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ALIMENTAÇÃO DAS ABELHAS

SILVIO LENGLER Professor Titular de Apicultura do Depto. de Zootecnia, CCR, Universidade Federal de Santa Maria – 97119-900 – Santa Maria RS – Fone/Fax 055-220-8692 / 226-1113 IntroduçãoA meteorologia pode ter efeitos nocivos no desenvolvimento de colmeias de abelhas, isto não só ocorre no inverno, mas também pode ser observado em períodos de safras de mel e pólen, bem como mais acentuado, na entre-safra.

Na ocorrência de chuvas contínuas e fortes as flores são lavadas ficando praticamente sem néctar, restando um pouco de pólen e com a queda da temperatura a níveis inferiores a 8 graus centígrados, as abelhas praticamente paralizam sua atividade, deste modo irão consumir as reservas existente nas colmeias.

Nos períodos longos de frio e chuva as abelhas permanecem nas colmeias, consumindo as suas reservas. As operárias reduzem suas atividades,com isso o silêncio na colmeia é acentuado, resultando a redução de postura de ovos da rainha por falta de euforismo.

A rainha em períodos de safra pode efetuar a postura de aproximadamente 3000 ovos por dia, ocorrendo entrada de pouco alimento na colmeia a rainha também receberá menos geleia real, deste modo irá reduzir a postura para aproximadamente 100 ovos por dia, ou mesmo ficando sem postura ( diapausa) que poderá durar de 15 dias a 120 dias, desta forma haverá um desequilibrio populacional na colmeia, culminando com uma maior mortandade que nascimento de abelhas.

Para que não ocorra o desequilibrio populacional, no inverno ou na entre- safra, o apicultor deverá utilizar técnicas de manejo alimentar sob a forma de suplementação.

A suplementação alimentar, no inverno, no Rio Grande do Sul começa em abril e vai até agosto, deve ser energética-proteica, isto é a base de mel ou açúcar, complementando com algum componente proteico que seja de boa aceitabilidade e está relacionado com a palatabilidade do alimento.

Através de pesquisas chegou-se a resultados satisfatórios, como podemos citar: IBRAHIM (1973) informou que forneceu alimento liquido com 64% de água,32% de açúcar e 4% de pólen, as colmeias alimentadas com esta dieta apresentaram uma produção de mel superior em 28,6% em relação as colmeias que receberam a dieta com 60% de água e 40% de mel.

Ao avaliar a construção de favos, SBAZO (1977), concluiu que uma maior área de favos construído foi obtida quando a temperatura média máxima ficou entre 16 e 21 centígrados, colmeias com menor população consomem mais alimento (açúcar) porque terão que produzir mais calor em relação ao mesmo tamanho de favo. Geralmente colmeias com pequena ou grande população apresenta maior consumo de alimento que colmeias com média população.

LENGLER & ROCHA (1989), testando diversas dietas,no inverno, suplementando com mel, açúcar, leite em pó e farinha de soja, concluíram que o alimento suplementar de maior aceitação, consumo e crescimento dos enxames foi aquele que não possuia farinha de soja e leite em pó, do mesmo modo houve crescimento das famílias, no período. As dietas com leite em pó e farinha de soja apresentaram baixa aceitabilidade devido a falta de palatabilidade e em consequência houve perdas, por migração, de 25% a 50% dos enxames.

Quanto ao período de entre-safra (novembro a fevereiro) na região de Santa Maria, LENGLER et al (1996) concluíram que os enxames resultaram mais populosos no outono e produziram mais mel quando alimentados, naquele período, com alimento suplementar composto por 70% de açucar refinado,20% de mel e 10% de Farinha Láctea (Nestlé). Os mesmos autores também obtiveram que usando alimentador de cobertura (bandeja), durante o inverno, as colmeias produziran mais mel na primavera quando comparadas com as colmeias com alimentadores do tipo Boardmann.

As dietas energéticas-proteicas são recomendadas para alimentar as abelhas nas diferentes épocas do ano, todavia quando ocorre abundante entrada de pólen, nas colmeias, pode haver rejeição da fonte proteica, podendo sobrar, no alimentador, 20 a 50 gramas de alimento.

Como recomendamos o uso do alimentador de bandeja, cuja capacidade pode ser de 4 quilos de alimento pastoso, assim 10% representa a fonte proteica ou seja 400 gramas, deste produto poderá sobrar até 50 gramas.

