Sanitário

Nosemose

A Nosemose é uma doença parasitária causada por um microsporídio que se localiza e se desenvolve no interior das células epiteliais do ventrículo, ou seja, no intestino médio das abelhas adultas.

Os esporos Nosema apis são ingeridos com o alimento e destroem as células epiteliais encarregadas da digestão e assimilação, de tal maneira que não há aproveitamento conveniente do alimento ingerido.

Etiologia

O agente causador é um protozoário – Nosema apis, parasita forçado, pertencente ao grupo dos Protozoários, classe Esporozoários, ordem Cnidosporídios, subordem Microsporídios e família Nosematidae. Foi identificado por Zander, em 1907.

A forma vegetativa do parasita, que apresenta um protoplasma granuloso, só se encontra no interior do tracto intestinal das abelhas doentes e para o seu deslocamento utiliza um largo filamento (200-400um).

Em condições disgenésicas forma esporos ovalados e muito refringentes, de 4,6 a 6,4mm x 2,5 a 4 mm, com uma membrana grossa que encerra um protoplasma granuloso, que mostra os núcleos, um vacúolo e uma cápsula polar na qual se enrola o filamento.

Os esporos sobrevivem nos excrementos diarreicos durante mais de dois anos; no solo, de 44 a 71 dias, no mel, durante dois a quatro meses. Resiste ao calor (60ºC); suspenso na água ou no mel, 10 minutos, para dissecação, dois meses, à temperatura ambiente.

São destruídos pelos raios solares em 15/32 horas, pelo ácido fénico a 4%, em dez minutos, por vapores de ácido acético, a 10-15ºC, em dois dias, por vapores de formol, em 48 horas.

Hospedeiros: factores de receptividade

Esporos de bacilos A Nosemose afecta tanto a rainha como as obreiras e os zângãos, sendo a idade um factor de extrema importância, tendo sido já demonstrado que as abelhas velhas são mais sensíveis à doença e as menos receptivas são aquelas que têm menos de 10 dias de vida, devido a uma renovação mais rápida das células epiteliais do intestino médio, onde assenta o parasita.

Existe uma sensibilidade condicionada pela raça, que não reside na sua capacidade de resistência, mas nas suas particularidades biológicas. Deste modo, a Apis ligustica e a Apis caucasiana, que começam a criar de forma muito precoce o período da invernada, vêem-se mais afectadas, pois as abelhas velhas doentes estão no interior da colmeia, faltando às actividades de percorro, devido à ausência de flora melífera.

A temperatura do abdómen das abelhas é um dado a considerar. É mais alta quando estão em repouso que no exterior e são influenciadas pela exposição ao sol e pelo grau de pigmentação da queratina. Temperaturas de 24-27ºC são óptimas para o desenvolvimento de Nosema apis.

A quantidade e qualidade da alimentação influenciam no grau de receptividade, já que o pH do intestino não tem influência uma vez que é igual nas abelhas sãs e nas doentes. Os elementos da colónia bem alimentada, ainda que parasitada, alcançam uma longevidade igual ao de uma colónia sã cuja alimentação seja escassa. As abelhas de diferentes estações possuem características fisiológicas distintas e não são afectadas de forma igual por N. apis.

Relação: Parasita/Hospedeiro/Ambiente

Epidemiologia

A presença de esporos no ventrículo do hospedeiro nem sempre desenvolve a doença, por existir um estado de equilíbrio (forma crónica) e, nesse momento, a resistência da colónia face à doença pode ser maior que a multiplicação do parasita.

Se o equilíbrio biológico se deteriora em detrimento das abelhas, então, a força de regeneração natural da colónia não é suficiente para assegurar a substituição de obreiras e o parasita causa a morte prematura do hospedeiro (forma aguda).

Na colónia, a doença propaga-se segundo diferentes modalidades, sempre por meio de esporos. Estes chegam ao intestino pela ingestão de alimentos contaminados ou fezes depositadas pelas abelhas doentes nos favais, quadros ou paredes das colmeias que contêm grande quantidade de esporos.

No intestino médio, os sucos dissolvem a cobertura protectora dos esporos, o filamento polar abre-se e o parasita penetra nas células epiteliais que cobrem as paredes do ventrículo e ali se reproduz dando lugar à forma vegetativa que depois de estádios intermédios, transforma-se em esporo jovem, primeiro, e depois em esporo maduro infectante.

A temperatura tem uma acção determinante sobre o desenvolvimento do parasita, sendo 30-34ºC a óptima para a multiplicação, cessando esta a 38ºC e não esporulando abaixo de 10ºC.

Ciclo Biológico de Nosema Apis

Este processo origina uma grande destruição de células epiteliais, ao mesmo tempo que se produz uma auto-infestação em novas zonas do epitélio. Com a evacuação de excrementos carregados de esporos de N. apis por parte das abelhas, encerra-se o ciclo.

