Trigo

Adubação verde, a chave para sistemas de produção eficientes

Diferentes espécies de plantas de cobertura podem ser cultivadas individualmente ou em associação com inúmeros os seus benefícios. Segundo Ademir Calegari, do IAPAR, Londrina, PR, as plantas de cobertura promovem a formação de massa vegetal para a proteção do solo contra o processo de erosão, favorecem a manutenção da umidade no solo (diminuição das perdas de água por evaporação), diminuem a oscilação térmica na camada superficial do solo, aumentam a infiltração de água, promovem melhor estruturação do solo o que favorece o crescimento das raízes dos cultivos, reciclam nutrientes, adicionam nitrogênio ao sistema reduzindo a demanda externa de fertilizantes, diminuem os custos de controle de invasoras e ao longo dos anos resultam no aumento dos teores de matéria orgânica, que irão proporcionar significativas melhorias nas características químicas, físicas e biológicas do solo.

Embora tantas vantagens do uso de adubação verde possam ser destacadas, esta prática não está disseminada entre os agricultores. Contudo, muitos fazem uso dessa alternativa em Sistemas de Produção sob Plantio Direto, como é o caso dos agricultores Marcos Friedrich, de Ajuricaba (RS), Juliano Manfroi do município de Mato Castelhano, no Planalto Gaúcho, de Guilherme Lamb, de Maracaí (SP) e do pesquisador Lucién Seguy, na região dos Cerrados.

É necessário pagar o preço do aprendizado

O agricultor Marcos Roberto Friedrich, planta no Município de Ajuricaba, Região Noroeste do Rio Grande do Sul. Área de topografia levemente ondulada, teor de argila acima de 60% e altitude entre 350 e 425 metros. O plantio direto com rotação de culturas foi implementado em1989 e segundo o agricultor de 25% a 40% da área recebe milho todos os anos.

“Estamos ajustando nosso sistema de rotação de culturas para uma meta de 50% milho, 50% soja no verão e 50% trigo para produção de sementes no inverno. Por isso, nossa principal fonte de palhada acaba sendo a cultura do milho”. Segundo ele, o trigo ganhou espaço na propriedade por várias razões, entre as quais destaca: entrega da produção como semente (mercado garantido), maior valor agregado, apesar dos riscos climáticos e maior facilidade para a logística da produção (colhe e entrega). “Outras culturas de inverno como aveia, triticale, centeio, têm mercado muito restrito e os custos de produção são relativamente altos em função do controle de pragas e doenças. Adotamos um sistema já validado por outros agricultores, onde se busca o máximo de rendimento das culturas, e que elas, além de palha, ofereçam retorno econômico viabilizando a atividade”.

Para Marcos Friedrich, o melhor período para se fazer adubação verde é o inverno com culturas que antecedem o milho, ou no inicio do outono, utilizando espécies como o nabo forrageiro, sucedendo o milho do cedo e antecedendo ao trigo.

As principais espécies para adubação verde no sistema de produção na região e na propriedade de Friedrich são o nabo forrageiro, as aveias preta e branca, o centeio e a ervilhaca, entre outras.

“A semeadura e implantação das espécies destinadas à adubação verde é feita na maioria das vezes com a semeadora de inverno e sem o uso de fertilizantes. Nos últimos anos temos feito consórcio de espécies. Por exemplo: centeio + ervilhaca; aveia + nabo + ervilhaca ou aveia + nabo, conseguindo agregar as vantagens das culturas usadas como AV. Em função da ocorrência de pragas que exigem controle químico, em algumas situações os adubos verdes são usados somente como antecessores do milho, e no restante da área culturas comerciais no inverno como o trigo”.

Para o agricultor o aumento de produtividade, a estrutura e qualidade do solo, entre outros benefícios, são conseqüência de um esquema de rotação de culturas bem feito que, segundo ele, pode existir na propriedade mesmo que não haja área significativa de adubação verde. “Diria que a maior vantagem da AV é o controle ou redução das plantas invasoras como azevém e buva e a retenção de umidade no solo, que pode, inclusive, causar alguns transtornos no momento do plantio. Além disso, com o nabo antecedendo ao trigo, conseguimos substituir ou reduzir o uso de adubação nitrogenada”.

Quanto às dificuldades ou limitações para o uso de adubação verde Marcos Friedrich cita que a maior delas é a tradicional resistência ao novo, que faz parte da “essência” de grande parte dos agricultores. “Para aqueles que desejam começar a usar adubação verde, duas sugestões: conversar com quem faz é, certamente, um bom começo. Mas acima de tudo desejar, realmente, aperfeiçoar métodos de trabalho, se dispondo a pagar o preço do aprendizado, pois alguns erros fazem parte de qualquer processo que esteja sendo desenvolvido ou adotado”, finaliza.

