Manejo

Adeus à leprose

A leprose dos citros é capaz de causar perda de 100% na produção se não houver o devido controle.

A leprose dos citros, causada pelo vírus da leprose dos citros (Citrus leprosis virus – Rhabdoviridae) e transmitida pelo ácaro Brevipalpus phoenicis, é considerada atualmente a principal doença causada por vírus da citricultura brasileira pelos freqüentes prejuízos que causa nos pomares, elevando substancialmente os custos de produção de frutos cítricos. Dependendo da severidade de ataque pode causar redução de 30 a 100% na produção do ano (reduzir 30 a 100% a produção do ano), pela depreciação de frutos para mercado e queda prematura dos frutos e folhas, e dos próximos anos, pela seca de ramos e diminuição da vida útil da planta. Em decorrência destes danos, há um aumento dos custos de produção com o controle da doença e do vetor, recuperação de árvores debilitadas e renovação prematura do pomar. Estimam-se gastos anuais somente com acaricidas para controle de ácaros na citricultura da ordem de 60 milhões de dólares, o que representa em torno de 35% dos custos com insumos e ao redor de 15% do custo total de um pomar em produção. Entretanto, estes custos podem ser maiores se forem considerados os custos das operações de aplicação de acaricidas e de poda. (nos 15% não estão inseridos os custos de aplicação de acaricidas?)

A doença é severa e encontra-se disseminada em ou por (?) quase toda América do Sul, incluindo países como Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela, e, mais recentemente, foi introduzida na América Central (Panamá e Costa Rica), preocupando a citricultura norte americana, que estima sérios prejuízos caso o vírus alcance os pomares dos Estados da Califórnia e da Flórida nos quais o ácaro vetor já está presente (não é melhor mencionar que é espécie diferente!). No Brasil, foi constatada inicialmente em 1933 em pomares do Estado de São Paulo e também já foi relatada nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Piauí, Pará, Rondônia e Distrito Federal. Nos pomares do Estado de São Paulo, maior produtor mundial de laranja e suco concentrado, a doença se encontra amplamente disseminada por toda área citrícola do planalto paulista, sendo mais severa no norte e noroeste do Estado, onde o clima mais quente e com o período de outono-inverno apresentando períodos de estiagem prolongados favorece o aumento populacional do ácaro da leprose e dificulta seu controle.

A importância desta doença é ainda maior, por que mais de 90% das copas plantadas no Estado de São Paulo são de laranjeiras doces (Citrus sinensis) das variedades ‘Pera’, ‘Natal’ e ‘Valência’ altamente suscetíveis à leprose. Além das laranjas doces, a doença também se manifesta com menor severidade em variedades de laranja Azeda (C. aurantium), limões verdadeiros (C. limon), limas ácidas (C. aurantifolia), limas doces (C. limettioides), tangerinas (C. reticulata), cidras (C. medica) e pomelos (C. paradisi). A tangerina ‘Murcote’ e os tangelos (C. reticulata x C. paradisi) têm se mostrado bastante resistente à doença.

Os sintomas da doença aparecem após 17 a 60 dias da transmissão do vírus pelo ácaro da leprose nas folhas, frutos e ramos sempre de maneira localizada, isto é, ao redor dos locais de alimentação do ácaro vetor. As folhas, geralmente as mais velhas, apresentam inicialmente lesões cloróticas e lisas nas duas faces, que crescem de tamanho e se tornam marrom-avermelhadas, ainda lisas, com ou sem centro necrótico e, algumas vezes, com exsudação de goma formando zonas concêntricas. Em frutos verdes com diâmetro acima de 3 cm, as lesões aparecem como manchas rasas amareladas, que se tornam deprimidas, escuras, com padrão concêntrico e rodeadas por um halo amarelado. Em frutos em estádio mais avançado de amadurecimento, ocorrem manchas escuras e deprimidas rodeadas ou não por um halo esverdeado. Dependendo do número de lesões e da época de aparecimento dos sintomas, ocorre uma intensa desfolha da planta e queda prematura de frutos. Nos ramos, inicialmente aparecem lesões cloróticas lisas que evoluem para lesões marrom-avermelhadas salientes. Com o aumento das lesões, estas se tornam corticosas levando ao escamamento da casca e posterior seca dos ramos afetados tornando-os improdutivos.

