deparamos com a Biologia, onde buscamos os conhecimentos para saber detalhes sobre a planta e a praga; com a Química, pela qual se obtém a síntese dos próprios produtos, com suas respectivas formulações, grupos e formas de ação; pela Engenharia buscamos as melhores performances dos equipamentos; com a Medicina priorizamos as medidas de segurança, os cuidados preventivos e antídotos; a Física alimenta os estudos pelos parâmetros de pressão e velocidade de trabalho, movimento de gotas e meteorologia. Contribuem ainda, áreas como a Ecologia, pelas análises de efeitos ambientais; a Economia quando fazemos a avaliação dos custos e benefícios e a área de Comércio, que envolve assistência técnica e marketing. Na cultura de citros, a técnica mais utilizada de aplicação de produtos fitossanitários é a pulverização e esta, como não poderia deixar de ser, responde pelos maiores impactos nos custos de produção dessa cultura. Assim, o objetivo deste trabalho visa dispor algumas informações, com base em conhecimento de especialistas na área e de experiências de campo, a fim de atrair a atenção para uma operação que deve ser realizada de forma mais técnica e responsável, quando muitas vezes, por ser de rotina, torna -se sub-estimada. Na pulverização, diversos fatores estão relacionados para que a mesma se faça realizar e se torne eficiente, ou não, dentro do processo de produção. A planta, o homem, o equipamento, a praga, o clima e o produto são esses os fatores. Lembramos que a eficiência é uma meta que se atinge com base em pelo menos três características de trabalho: • rendimento: velocidade de trabalho e agilidade operacional que resultam em mais hectares por hora, plantas por hora, etc., dentro de padrões de segurança e eficácia. • qualidade: pessoas treinadas, bons “ Na defesa de plantas, a arma química deve ser usada como um estilete, não como uma foice”. A. W. A. Brown, 1.951 produtos, equipamentos regulados e tempo administrado. • economia: agilidade de negociação, custo/benefício dos produtos, manutenção preventiva de equipamentos, etc. No final, tudo tem reflexo no custo de produção, onde só com insumos, são gastos cerca de 13% a 20%, mais outras contas como: mão de obra, manutenção e combustível de máquinas que são gastos diretamente com essa atividade.  Alguns conceitos são importantes para o entendimento das informações: Regulagem: refere-se a configurar o equipamento para a operação a realizar (número e modelo dos bicos, velocidade de trabalho,  pressão, vazão dos bicos, fluxo de ar, distribuição do ar e dos bicos, etc). Calibração: determinar qual o volume de calda por hectare ou planta e a quantidade de produto a se colocar no tanque. Alvo biológico: organismos que se deseja controlar (erva-daninha, inseto, ácaro, fungo, bactéria) – a praga. Alvo químico: partes da planta (principalmente) que se faz necessário atingir com o produto para que praga também seja atingida, diretamente ou pelo contato com tais partes – folhas, ramos, tronco, frutos, solo, etc. Quando pensamos em um programa de pulverização, como citado acima, alguns fatores são importantes e devem ser considerados pelo momento (time), pela grandeza, pelas disponibilidades e capacidades. 1 – A planta: nela analisamos seu enfolhamento, presença de frutos ou não, brotações novas, “saia” alta ou “saia” baixa, tamanhos diferentes dentro do pomar, condição  de estresse. Tudo isso implica no volume de calda a ser utilizado, distribuição dos bicos, tamanho de gotas, dose e tipo de produtos, etc. 2 – A praga: é importante ter conhecimento de aspectos da biologia da praga, tais como o ciclo de vida (tempo, estágios de desenvolvimento, fases de exposição, hábitos de alimentação, de reprodução (no caso de Bicho Furão, por exemplo), esconderijos (aspecto importante quando se objetiva controlar o Ácaro da Leprose), índices de infestação e nível de controle. 3 – O clima: os fatores do clima devem estar sob avaliação antes de se iniciar e durante o programa de pulverização. Recomenda- se que a UR – umidade relativa do ar, não esteja abaixo de 50%, sob risco de perdas por evaporação rápida ou gotas que não chegam a atingir sequer o alvo químico. Por isso muitas vezes se tem maior eficiência com aplicações noturnas. Devem ser evitadas as temperaturas altas, normalmente na parte da tarde. Temperaturas acima de 37o C podem provocar maior evaporação, prejudicar efeito de produtos e causar fitotoxicidades (Ex.: óleo mineral, enxofre, formulações líquidas, etc.). Os ventos podem ser prejudiciais tanto para a operação, quanto para a saúde do operador e ao ambiente por provocar deriva das gotas da calda pulverizada. Verificar se o vento está entre 3 e 10 km/h, avaliando de forma prática os ramos das plantas. Vegetação parada e alta temperatura, condição desfavorável. Apenas folhas se mexendo, ventos bons. Rajadas de vento, com ramos balançando, vento excessivo. Enfim, as chuvas devem ser evitadas a todo instante da pulverização e até intervalos após a aplicação de acordo com o tipo de produto. Ficar atento às previsões do tempo, aos históricos práticos da região e ao bom senso econômico. 4 – Equipamentos: o conhecimento dos recursos do equipamento pelo operador e pelo técnico é muito importante. O turbopulverizador, que é o equipamento mais usado nas aplicações em citros deve ser adequado ao tipo de pomar, deve estar bem adaptado para atender ao processo de regulagem e calibração, e também estar sob observação constante quanto a manutenção de cada uma de suas partes: cabeçalho, tanque, agitador de calda, eixo cardã, chassi, bomba, rodeiro, correias e polias, filtros, registros e tubulações, regulador de pressão, turbina, bicos. A sugestão é que se faça, previa e periódicamente, um check list das condições e se proceda as manutenções e reparos. 