A climatologia atlântica favorece correntes irregulares de ar polar que ocasionam Invernos longos e húmidos e períodos de mau tempo na Primavera, que influenciam as floradas, desaparecendo a actividade das abelhas obreiras, o que favorece a diminuição dos esporos.

A acção citolítica de N. apis aumenta quando aparecem condições desfavoráveis como as intervenções frequentes do apicultor, a formação exagerada de enxames, os assentamentos em zonas escuras e húmidas e a utilização de colmeias e quadros sem desinfectar. Para além dos erros de manuseamento do apicultor, são as próprias abelhas que estendem a doença através da pilhagem. Contudo, sabe-se que diferentes artrópodes, como Galleria mellonella, disseminam os esporos N. apis.

Cadeia Epizootiológica da Nosemose

Sintomatologia

Por vezes, existe uma agitação anormal da colónia durante o Inverno e falta de dinamismo na Primavera, com as abelhas a arrastarem-se pelo solo nos arredores das colmeias. O apicultor repara na despovoação da colmeia apesar de ter cria sã. As abelhas infectadas vivem somente metade do tempo que as sãs, se bem que a mortandade nem sempre é reveladora da gravidade da doença.

A abelha apresenta o abdómen redondo e distendido pela acumulação de excrementos, que nem sempre geram uma diarreia intensa, de cor castanho claro esverdeado e com um odor fétido. Os intestinos das abelhas doentes apresentam-se moles, inchados, flácidos, deformados, enquanto os intestinos das abelhas sãs são de cor verde amarelado e turgente (poderia utilizar-se como diagnóstico de campo). Em geral, as abelhas mostram debilidade e uma impossibilidade em voar, provavelmente consequência dos sacos aéreos abdominais se encontrarem inchados e manifestam paralisia.

Em casos mais graves, as colónias morrem rapidamente.

Efeitos Nocivos Sobre as Abelhas

– Altera o metabolismo: há menor digestão das proteínas (pólen), diminuem as energias (substâncias de reserva) e reduz-se a sua longevidade.

– Dá-se a atrofia das glândulas hipofaríngeas que degeneram e atrofiam prematuramente.

– Sobre a rainha: atrofiam-se os ovários até à sua esterilidade completa (troca frequente da rainha).

– Anemia; manifesta-se como uma paralisia, não ter força para bater as asas e voar.

Efeitos Nocivos Sobre a Produção

– Perda de abelhas adultas, principalmente no fim do Inverno e no princípio da Primavera (as abelhas do Inverno não poderão carregar reservas no seu corpo).

– A produção de mel diminui em 25%.

– O consumo de mel durante o Inverno é maior (até 50%).

– A produção de geleia real é nula (não se incorporam proteínas – atrofio das glândulas hipofaríngeas), por conseguinte não podem produzir-se rainhas de boa qualidade nem larvas saudáveis. Consequentemente, a colmeia é debilitada, a postura é diminuída e a colónias substitui a rainha.

Lesões

Os limites dos núcleos das células epiteliais do intestino médio desaparecem e aumentam a quantidade de cromatina; o protoplasma é heterogéneo e está vacuolizado. As células da ampola rectal degeneram e produz-se a hipertrofia.

O volume das glândulas hipofaríngeas, assim como o diâmetro dos seus glóbulos e o tamanho do seu núcleo diminuem; na rainha chega aos ovários até alcançar a esterilidade (castração parasitária), o que motiva múltiplas situações de rainhas numa mesma temporada.

Ciclo de Vida

O principal efeito do protozoário é causado ao nível do intestino, donde o parasita provoca sérias destruições celulares com a consequente perda da capacidade de absorção e secreção.

Quando os respectivos processos do metabolismo dos nutrientes são alterados, desencadeiam-se uma série de transtornos metabólicos que derivam dos sinais clínicos.

Entre estes, encontramos:

– Morte prematura de abelhas, incapacidade para o voo, asas trémulas, movimentos espasmódicos causados pela fraqueza extrema por falta de alimento.

– Desenvolvimento deficiente de glândulas.

– Aumento do consumo, com uma digestão diminuída.

– Repleção do intestino e ampola rectal, aumento de peso, compressão de sacos aéreos.

– Defecação num período avançado da doença. Fezes claras nas bordas externas das celas, castanho claro e amarelo nos buracos: doença avançada.

– Diminuição da esperança média de vida das abelhas, por diminuição de reservas, carência proteica.

– Escassa actividade de voo.

– Deficiente atenção com a cria.

– Abelhas voam isoladamente no Inverno.

– Desenvolvimento atrasado da colónia, principalmente na Primavera.

– Morte das abelhas adultas.

Debilitação da colmeia.