Estabilidade na produção

O engenheiro-agrônomo e produtor rural Juliano Manfroi, de Mato Castelhano, RS, conduz com o pai, Leonildo Manfroi, a propriedade da família com excelente entrosamento. Eles consideram a rotação de culturas e a adubação verde essenciais para a estabilidade de renda e o aumento sucessivo de produção.

Adotam três manejos diferentes, de acordo com os preços de produtos e oportunidades de negócios. No passado praticavam o pousio, apenas com o crescimento de vegetação espontânea e natural. Depois passaram a cultivar pastagens após a colheita das culturas de verão para a terminação de gado. Atualmente combinam o cultivo de culturas para adubação verde no outono, com aplicação de fertilizantes, para maior produção de biomassa. Em alguns anos colocam gado na área para terminação, de acordo com as oportunidades de mercado.

Na safra 2009 Manfroi pretende fazer a semeadura de nabo-forrageiro ou de canola para adubação verde, 30 dias antes da colheita da soja.  Segundo ele, a semeadura será feita com o distribuidor de uréia, que passará pelo mesmo rastro de trator deixado na aplicação de fungicidas. Portanto, com pouco amassamento da soja.

A semente do nabo cairá no solo, onde terá a umidade e cobertura com as folhas da maturação da soja, necessária para a germinação.  Na colheita da soja o nabo já estará germinado e crescerá rapidamente, desenvolvendo biomassa. Para Manfroi os principais benefícios desse manejo são:

a) Adubação verde, com até 50 toneladas de massa verde por hectare.
b) Controle de plantas daninhas, por competição e sombra.
c) Controle de corós e grilos pelo ambiente favorável à fungos e outros inimigos naturais que matam as pragas
d) Aceleração da decomposição da palha de culturas anteriores, especialmente de milho, com isso, a biosupressividade (competição entre microrganismos) e o controle de doenças de solo.
e) Não necessitar nitrogênio em trigo, pela quantidade disponível na rápida decomposição da biomassa do nabo.
f) A antecipação da semeadura do nabo, na fase de maturação da soja, dará quase 3 meses de crescimento vegetativo e intensa produção de biomassa.

Juliano e Leonildo Manfroi consideram a adubação verde e a rotação de culturas necessárias para a viabilidade econômica e sustentação de rendimentos elevados nas lavouras de milho e soja.

Ferramenta importante

O administrador de empresas Guilherme Frederico Lamb é produtor rural e diretor da Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema (APDVP) no Estado de São Paulo. Possui duas propriedades, a Fazenda Estiva, com 250 hectares, localizada no limite do município de Maracaí, SP, próximo à divisa com o Paraná e a 70 km de Londrina, onde a altitude varia de 300 a 420 metros com predominância de latossolo roxo. E a Fazenda Cachoeira Branca, que possui 180 hectares e está situada no município de Lutécia, SP, próximo a Assis, com altitude de 530 a 580 metros. Ambas as propriedades são mecanizadas, informatizadas, com adoção do Sistema de Plantio Direto há 10 anos e agricultura de precisão há 4 anos.

Segundo Guilherme, devido à altitude e zona climática, a decomposição da palha acontece de forma mais rápida, pois às propriedades Estiva e Cachoeira Branca, distantes apenas 56 km uma da outra, encontram-se em zonas de transição entre o clima sub-tropical e tropical.

“A Fazenda Estiva fica no Vale do Paranapanema, nessa região o processo de decomposição de restos vegetais é acelerado. Já na Fazenda Cachoeira Branca, com maior altitude, o processo é um pouco mais lento. Em ambas o padrão de decomposição se repete ao longo das safras devido aos micro-climas estáveis”, explica.

Nas fazendas o planejamento e execução da rotação de culturas acontece respeitando o histórico dos lotes, sempre levando em consideração as análises de solo que são completas, de macro e micronutrientes. Além da análise de solo realizada semestralmente, são feitas análises nematológica de acordo com a necessidade específica de cada lote e a física uma única vez. Dados de compactação do solo são levantados trimestralmente assim como o histórico de produtividade. Em áreas novas, após análises e levantamentos a rotação de culturas é implementada, independente do resultado, sendo norma só plantar em áreas corrigidas e com plena capacidade de produção.