Para reduzir as perdas deve-se colocar 2 quilos de alimento que certamente será consumido dentro de 20 a 30 dias, podendo se incorporar o alimento que sobrou com o novo alimento que está sendo fornecido.

Considerando os benefícios da alimentação energética proteica, pode-se ignorar a pequena perda que venha a ocorrer.

Desta forma quando ocorrer sobras contínuas do componente proteico pode-se obtar pela suspensão do mesmo, passando a alimentar as abelhas com alimento energético (mel, açúcar e água ou a mistura destes).

Diversas fórmulas de alimentos suplementares já foram testados, quanto a sua finalidade, sempre é importante observar características da palatabilidade, deterioração, custos e disponibilidade no mercado.

2 – TIPOS DE ALIMENTADORES Os alimentadores podem ser: Coletivos ou Individuais.Os alimentadores coletivos não são muito recomendados porque torna-se dispendiosa a alimentação devido dificuldade de saber quais abelhas que estamos alimentando e outro problema é a ocorrência de pilhagem quando o alimento começar a escassear.

Todavia os alimentadores individuais são os mais utilizados, podemos citar alguns modêlos: Doolitle que é de uso interno e é composto por um cocho que pode ser colocado no ninho da colmeia ou melgueira, FIGURA 1 .

Fig.1: Alimentador Doolitle      Alimentador Boardmann é de uso externo e consiste num vidro emborcado sobre um taco de madeira que apresenta orifício para passagem das abelhas, sendo colocado na entrada do alvado da colmeia, FIGURA 2 . Fig.2: Alimentador Boardmann      O alimentador de cobertura, também, identificado por alimentador bandeja é o mais recomendado (resultados de pesquisa na UFSM), por apresentar maior área de acesso por parte das abelhas e proximidade da câmara de cria, resultando transporte de alimento mais rápido para o ninho, FIGURA 3 . Fig. 3 – Alimentador de Cobertura      O custo de implantação de um alimentador de bandeja é relativamente baixo e de fácil fabricação não exigindo muitos conhecimentos de carpintaria nem necessitando de ferramentas ou máquinas sofisticadas. Utilizando uma chapa de compensado marítimo (cor avermelhada) de 15 mm de espessura por 2,20 metros de comprimento e 1,10 metros de largura a um custo de U$ 15,00, pode-se recortar em 10 chapas menores que servirão de soalho do alimentador, as laterais, por toda extensão, coloca-se 2 sarrafos de 2,5 cm de largura por 4,0 cm de altura e no centro faz-se um corte (fresta) de 2 cm de  largura, atravessando ¾ partes no sentido da largura do alimentador, próximo a fresta, nos dois lados, fixa-se sarrafos de 2,00 cm de largura por 3,00 cm de altura.O custo de alimentador de cobertura quando é executado pelo apicultor fica em torno de U$ 2,00 (R$ 2,50).

Antes de colocar o alimentador sobre a colmeia, deve-se dar um banho, na parte interna do alimentador, com cera e querosene quente ( 200 grs. de cera ou parafina para 1 litro de querosene), assim o alimento não irá grudar na madeira.

Utilizando-se sarrafos de 4cm de altura nas laterais para construção do alimentador de cobertura (bandeja), haverá uma capacidade, aproximada, de 5 litros de xarope ou 4 kg de alimento pastoso. Como o consumo de alimento energético-proteico (pastoso) está em torno de 100gr/dia/colmeia, dependendo do tamanho do enxame e tipo de florada existente, haverá alimento suficiente para 30 a 40 dias.

3 – TIPOS DE ALIMENTOS Os alimento para as abelhas são classificados em alimentos naturais e artificiais.
3.1. ALIMENTOS NATURAIS O alimento natural pólen, apresenta uma importância de 55%, enquanto o mel é de 45%, segundo ROSSI (1996), o mesmo autor também informou que as abelhas operárias tem uma vida mais prolongada quando estão bem nutridas com fontes proteicas.

Para nutrição do organismo das abelhas são necessários: carboidratos, proteinas, gorduras, sais minerais, vitaminas e água. Estas necessidades podem ser encontradas no néctar (mel), pólen, honeydew e água

3.1.1 NÉCTAR
O néctar corresponde originalmente a um líquido adocicado composto de sacarose, glicose, frutose e água, secretado nos néctários das flores onde é retirado pelas abelhas e levado até a colmeia.Depois de transformado em mel pelas abelhas é depositado nos favos e operculado, tão logo a sua humidade seja reduzida aos 18% a 20%, o que permite a sua conservação por longo tempo.

