Desperdício de Produção

Alimentos no lixo: marca do desperdício

A imagem veiculada na televisão, no início do ano, despertou indignação pública. Dezenas de caminhões enfileirados tombavam suas caçambas repletas de batatas de boa qualidade no aterro sanitário de Guarapuava (PR). A cena foi estampada em jornais e revistas e, conseqüentemente, virou assunto nos corredores de mercados, portões de residências e filas de agências bancárias. “Um absurdo!” era a frase mais ouvida. De fato, apenas nesse episódio do Paraná foram mais de 600 toneladas de batata jogadas fora.

A triste cena, infelizmente, não foi um caso isolado. É prática comum descartar excedentes de produtos agrícolas. Um exemplo paradigmático ocorreu já em 1929, quando, devido à crise econômica que sucedeu à quebra da Bolsa de Valores de Nova York, o presidente brasileiro Getúlio Vargas ordenou a queima de 78 milhões de sacas de café – na época o principal produto de exportação do país –, na tentativa de barrar a queda dos preços.

Foi o que voltou a acontecer agora. De acordo com a Associação Brasileira da Batata (Abba) a supersafra derrubou os preços e gerou perdas aos produtores do Paraná, de Minas Gerais e de São Paulo. Seria inviável comercializar o produto e arcar com os custos de armazenamento e distribuição. E é aí que começa o drama maior.

Somente na região de Guarapuava, cerca de 800 famílias moram em favelas. Dados do Observatório Regional Base de Indicadores de Sustentabilidade (Orbis) demonstram que 44% dos vizinhos do aterro municipal vivem abaixo da linha de pobreza, ou seja, com uma renda de até meio salário mínimo. Por isso, pensar nas batatas jogadas no lixão municipal torna a cena ainda mais cruel.

Problema econômico

Além de ser um grave problema social, no entanto, o desperdício de alimentos no Brasil é também um atentado à economia nacional. Na “terra em que em se plantando tudo dá”, cerca de 30% da produção anual acaba virando fumaça. A estimativa é apontada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês), que monitora a produção alimentar pelo mundo. “O Brasil apresenta altíssimos níveis de perda e desperdício de alimentos, tanto ao longo das cadeias produtivas e de distribuição, incluindo o varejo, como em termos de preparo e armazenamento em domicílio, restaurantes, cozinhas industriais e instituições, entre outros”, afirmou Flávio Valente, médico especialista em segurança alimentar e ex-relator da FAO, na publicação Mesa Brasil Sesc – Banco de Alimentos e Colheita Urbana.

Segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Nilton Pereira da Costa, somente o prejuízo na colheita da soja brasileira já seria um bom motivo para que o país desse maior atenção aos casos de mau aproveitamento de produtos agrícolas. Segundo ele, neste ano, levando-se em conta a área plantada de soja, de 20,6 milhões de hectares, e considerando uma estimativa média de perdas durante a colheita de 2 sacas por hectare – o padrão americano considera razoável, no máximo, a metade disso –, pode-se projetar que ficarão no solo onde se cultiva soja o equivalente a 41 milhões de sacas, ou 2,48 milhões de toneladas de grãos, que apodrecerão sem ser recolhidos. “Para se ter uma idéia do tamanho do absurdo, esse total corresponde a aproximadamente R$ 620 milhões. É algo que precisamos denunciar.”

Vale lembrar que os estudos do pesquisador referem-se apenas ao processo da colheita de soja. Ele enumera diversas razões para o desperdício, mas indica que a má regulagem das colheitadeiras, geralmente alugadas, a falta de treinamento dos operadores, velocidade incorreta e manejo deficiente das lavouras têm contribuído significativamente para a elevação das perdas. “Se considerarmos toda a cadeia produtiva da soja – colheita, transporte, pré-processamento, armazenamento, processamento, comercialização e consumo –, o volume inaproveitado pode chegar, em uma única safra, a 23%”, diz Pereira da Costa.

De acordo com o pesquisador, as perdas decorrentes das diversas etapas dos processos produtivos e de comercialização alcançam o montante de US$ 2,34 bilhões anuais, considerando apenas arroz, feijão, milho, soja, trigo e hortigranjeiros. Estudos da Embrapa mostram também que, do campo à comercialização, as perdas do tomate chegam a 14%, as da cenoura a 12% e as do pimentão a 18%. “Não são apenas os aspectos econômicos diretamente relacionados à produção que importam. É necessário considerar que a oferta de alimentos é direta e proporcionalmente influenciada pelos desperdícios, com impacto sobre os preços e, por conseqüência, na renda do consumidor.”