Para Guilherme a melhor época para fazer adubação verde é na segunda safra, a partir de fevereiro. “Também é possível trabalhar na entre safra, de julho a agosto ou até o inicio da safra de verão. Nesse caso é feita uma terceira safra de rotação com moha (Setaria itálica) ou culturas precoces, com plantio de nabo forrageiro na segunda safra e logo após a moha”.

Ele utiliza para adubação verde nas fazendas Estiva e Cachoeira Branca um coquetel multi-culturas de aveia branca + nabo forrageiro + cevada. “Ainda fizemos uso de mais dois tipos de combinação de espécies, onde são semeados Setaria itálica + milho consorciado com Brachiarias ou mucuna + sorgo + milheto, variando com a necessidade de cada lote e período operacional de semeadura”, explica. A semeadura dessas espécies é direta, com uso da semeadora de grãos finos e espaçamento de 17 cm entre fileiras.

Lamb destaca como benefícios da adubação verde em suas propriedades a maior resistência ao estresse hídrico, considerável aumento de produtividade na safra principal (ou safra de verão), melhor estruturação física do solo, redução nos custos com fertilizantes devido à ciclagem e reciclagem de nutrientes, estímulo à atividade biológica e descompactação do solo.

Para ele as dificuldades ou limitações para efetiva adoção da adubação verde nas lavouras é o contexto econômico e de mercado. “Para a agroempresa que tem planejamento e gestão eficiente à adubação verde é uma ferramenta importante no item custos e uma poderosa arma contra as sazonalidades mercadológicas. O motivo da não adoção da adubação verde está ligado a fatores externos à propriedade, “da porteira para fora”. Por exemplo, a necessidade de se cultivar 100% da área com culturas puramente comerciais para que o agricultor tenha capital de giro. Isso infelizmente acaba sendo um “tiro no pé”, algo improdutivo se analisado do ponto de vista técnico. Mas é um problema endêmico no país, não só relativo à safrinha, mas que afeta toda a produção.

O agricultor já descapitalizado enfrenta carga tributária absurda, infra-estrutura deficitária e insegurança, que forçam o cultivo de segunda safra com milho e trigo, pois a rentabilidade da atividade é baixa para a grande maioria dos agricultores e a há grande necessidade de investimentos quanto a atividade é tecnificada. Cito como exemplo a aquisição de um simples aparelho GPS agrícola. No Paraguai ele custa R$ 6 mil, nos Estados Unidos R$ 2,3 mil, mas para adquirir o mesmo modelo no Brasil o agricultor desembolsa R$ 16 mil. É assim também com diesel, fertilizantes, máquinas e outros insumos inflacionados pelos impostos”, conclui.

Palha para o cerrado

Lucién Seguy, pesquisador do CIRAD, que atua no Cerrado define a região como de grande variabilidade de solos e clima, com uma longa estação chuvosa que vai de outubro ao inicio de abril. De acordo com Seguy, na região a soja é a principal cultura e na zona tropical úmida, onde se registram índices pluviométricos de 1600 à 2200 mm, um dos sistemas produtivos mais utilizados é a sucessão anual de soja de ciclo curto e médio + milho. Nas demais áreas são cultivadas variedades de soja de ciclos médios e longos. O milheto, é a espécie mais comum para a cobertura do solo, é semeado precedendo ou sucedendo a soja no seguinte esquema:

a) Nas primeiras chuvas úteis da estação chuvosa para implantação em sucessão de soja de plantio tardio (final de novembro e inicio de dezembro): milheto + soja

b) No final de estação chuvosa após o plantio de soja de ciclo médio a longo ou no início da estação chuvosa: soja + milheto

“O algodão de alta tecnologia entra na rotação com os sistemas à base de soja, alternados a cada ano, como por exemplo: soja + milho um ano, algodão na palha de milho no ano seguinte ou milheto + algodão um ano, soja ciclo curto a médio de plantio precoce + milho ou soja de ciclo mais longo + milheto no ano seguinte. Em resumo, nesses sistemas as palhas de milheto e milho dominam, mas existe grande diferença entre a sucessão soja + milho, onde se faz o verdadeiro plantio direto e as sucessões milhetos + soja, onde o milheto é implantado com o uso de grades (sistema chamado de semi-direto e onde o solo é trabalhado)”, destaca Seguy.

De acordo com o pesquisador, alguns sistemas de maior eficiência em plantio direto, utilizados nas fazendas tecnificadas, contemplam soja + milho consorciado com Brachiaria ruziziensis, que possibilita duas colheitas + produção de carne na estação seca ou algodão em plantio direto no ano seguinte. Outro sistema usa o sorgo (branco, sem taninos, alto teor de proteínas para alimentação humana) ao invés do milho nos mesmos sistemas. “A diferença é que na sucessão anual de sorgo consorciado com Brachiaria o risco econômico é muito menor que com o milho (em torno de 100 a 120 US$/ha). São estes dois sistemas que integram produção de grãos e pecuária no cerrado”.