O mel é alimento básico das abelhas adultas e faz parte da alimentação das larvas

3.1.2. HONEYDEW
O nome honeydew é uma expressão inglesa usada para o mel produzido de pseudo-néctar, não é de flores, mas secretado pelo sistema metabólico de cochonilhas que vivem em certas plantas da família de leguminosas, secreção de folhas e caules de certas plantas, por exemplos a bracatinga muito encontrado nas regiões serranas de Santa Catarina e acácia na região de Montenegro,RS .No Brasil o pseudo-néctar é denominado melaço, substância doce que as abelhas retiram do bagaço de cana de açúcar.

As abelhas transforman o resto da guarapa existente no bagaço de cana de açúcar em mel, produto que apresenta caraterísticas indesejáveis à comercialização.

3.1.3. PÓLENO pólen representando o gameta masculino das flores é a matéria prima mais importante e rica, utilizada pelas abelhas, principalmente, no preparo da geléia real necessária para alimentação das larvas e a rainha.

As abelhas nutrizes sòmente produzem geléia real se estiverem consumindo pólen ou algum substituto com propriedades semelhantes.

3.1.3.1. COMPOSIÇÃO DO PÓLENOs níveis de vitaminas em 100grs. de pólen, conforme HAKIM (1994), são os seguintes:

Vit. A………. .50 mg Vit..B1…………10 mg
Vit. B2……. ..10 mg Vit. B3…   ……20 mg
Vit.B5……….120 mg Vit. B6…………. 5 mg
Vit. C  ……….80 mg Vit. E …………100 mg
Colina……….690 mg Vit. P ……   …..50 mg

Ácidos graxos 23,6%; Ácido linoleico 39,4%; Carboidratos 38,2%, dos quais 31% ´são açúcares totais, 7,2% de celulose e proteina 10% a 35% .

Há vestígios de 15 elementos no pólen, os quais são necesários ao organismo humano e que são: ferro, iodo, cobre, zinco, manganês, cobalto, molibdênio, selênio, cromo, níquel, estrôncio, estanho, boro, fluor e vanádio.

Os níveis de flavona no pólen são de 2,54 grs. para 100 grs., sendo que os compostos flavonoides tem funções de prevenir a arterioesclerose, diminuir os níveis de colesterol, aliviar a dor e proteger de radiações.

Mais de 80 enzimas ativas foram identificadas foram identificadas, entre estas podemos citar 4 de fundamental importância: catalase, fosfatase, redutase e pactase.

SILVA ( 1994), citou que o pólen é recomendado para tratamento da esterilidade, regula o sistema cerebral e nervoso, evita doenças senis, regula desordem do metabolismo e estimula os hormônios sexuais e previne bem como cura doenças da próstata.

O consumo do pólen, na colmeia, é muito grande na primavera e nas outras estações do ano e sempre proporcional às larvas em desenvolvimeno. Como alimento direto é usado pelas abelhas adultas e fornecido para larvas de operárias e zangões com mais de 3 dias de idade. 3.1.4. ÁGUA As abelhas, embora minúsculas, necessitam de água para viver e principalmente para diluição do alimento (papa para as larvas) e condicionamento do arUma colônia de abelhas com população normal, na ausência de entrada de néctar, segundo alguns autores, necessitam aproximadamente de um galão ( 5 litros) de água por semana.

ALIMENTAÇÃO ARTIFICIALQuando o período de floração não é dos melhores e a meteorologia adversa às atividades das abelhas, pode faltar alimento nas colmeias, culminando com a morte das abelhas devido a fome. Nestas ocasiões, quando necessário, deve-se socorrer as abelhas fornecendo uma boa alimentação artificial que pode ser de subsistência ou para aumentar a postura da rainha a alimentação estimulante ou em caso de doenças o alimento remédio

ALIMENTO DE SUBSISTÊNCIA
O alimento de subsistência que destina-se a matar a fome das abelhas pode ser: obtando-se pela FÓRMULA 1 OU FÓRMULA 2

FÓRMULA 01 FÓRMULA 02
6 Kg Açúcar refinado 6 Kg Açúcar refinado
3 Kg Açúcar invertido 3 Kg Açúcar invertido
1 Kg Farinha Láctea 1 Kg Terneron

A fórmula nº 2 só é diferente da nº 1 porque no lugar da farinha láctea entra o substituto de nome comercial TERNERON que é leite em pó com diversos ingredientes, usado para alimentar terneiros.A vantagem da fórmula nº 2 em relação a 1 é o baixo custo, representa 50% do preço da 1 . Considerando o preço do mel,no varejo, R$ 5,00, a fórmula 1 representa um custo de 24% e a fórmula 2, 12% do quilo de mel para cada quilo de alimento.