O pesquisador tem razão, ainda mais diante da triste realidade brasileira, em que a maioria da população destina boa parte de sua renda à compra de alimentos. “Assim, pode-se perceber o efeito perverso que o desperdício representa.”

Dimensionar o total de alimentos jogados fora não é tarefa fácil. Sabe-se, por exemplo, que somente na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) a média de descarte é de 100 toneladas todos os dias. Nas feiras livres, esse número é muito maior. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), cerca de 60% das 100 mil toneladas de lixo recolhidas diariamente no país são compostas de sobras de alimentos.

“Dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] mostram que, de todos os alimentos comprados para abastecer uma casa, de 20% a 30% acabam indo para o lixo”, explica Géssica Elen, consultora do Instituto Akatu, que atua na promoção do consumo consciente. “O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do planeta e um dos países que mais desperdiça. A conseqüência é a queda de receita e o aumento dos preços, já que essas perdas acabam sendo embutidas no valor final para o consumidor”, avalia ela.

Questão de ética

“O desperdício é um problema ético e deveríamos ficar muito irritados com ele”, diz Luiz Affonso Neiva Romano, presidente do Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO) e consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Entrevistado pela revista Problemas Brasileiros há 14 anos, época em que participou de uma campanha de combate ao desperdício, segundo sua avaliação seria necessário um prazo de dez anos para que a população adquirisse nova mentalidade sobre a questão. “Infelizmente, de lá para cá, pouca coisa mudou, embora muitas pessoas tenham se engajado em ações como a reciclagem, por motivos econômicos.”

Como exemplo, ele cita um episódio ocorrido após participar de um programa de televisão em que defendeu um melhor aproveitamento das sobras de alimentos. “Quando retornei a minha casa, que fica num condomínio de classe média no Rio de Janeiro, encontrei restos de refeições jogados na porta de entrada. Parece que quem desperdiça ficou indignado com minha opinião, quando deveria ser o contrário.”

Isso, porém, não fez do consultor um cidadão menos esperançoso. “Acredito num futuro mais promissor. Já conseguimos derrubar um presidente da República e, na época do ‘apagão’, a população aderiu à proposta de economizar energia. Então, creio que uma grande campanha pode gerar uma mobilização positiva.”

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, onde nasceu o primeiro banco de alimentos do mundo, na cidade de Fênix, no Arizona. Lá, por iniciativa do aposentado John van Hengel, que passou a recolher doações e produtos em boas condições destinados ao lixo para entregá-los a quem não teria a possibilidade de comprá-los, nasceu o St. Mary’s Food Bank, na década de 1960. Logo a idéia se popularizou e surgiram outras iniciativas, como a Second Harvest (Segunda Colheita), que promovia o método de colheita urbana, retirando alimentos que seriam descartados e entregando-os imediatamente a instituições que fornecem refeições a pessoas carentes.

Atualmente os americanos contam com uma grande rede de solidariedade. São mais de 200 organizações nas principais cidades, que recolhem todos os anos 820 milhões de quilos, distribuídos para 50 mil instituições, que atendem aproximadamente 23 milhões de pessoas, em sua maioria crianças e idosos.

Bons frutos

No Brasil, a segurança alimentar, tema amplamente discutido hoje, começou a receber atenção quando o sociólogo, médico e político Josué de Castro (1908-1973) relacionou as toneladas de alimentos lançadas no lixo às dezenas de milhares de pessoas que vivem em situação de miserabilidade. Castro, que presidiu a FAO, escreveu Geografia da Fome (1946) e Geopolítica da Fome (1951) e foi pioneiro em denunciar e mapear esse problema no Brasil.

Vinte anos após sua morte, outro sociólogo retomaria a luta contra a fome no país. Em 1993, Herbert de Souza, o Betinho, como ficou conhecido, lançou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que entre outras ações promove a campanha Natal sem Fome.

Durante um evento denominado Vigília Musical contra a Fome, cujo objetivo era juntar produtos para posterior distribuição no Natal, o Serviço Social do Comércio (Sesc) deu início à implantação do sistema de colheita urbana e banco de alimentos no Brasil. A proposta seguia o modelo americano: buscar onde sobra e entregar onde falta.