De acordo com Seguy, o melhor momento para se fazer adubação verde na região é no início ou no final da estação chuvosa, utilizando espécies adaptadas à pluviometria irregular como milheto ou sorgo. “As espécies viáveis para adubação verde nos sistemas de produção na região dos cerrados são o milheto, o sorgo, a brachiaria, as crotalarias (Spectabilis, para reduzir a pressão de nematóides da soja e algodão, Juncea e Retusa), os guandus, o capim pé-de-galinha e o girassol. Mais recentemente caupis rasteiros, gergelim, trigo mourisco e o Amaranthus alimentares, que está em fase de desenvolvimento”.

O pesquisador explica que a semeadura dos adubos verdes e misturas consorciados com milho ou sorgo em sucessão com a soja, necessita da terceira caixa para sementes miúdas na plantadeira. Se não houver a terceira caixa, o agricultor pode ainda misturar as sementes com um pouco de adubo na hora do plantio diretamente na caixa do adubo. As sementes de milho, sorgo ou girassol consorciados (culturas comerciais) serão colocadas em cada carrinho da plantadeira.

Já em sobressemeadura com a soja, todos os adubos verdes puros ou em mistura de espécies podem ser jogados a lanço em momentos precisos do ciclo da soja em consórcio com uma cultura comercial como o sorgo. “Esta tecnologia é muito eficiente e muito fácil permitindo melhor ajuste na disponibilidade de água, limita a pressão de invasoras, mas é uma tecnologia, infelizmente, ainda pouco utilizada”.

Como benefícios da adubação verde Seguy destaca o controle de plantas invasoras com Brachiaria. A Crotalaria spectabilis e alguns guandus são eficientes para controle de nematóides em via de crescimento (gêneros Meloidogyne, Pratylenchus, Rotylenchulus). “Em todos os casos, os adubos verdes são bons redutores do processo de erosão e ajudam a controlar as invasoras no início do ciclo das culturas comercias”. Com milhetos, sorgos, capim pé-de-galinha é possível produzir entre 6 e 12 t/ha de matéria seca dependendo da cultivar e data de plantio. Com milho e sorgo consorciados com Brachiaria ruziziensis entre 15 e 20 toneladas de matéria seca/ha. Milho e sorgo consorciado com pé de galinha + Crotalaria spectabilis 12 e 18 toneladas de matéria seca por hectare.

“Na minha opinião a limitação para implantação da adubação verde é o perfil de agricultor “rotineiro”, aquele que gosta e usa somente tecnologias do passado e que domina há tempos. Para ele qualquer inovação tecnológica, que necessita um pouco mais de trabalho e planejamento, torna-se obstáculo. Isso dificulta a difusão destas tecnologias para plantio direto, pois apesar de serem muito mais vantajosas, tanto para a produção quanto para o meio ambiente, são deixadas de lado pelo agricultor”.

É necessário apresentar para os produtores, os benefícios ecossistêmicos oferecidos de forma gratuita pela adubação verde, como a produtividade maior e estável, os custos de produção mais baixos, impactos nulos sobre o meio ambiente, embora este último ponto ainda seja considerado um luxo.

É importante entregar para o produtor tecnologias inovadoras completas. Ou seja, se ele é convencido de que os adubos verdes são vantajosos, a compra das sementes deve ocorrer com a mesma facilidade com que ele adquire outros insumos, com recomendações de uso e preço acessível. É preciso organizar de modo mais eficiente à comercialização dos adubos verdes de forma a facilitar sua adoção.

O plantio direto não deve ser usado como prática isolada de semeadura, mas como parte de sistemas de produção que incluem a necessidade de rotação de culturas e o foco na produção de palha na superfície e material orgânico no perfil do solo. A adubação verde não pode ser avaliada como um luxo de agricultores de pleno êxito, mas como estratégia de controle de pragas, doenças e plantas daninhas, de descompactação de solos e de equilíbrio nas atividades químicas, físicas e biológicas. Todos os especialistas em solos e em sistemas de produção sustentáveis destacam a necessidade de aumentar a produção de palha. João Carlos Moraes Sá destaca que construir e manejar a fertilidade é construir matéria orgânica no solo.

Fonte: http://www.plantiodireto.com.br/?body=cont_int&id=908