Pecuária

Agregar valor

A exportação de carne bovina brasileira cresce a passos largos, contribuindo sobremaneira para a manutenção do superávit da balança comercial. Grande parte desse crescimento tem sido atribuído a oferta de carne com qualidade e a preços baixos, fatores esses que tornam a carne brasileira extremamente competitiva no mercado internacional, principalmente quando comparada com a carne produzida por outros países.

Exemplificando a condição supramencionada, observa-se que o preço pago por tonelada de equivalente carcaça, em média, foi próximo a US$ 1.350,00 e US$ 3.500,00, respectivamente, para a carne oriunda do Brasil e da Austrália. Com base nesses valores, significa dizer que o Brasil precisaria vender 2,59 vezes a quantidade de carne vendida pela Austrália para obter o mesmo faturamento.

Reside aí o grande desafio da cadeia produtiva da carne bovina e especialmente, dos pecuaristas, que necessitam agregar valor ao seu produto de venda, ou seja, identificar nichos de mercado, que possibilitem melhores remunerações. Ações nesse sentido podem e devem ser tanto de cunho individual como coletivo, podendo ir desde o desenvolvimento de uma marca particular, até uma marca nacional, como vem sendo realizado com o Brazilian Beef. Um exemplo bem sucedido nessa área é o café da Colômbia. Lembrando que nesses casos a ação foi uma estratégia de marketing e que essa não é a única possibilidade.

A imprensa, de maneira geral, vem dando importância a necessidade de agregar valor, quer seja aumentando o acesso a novos mercados, bem como, conseguir vender para clientes mais exigentes (mercado europeu e asiático).

Essas são ações, em geral, focadas da porteira para fora, contudo, o pecuarista pode obter resultado semelhante trabalhando com foco na propriedade. Isso porque existe um diferencial considerável no valor pago por animal em função da categoria do rebanho, sexo, e finalidade de uso.

Apresentaremos a seguir como exemplo uma fazenda de pecuária de corte que realiza o ciclo completo, localizada no estado de São Paulo. A propriedade possui aproximadamente 6 mil animais no rebanho. Os valores de venda considerados foram extraídos do boletim Boi & Companhia (578), da Scot Consultoria.

Na Figura 1 (veja no final do texto como visualizar o artigo em PDF) é apresentada a participação porcentual dos animais vendidos, acima em cabeças de animais e abaixo em receita (R$) obtida com a venda.

Quando o tamanho (%) da parte referente ao número de cabeças se reduz ao ser analisada a receita obtida com a venda, significa que essa categoria não apresenta valor agregado, ou seja, quanto maior for sua participação no rebanho e mantendo-se inalterada essa relação de preço, menor será a sua significância na composição financeira da fazenda. Em outras palavras é uma categoria deficitária.

No exemplo acima as categorias que se enquadram nessa condição são os animais desmamados, independentemente de serem fêmeas ou machos. A magnitude em que as bezerras são afetadas é superior a dos machos. Enquanto as bezerras representam em cabeças 42,99% do rebanho, em receita esse número é de apenas 26,61%. Os bezerros desmamados representam 40,89% e 33,75% em cabeças e receita, respectivamente.

Com base na relação entre a receita obtida com a venda dividida pelo número de cabeças, ambos em porcentagem, elaboramos a Figura 2. Nela a linha azul significa o limite entre a categoria ser ou não deficitária. Os valores maiores que 1 representam as categorias mais rentáveis presentes na fazenda, para aquelas condições de mercado específicas e as vezes momentâneas.

Uma análise geral desses números mostra que os animais mais pesados foram as categorias mais rentáveis, para essa condição de mercado. Isso é fácil de entendermos partindo da máxima, em pecuária de corte, de que o boi vale o quanto pesa.

Contudo, merece destacar que quando comparamos categorias de mesmo peso, por exemplo, bois gordos e tourinhos, essa máxima deixa de valer. Isso porque no caso da venda de tourinhos ocorre efetivamente agregação de valor. Essa por sua vez é confirmada até pela forma de comercialização de touros, vigente no mercado, que normalmente é dada em arrobas de boi gordo, geralmente, com valores de 50 a 70 arrobas de boi/touro.

O tourinho, em relação ao boi gordo, que apresenta o mesmo peso, permite obter uma receita aproximadamente três vezes maior. A comercialização de tourinhos é um nicho de mercado, com ações próprias e custos inerentes a elas, aqui somente usamos para conceituar o que significa agregar valor.

Como mencionado anteriormente, o distanciamento do índice 1 para as demais categorias é oriundo apenas do maior peso que elas possuem, observe os que boi gordo tem o índice de 2,93 e o touro de descarte de 3,85.

Para as condições dessa propriedade, e considerando as condições de mercado, vigentes à época, os bezerros e bezerras desmamados não foram capazes de promover lucro para a fazenda. Uma alternativa para reverter esse quadro é a alteração nas proporções das categorias animais que compõem o rebanho da fazenda. Ou seja, reduz-se as categorias deficitárias em favor do crescimento de outras superavitárias.

Associado a essa modificação na composição do rebanho o pecuarista deve buscar outros fatores que permitam obter maior receita pelo seu produto. Lembrando que hoje, salvo raras exceções, não é atribuída nenhuma compensação monetária em função de fatores físicos (qualidade da carcaça, qualidade do couro, idade, etc.)

A agregação de valor na pecuária passa necessariamente pelo fortalecimento da organização dos produtores, de modo que possam reivindicar e, mais importante que isso, serem ouvidos, quanto a melhor remuneração pelo seu produto.

O assunto de ordem é agregar valor, veja que isso é possível individualmente em cada propriedade e adotando estratégias específicas e pertinentes ao sistema de produção no qual a propriedade está inserida.

Após essa análise simplista, verifica-se a necessidade de iniciarmos o processo de agregação de valor sobre a moeda da pecuária brasileira, nossa carne, visando a ampliação e reconhecimento do mercado mundial, de modo que possamos atingir a posição de país com maior valor recebido pela tonelada de carne, além de continuar validando o título de maior exportador.

Para tanto, devemos fazer uso de todas as ferramentas disponíveis, dentre as quais destacamos: padronização dos processos produtivos, investimento em marketing, padronização de carcaças conforme o mercado comprador, quantidade e fluxo de venda ao longo do ano, certificação das propriedades (EurepGAP) e organização dos produtores, visando aumentar o poder de barganha e a representação internacional da cadeia da carne bovina.

Djalma de Freitas, Rogério Marchiori Coan e Eduardo Dolo Contato
PlanGesPec – Consultores Associados

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=147