ALIMENTO ESTIMULANTE
O alimento estimulante tem por finalidade estimular a postura de ovos da rainha e deve ser fornecido 30 a 40 dias antes da florada, sendo sempre oferecido em alimentador de cobertura.O alimento que apresenta maior estimulo e consumo devido a sua alta palatabilidade é o açúcar invertido.

AÇÚCAR INVERTIDO

PREPARAÇÃO: Coloca-se numa panela 5 kg de açúcar cristal misturado com 1,7 litros de água e leva-se ao fogo, quando começar a liberar vapor, adiciona-se 5 gramas de ácido tartárico e deixa-se em fogo baixo por 40 a 50 minutos. Após deixar esfriar e condiciona-se em embalagens PET de 2 litros.

O ácido tartárico em meio quente, transforma a sacarose em glicose e frutose. Ocorre a mesma reação que as abelhas fazem com a saliva (enzima invertase).No período de 30 dias,em dias alternados, coloca-se 1 litro de açúcar invertido no alimentador de cobertura, deve-se observar no ninho da colmeia se não está ocorrendo bloqueio de postura da rainha devido a falta de favos que estão tomados de xarope. Desta maneira ou coloca-se um segundo ninho e mais melgueiras ou suspende-se a alimentação estimulante.

ALIMENTO REMÉDIO
Trata-se de um alimento de subsistência, no qual é adicionado o medicamento a ser dado para as abelhas em tratamento contra qualquer doença.  CANDIÉ o alimento que se coloca nas gaiolas de transporte de rainhas, serve para alimentar as abelhas operárias que acompanham a mesma. O candi é preparado com açúcar glacê(açúcar para cobertura de bolo) e algumas gotas de mel líquido, deve ser bem amassado para que não fique grudento.

CUIDADOS NA ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL1º – Não permita que abelhas de outras colmeias tenham acesso à comida.

2º – Não espalhe alimento pelo chão ou perto das abelhas.

3º – Coloque o alimento e alimentadores ao entardecer, assim reduzirá a possibilidade de pilhagem porque as abelhas apresentam menos atividade.

4º – Não deixe escorrer conteudo dos alimentadores, usando sempre o necessário.

5º – Mantenha o alvado das colmeias reduzido o mínimo possível e feche as frestas das colmeias.

6º – Para uma alimentação econômica não use alimentador coletivo.

7º – Nos períodos chuvosos, o alimento nos alimentadores individuais, deve ser substituido por alimento novo, dentro de 15 a 20 dias, assim evitará o mofo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .HAKIM,H., Aliment Medicament,Faculté de Medicine Bordeaux, France, l994, 37 p.

IBRAHIM,L,P.,Effect of feeding on pollen collection of honeybee colonies Bull. Soc. Ent. Egypte, LVIII, p. 227 – 239, l973.

LENGLER,S.,ROCHA., I. C. , Efecto de la Alimentacion Proteica em la Alimentacion de Socorro de las Abejas Africanas. In……….. XXXII Congresso Internacional de Apicultura, Rio de Janeiro.1989, p. 210.

LENGLER,S., LENGLER,C.B., NEUMAIER,R., CASTAGNINO,G.L. , Efei-

to Residual da Alimentação Suplementar no Desenvolvimento de Colmeias de Abelhas Africanizadas no Outono. In… XI Simpósio Estadual de Apicultura do Paraná. Pato Branco, p. 178 – 179, 1996.

LENGLER,S., Criação Racional de Abelhas. Apostila. 1998, 106 p.

ROSSI,C. Alimentacion de Abejas Espácio Apícola, n 22 Argentina,p.8-12.

SBAZO,I.T., Effect of colonie size ambient teperature on comb building ang sugar consumption by honeybees. Journal of Apicultural Research. v.16,nº4,p.174-183,1977.

SILVA,C.H.M.,Novos Fatores Contribuindo para a Longevidade Humana Araranguá,SC, 1994, 120 p.

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Fonte: http://www.apacame.org.br/mensagemdoce/50/tecno.htm