5 – O produto: atenção para os tipos de formulações, misturas possíveis, preparo da calda e seqüência de abastecimento e agitação da calda. Os produtos apresentam diferentes modos de atingir o alvo biológico: por contato, por ingestão, forma sistêmica pela planta ou translocação laminar. Condições climáticas podem afetar sua eficiência, além de pH inadequado para a solução. 6 – O homem: ação na identificação da  praga, definição do produto e momento de controle, regulagem do equipamento, operação de produtos e equipamentos, monitoramento da operação, avaliação da operação em geral. Somente com conscientização, treinamentos periódicos e prática do pessoal envolvido se consegue bons resultados. Segurança em todo processo é uma exigência legal. Alguns parâmetros técnicos se fazem essenciais para o projeto da pulverização: • Volume de aplicação da calda: este volume não pode ser padronizado, pois depende do porte da planta, enfolhamento, presença ou não de frutos, do alvo biológico (interno, externo), tipo de defensivo (contato, sistêmico), marca, modelo e recursos do equipamento e do histórico dos resultados anteriores. O volume por planta pode ser considerado alto, quando promove escorrimento da calda pelos ramos e troncos e volume baixo quando não ocorre esse escorrimento e nota-se gotas presas a superfície de ramos, folhas e frutos. Na consideração de área (hectare) os volumes têm sido considerados altos a partir de 4 mil litros/ hectare. Para volumes menores do que esse, deve-se atentar para a necessidade de alterar a concentração do produto na calda do tanque, afim do mesmo não perder eficiência de campo  pela alta diluição na área aplicada, especialmente quando a praga exige alta taxa de cobertura do alvo químico. Trabalhos realizados pelo Centro de Engenharia e Automação do IAC – Instituto Agronômico de Campinas, e Fundecitrus, mostram que não há uma relação direta entre o volume de calda aplicado e o controle do Ácaro da Leprose (aplicações em dois anos e em três diferentes áreas). Há modelos de equipamentos adaptados para trabalho em baixo volume, usando maior número de bicos com menor vazão, menor diâmetro de gotas e menor pressão. Contudo, maior atenção técnica deve ser dispensada para se evitar riscos. • Diâmetro de gotas: o tamanho ideal de gotas produzidas por turbo-pulverizadores em citros está entre 150 e 200 microns por ocorrerem menores perdas por evaporação e deriva e ser facilmente transportada até o alvo pelo fluxo de ar criado pela turbina. Isto está relacionado ao diâmetro do orifício do bico e a pressão de trabalho, que deve estar entre 120 e 200 libras/pol2. • Pressão de serviço: a vazão dos bicos e o tamanho das gotas dependem da pressão de serviço. Pressão alta determina maior volume de aplicação, espectro de gotas não homogêneo e maior desgaste das peças da bomba e dos bicos, além de possível ionização das gotas. Pressão baixa determina menor vazão, gotas grandes e pesadas, as quais não conseguem atingir o alvo. Durante a aplicação, a pressão deve ser periodicamente avaliada através do manômetro. • Velocidade de deslocamento: nas aplicações para alto volume, a velocidade se limita entre 2 e 3 km/h e para baixo volume, entre 3 e 4,5 km/h. Considerar o número de bicos abertos, pressão adequada, porte ou altura da planta e nível de cobertura da planta. • Cobertura do alvo: é o número de gotas por unidade de área ou a porcentagem do alvo coberta pela calda. A cobertura será maior à medida que se aumenta o volume de aplicação e o fator de espalhamento (uso de espalhantes adesivos), por outro lado, ela diminui à medida que se tem grande área foliar e produção de gotas grandes que cobrem menor área específica do alvo. A calibração, propriamente, envolve métodos simples, como a aplicação de um volume conhecido, contagem do número de plantas pulverizadas e cálculo do volume por planta – litros/planta (método mais disseminado). Também existem os métodos complexos que envolvem cálculos com fórmulas ou regras de três simples, considerando-se os parâmetros: vazão por bico, espaçamento entre plantas, velocidade de deslocamento e número de bicos na barra. Para se atingir o volume e a cobertura ideais deve-se promover variações primeiro nos bicos, posteriormente pensa-se em alterar a pressão de serviço e, finalmente, como último recurso, a velocidade de trabalho. Adotar um registro referente ao mapeamento dos bicos (discos e difusores), pressão de serviço, velocidade, espaçamento entre plantas, talhão trabalhado e praga controlada ajuda, eventualmente, no processo de rastreabilidade em casos de insucesso. Como considerações finais, os cuidados no manejo da pulverização devem visar, além da eficiência técnica, a preservação do meio ambiente e a saúde do homem. As empresas fabricantes de defensivos podem contribuir muito com a TAPF – Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários, informando e orientando produtores, técnicos e pesquisadores sobre maiores detalhes de seus produtos. O gerenciamento nas empresas agrícolas de citros deve promover, periodicamente, o treinamento do pessoal técnico e operacional para o melhor aproveitamento dos recursos da TAPF.

Fonte: http://www.agrofit.com.br/portal/citros/53-citros/74–aplicacao-de-agroquimicos-em-citros