“Durante a Vigília Musical, arrecadamos cerca de 90 toneladas de alimentos. O Sesc, porém, considerou importante realizar um trabalho permanente – afinal não é apenas nas festas natalinas que as pessoas têm fome”, explicou Danielle Simas, coordenadora do Mesa Brasil do Sesc Carmo, no centro de São Paulo, enquanto visitava uma das 122 instituições assistenciais que são atendidas pela unidade. No país, o serviço está presente em 225 cidades. Somente em 2006, o Mesa Brasil Sesc arrecadou e distribuiu quase 22 milhões de quilos de alimentos e atendeu 978 mil pessoas.

Os programas receberam o apoio do governo federal e motivaram o surgimento de projetos semelhantes nas administrações municipais. Um exemplo é o Banco de Alimentos de Santo André, o “a” do ABC Paulista. Foi na cidade que nasceu o primeiro banco municipal de alimentos, aonde chegam atualmente cerca de 100 toneladas de produtos por mês. “Recebemos hortifrúti, panificados, gêneros não-perecíveis e também perecíveis, como iogurtes, frios e carnes, em pequena quantidade”, explica a supervisora, Ivani Pereira Cervelini.

Há ainda outras iniciativas não-governamentais, como a da ONG Banco de Alimentos, que distribui 40 toneladas de produtos “resgatados” por mês na Grande São Paulo, por meio do sistema de colheita urbana. “O trabalho nasceu da experiência, vivência e observação de que somos responsáveis por tudo o que está à nossa volta”, explica a economista Luciana Chinaglia Quintão, presidente da entidade.

Entraves

Uma das principais dificuldades enfrentadas por quem trabalha com banco de alimentos ou colheita urbana está na legislação. Os empresários brasileiros do ramo alimentício que desejam doar o excedente ou sobras da produção têm de pagar impostos sobre o que é doado e ainda correm o risco de responder a processo civil e criminal, caso um produto prejudique a saúde de quem o consumir.

“Algumas pessoas acham que não devem doar por causa disso, mas, quando se trata de bancos de alimentos ou colheita urbana, há toda uma preocupação técnica. Nossos carros possuem refrigeração, os motoristas são treinados periodicamente e avaliamos tudo antes de destinar ao consumo”, explica a nutricionista Isabel Marçal, da ONG Banco de Alimentos.

Danielle Simas, do Mesa Brasil Sesc, faz coro a Isabel. “Nossa atuação é profissional, pautada pelas normas da vigilância sanitária. Fazemos um monitoramento nas instituições e realizamos um trabalho educativo. Em 13 anos, ninguém passou mal ao consumir alguma doação.”

Quanto à desoneração desses produtos, apesar de algumas medidas tomadas pelo governo federal para melhorar a legislação que trata do assunto, como a isenção de IPI e ICMS para o que é destinado ao programa Fome Zero, um dos principais projetos de lei, o Estatuto do Bom Samaritano (PL nº 4.747/1998) continua na Câmara dos Deputados à espera de votação. “Assim como outras regulamentações importantes – como a da propaganda de alimentos infantis, a da alimentação escolar e a do abastecimento alimentar –, o Estatuto do Bom Samaritano contribuirá, se aprovado, para garantir o acesso a uma alimentação saudável para toda a população”, diz Edmar Gadelha, sociólogo, pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e integrante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Ele afirma que a questão da fome no país, hoje, está mais relacionada à dificuldade de acesso aos alimentos por parte da população. “A produção encontra-se temporariamente resolvida, embora com muitos problemas de sustentabilidade, como degradação dos solos, poluição das fontes de água devido ao uso de agrotóxicos, desertificação, entre outros.” Ou seja, não falta comida no Brasil, reflexo da atual situação na América Latina, onde somente a produção de cereais atingiu, em 2006, 2,88 mil calorias por dia para cada um de seus habitantes, mais do que suficientes para alimentar um adulto, cujo consumo médio diário é de 2,2 mil calorias. A questão é saber como fazer para que a comida deixe de apodrecer nos lixões e chegue até a mesa de 15,6 milhões de brasileiros que, segundo relatórios da FAO, não têm o que comer todos os dias.


O tamanho do estrago

• Estima-se que, excluídas as perdas durante a colheita, o desperdício de alimentos chegue no Brasil a 26,3 milhões de toneladas por ano.

• Desse total, 13 milhões de toneladas são frutas, legumes e verduras, que nem chegam à mesa dos brasileiros.

• De tudo o que os consumidores recebem, 20% são descartados no processo culinário ou devido a maus hábitos alimentares.

• O total de produtos desperdiçados seria suficiente para alimentar 35 milhões de pessoas.

Fonte: http://anaguevarameirise.arteblog.com.br/25852/Alimentos-no-lixo-marca-do-desperdicio/