Características específicas deste patossistema (vírus da leprose-ácaro Brevipalpus-citros) tornam a população do ácaro da leprose e a presença de plantas fontes de vírus peças chaves para o manejo da doença. Em função da transmissão do vírus se dar apenas pelo vetor; o que torna sua disseminação totalmente dependente da ação do vetor, da relação vírus-vetor ser persistente e propagativa, isto é, após a aquisição do vírus pelo ácaro da leprose, o vetor pode transmitir o vírus por toda sua vida, e de que todos os estádios de desenvolvimento do ácaro da leprose (larva, protoninfa, deutoninfa e adulto) serem capazes de adquirir o vírus e transmití-lo com uma eficiência que varia de 10 a 50%, o controle da leprose dos citros pode ser obtido envitando-se a introdução e disseminação do ácaro da leprose no pomar e desfavorecendo o aumento populacional do ácaro vetor. Medidas preventivas como o plantio de mudas isentas do ácaro da leprose ou do vírus da leprose, a desinfestação de caixas de colheitas, equipamentos e veículos e a implantação de quebra-vento ou cerca viva com espécies não hospedeiras do ácaro (pinus, primavera ou coroa-de-cristo) evitam a introdução e disseminação do ácaro da leprose no pomar. A colheita antecipada e de todos os frutos, a utilização de medidas que favoreçam a população de inimigos naturais do ácaro da leprose (ácaros predadores como Iphiseiodes zuluagai, e Euseius concordis e Agistemus sp.), a eliminação de locais de abrigo e oviposição do ácaro da leprose (ramos secos, frutos com verrugose), o controle de plantas daninhas hospedeiras do ácaro da leprose e o uso de espécies menos favoráveis ao ácaro da leprose como cobertura verde (mentrasto e cambará) são medidas, complementares à aplicação de acaricidas, que desfavorecem o crescimento populacional do ácaro da leprose. Ainda hoje, a principal prática adotada pelos citricultores para o controle do ácaro da leprose e, conseqüentemente, da doença tem sido a pulverização das plantas com acaricidas quando (2 a 10%) 10% de frutos ou ramos amostrados em (1 a 2%) 2% das plantas do talhão apresentarem pelo menos um ácaro da leprose nas inspeções realizadas a cada 10 dias. Entre os principais acaricidas utilizados estão o cyhexatin, óxido de fenbutatin, azocyclotin, hexythiazox, dicofol, bromopropilato, propargite, fenpropathrin, bifenthrin, acrinathrin, fenpyroximate, quinomethionate, dinocap e enxofre. (Os Produtos Grifados Não São Mais Utilizados). Em geral, são feitas de 1 a 2 aplicações por ano de acaricidas específicos após o final do período chuvoso e durante o período de seca quando a população do ácaro começa a crescer. As pulverizações devem ser realizadas com equipamentos turboatomizadores ou com pistola utilizando alto volume de calda para que se molhe bem os ramos e frutos mais internos na copa. A rotação de produtos de diferentes grupos químicos e sítios modos de ação tem sido recomendada para evitar a seleção de populações resistentes do ácaro da leprose aos acaricidas intensivamente usados.

Outras características desta doença, como a não observação da transmissão do vírus entre gerações do ácaro, a aquisição do vírus pelo ácaro vetor apenas após a alimentação em tecido infectado e o caráter local a característica localizado do vírus na planta (partículas restritas às células de tecidos próximas aos sítios de infecção), permitem que a leprose dos citros possa ser controlada, também, pela eliminação das fontes de inóculo do vírus. Esta sanitização do pomar é conseguida com o plantio de mudas livres do vírus, com a retirada de frutos com sintomas, caídos e temporões e com a poda de limpeza eliminando os ramos afetados pela leprose.

A adoção conjunta das medidas de controle da população do ácaro da leprose e da eliminação das fontes de vírus permitem manter os danos causados pela leprose em níveis aceitáveis baixos.

Renato Beozzo Bassanezi, Marcel Bellato Spósito e Pedro Takao Yamamoto
Fundecitrus

* Este artigo foi publicado na edição número 10 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2001.

http://www.grupocultivar.com.br/artigos/artigo.asp?id=382