Curso e desenvolvimento da doença

Na Primavera, com o desenvolvimento da cria, sobrevém uma multiplicação dos parasitas, que perante determinadas circunstâncias, produz um estado de equilíbrio entre o hóspede e o parasita: Nosemose Latente.

No Verão diminui ou diluem-se os esporos infectados, chegando a diminuir a infecção.

Perante determinadas condições de stress, manuseamento, clima ou estado interno da colmeia, algumas colmeias aparentemente saudáveis no Inverno, adoecem na Primavera. Quando o mau tempo se prolonga no início da Primavera, fazendo com que as abelhas do Inverno atrasem os seus trabalhos de recolha, instala-se um quadro agudo com debilitação da colmeia.

Esta doença envolve desde uma diminuição da produção (na maioria dos casos inadvertida pelo produtor) até à aparição de sinais clínicos.

Existe uma relação inversa entre a abundância de néctar e pólen e a nosemose.

Dependente de vários factores: humidade, correntes de ar, repouso invernal, ausência de rainha.

Controle

– Desinfecção do material usado com ácido acético glaciar 80%, utilizando 200cc por m3. Coloca-se uma peça fechada com pegas de 6 a 7 alças; humedecem-se panos com a solução de ácido acético e espalha-se pela habitação para que evapore. Devem tomar-se precauções porque o ácido acético é corrosivo e danifica a pele. O período de desinfecção dura 7 dias, depois areja-se o material por 48 horas antes de ser usado no campo.

– Trocar 33% dos quadros da câmara de cria por ano para diminuir a contaminação interna).

– Evitar o excesso de humidade dentro da câmara de cria por ano para diminuir a contaminação interna).

– Invernar com uma boa reserva de mel e pólen.

– Ter colmeias com boa população e pares durante todo o ano.

– Realizar trocas de rainhas de dois em dois anos.

– Realizar, pelo menos uma vez por ano, no Outono e na Primavera, uma amostra de abelhas do apiário para análise em laboratório.

A análise de laboratório consiste em realizar um macerado de intestinos de abelhas e realizar a recontagem de esporos em microscópio. A partir desta recontagem, estabelece-se o grau de infecção.

Podem ser sinais de Nosemose

Diminuição da atenção com a cria e rainha que dispensa a sua postura. A curva de desenvolvimento da colmeia e do parasita têm cursos paralelos.

Diagnóstico

Clínico: A Nosemose não apresenta sintomas patognomónicos; somente nos orientam parcialmente a estabelecer o diagnóstico e, portanto, é necessário uma análise laboratorial.

Sinais Clinicos

Laboratório: Um exame macroscópico sobre o intestino que se apresenta inflamado, com perda de convulsões e cor esbranquiçada, não induz a suspeitar a presença da doença em estado grave. A Nosemose diagnostica-se de forma certa, visualizando esporos de N. apis em preparação microscópica. O método consiste em realizar um macerado de material infectado com água destilada e tingi-lo com metileno. A procura de esporos também se pode realizar sobre excrementos recolhidos no interior da colmeia. Os esporos aparecem como corpúsculos ovais, refringentes e brilhantes.

Diagnóstico Diferencial

Não deve confundir-se os esporos de N. apis com leveduras e fungos que se tingem com as cores utilizadas. Muito menos com as gotas de gordura que são de tamanho irregular, redondas e que não se coloram com as tintas usuais.

Há que referir que os quistos de Malpighamoeba mellificae (amebosis) são circulares e com um diâmetro um pouco inferior ao eixo longitudinal dos esporos.

Prevenção da Nosemose

– Evitar o excesso de humidade dentro da colmeia, como também os lugares húmidos para a instalação do apiário.

– Invernar com uma boa reserva de mel e pólen.

– Ter colmeias com boa população e pares durante todo o ano.

– Realizar trocas de rainhas de dois em dois anos.

– Realizar, pelo menos uma vez por ano, no Outono e na Primavera, uma amostra de abelhas do apiário para análise em laboratório.

Ciclo de vida de Nosema apis

1– Esporo infectado contendo um núcleo duplo típico; as abelhas tornam-se infectadas por engolirem das fezes dos membros parasitas da colónia.

2/3 – No intestino, o tubular torna-se extrusado, penetra na membrana peritrófica e entra na célula intestinal. O esporoplasma é injectado na célula epitelial através do lúmen tubular do filamento polar.

4/12 – O esporoplasma cresce e divide-se assexuadamente num quadrinúcleo na célula parasita. Por fim, dá-se uma divisão final.

13 – Quando os esporos maduros estão presentes, as células parasitas são interrompidas e lançam os esporos infectados ao lúmen, que estão vazios de fezes (ou a infectar as células vizinhas). No fim do Verão, o desenvolvimento de Nosema apis pode ser reduzido e regressar na Primavera. Tal como o intestino, todos os órgãos das abelhas tornam-se parasitados.

Fonte: http://www.apisantos.com/138001/313859.html