Reprodutivo

Adaptação de Açudes para a Piscicultura

João Oliveira Chacon1

O açude tem como finalidade principal a acumulação de água. O uso das águas acumuladas é, no entanto, muito diferenciado de açude para açude; assim é que alguns servem basicamente para abastecer cidades e outros centros populacionais; outros para a geração de energia elétrica, perenização de cursos d’água, irrigação de cultura à montante e à jusante, fins industriais, etc.

Para os fins aqui descritos, a construção das represas segue praticamente as mesmas técnicas de engenharia, pois comumente não se conhece açudes construídos para a piscicultura como finalidade principal, sendo pois o peixe subproduto de um açude. É, no entanto, um subproduto de considerável valia economica e social, sendo pois muito importante as adaptações das represas para a piscicultura, tanto sob o ponto de vista da engenharia civil, como sob a ótica da bio-ecologia das águas represadas.

Assim, no Nordeste brasileiro, ao se barrar um curso d’água, faz-se necessária a construção das escadas-de- peixe e eclusas, com o objetivo a não interrupção das piracemas das espécies reofílicas no tempo das enchentes. O desmatamento das bacias hidráulicas tem objetivos comuns de facilitar a navegação e viabilizar o uso intensivo de aparelhos de pesca. A erradicação de piranhas e outras espécies predadoras nas bacias hidrográficas e hidráulicas é também um trabalho indispensável, se há o desejo de se fazer o povoamento da coleção d’água com espécies economicamente viáveis.

1.1 Importância da Pequena e Média Açudagem Para Criação de Peixes

A piscicultura intensiva, sob o ponto de vista empresarial, é muito mais interessante do que a extensiva pratcada a nível de pequenos e médios açudes. No entanto, cabe à produção destes açudes uma fatia muito maior do mercado de peixes em termos de peso e valor de produção . Sabe-se que a produtividade desses reservatórios é realmente muito baixa, em torno de 150 a 200kg/ha/ano, é possível, entrentanto, a adoção de algumas medidas técnicas no sentido de otimizar essa produção e torná-la ainda mais significativa no contexto econômico. Assim, pode-se faze uma seleção mais criteriosa das espécies a serem utilizadas no povoamento, usando para isso peixes prolíficos e melhores produtores de carne; é possível também controlar o esforço da pesca, para que ele seja a penas exploratório, e não espoliatório. Na escolha das espécies para o povoamento, é muito importante o conhecimento da coleção d’água como um nicho ecológico; assim é necessário a utilização de espécies que explorem os diversos níveis da coluna d’água (superfície, fundo, etc) porque em cada um desses locais existem componentes diferentes do fito e zooplâncton que fomrcem também diferemtes tipos de alimento natural. É interessante também que as espécies sejam mutualistas, e não concorrentes, para que haja um equilíbrio ecológico satisfatório.

1 – Pesquisador do DNOCS e Chefe do Servço de Economia Pesqueira do Centro de Pesquisas Ictiológicas “Rodopho von lhering”.

Estes e outros conhecimentos devem ser levados aos proprietários de açudes peios técnicos mais diretamente ligados a eles, no caso os extensionistas agrícolas. Daí a importância deste tipo de treinamento, proporcionado pela FAO, vindo preencner uma lacura há muito tempo sentida por nós, técnicos das instituições de pesquisa. A extensão vem a ser, então o nosso elo de ligação com o produtor, que é, afinal, objetivo maior de todo o esforço da descoberta e da criação da tecnologia esforço este que esta custa muito caro aos bolsos do contribuinte de impostos.

1.2 Finalidade e Usos Multiplos dos Açudes

A acumulação de água em açudes de pequena, média e grande capacidades constituem-se no primeiro passo para minorar os efeitos das secas e decorrente fixação do homem à terra, dando melhores condiçõ de vida.

Muitas são as tinalidades dos açudes: a) abastecimento público (município e adjacências); b) irrigação de terras de montante e jusante; c) recreação (pesca esportiva, lazer e turismo); d) agricultura de vazante; e) navegação; f) piscicultura (especificamente); e g)aproveitamento hidroelétrico.

1.2.1 Abastecimento público (município e adjacências)

A construção das açudes e dos grandes barragens, principalmente dos Rios São Francisco e Parnaíba, que tiveram e continuam tendo seus cursos d’águas seccionados por essas obras, destinou-se principalmente a geração de energia elétrica, irrigação, abastecimento d’água. A piscicaltura, neste contexto, tem tido sempre importância secundária.

Dependendo da capacidade do açude e/ou da barragem, podem abastecer não só a cidade onde estão situados, como também as adjacentes. Nos médios e grandes açudes, a comporta é aberta para o fluxo d’água dar movimentação à turbina; a jusante, cai no canal principal, donde dá a derivação para a irrigação e parte é desviade para uma rede de tubulação, para os tanques de tratamento d’água da Companhia de Água e Esgoto, a qual se encarregrá de distribuir às caixas, d’águas, chafarizes, bebedouros públicos e casas residenciais. Nas barragens, por sua vez, já consta uma derivação para a mesma finalidade.

1.2.2 Irrigação

Tão antiga quanto a própria História é a irrigação das terras. A sua sombra civilizações brilhantes nasceram e floresceram; mas, com a irrigação desapareceram, devido ao mau uso da água a que fora conduzidas pela falta de meios e de conhecimentos (Duque, 1965).

Em função de se tratar de um assunto bastante polêmico, vamos nos ater aos aspectos mais simplistas da irrigação, vista aqui apenas como uma atividade agrícola lucrativa.

Em princípio, por causa dos elevados custos financeiros, tem se procurado instalar projetos de irrigação em áreas nobres em termos de qualidade de solo, como são as terras aluviais do Nordeste brasileiro. Outro aspecto a ser levado em conta, também em função dos outros, é a topografia do local, que é decisiva quando se tem que sistematizar áreas para o uso da irrigação por gravidade. Por outro lado, como são relativamente poucas as culturas nobres que podem ser efetivamente implantadas em nosso meio, pelos mais diversos motivos, é necessário que se tenha o maior critério na escolha das culturas de subsistência, considerando o seu potencial de produtividade, o que poderá torná-las economicamente viáveis.

De maneira sistemática, é muno simples o modelo usado para a distribuição de água aos lotes agrícolas; a comporta da barragem é aberta e água flui pelo canal de adução; dele é feita a distribuição para os canais básicos que conam a bacia de irrgação, säo os canais primários, com vazões que giram em torno de 150 1.s; em seguida a água passa os canais secundários que são as vias de chegada às quadras hidréulicas, compostas por quatro lotes agrícolas. Até aqui, toda a malha de canais é construída concreto e/ou alvenaria. Dos canais secundários, passam então para os tercários ou parcelares, que distribuem a água para cada parcela do lote agrícola. Esses canais são construídos com material argilo-silicoso e revestidos com piçarra.

O excedente da irrgação cai na rede de drenos secundários, passando depois pare os principais, voltando então a correr no leito normal do rio daí em diante.

Naturalmente que exitem algumas variantes, pois em alguns perímetros a irrigação é feita por aspersão; noutros, há necessidade de bombeamento para a elevação e daí em diante a irrigação é feita por gravidade. No entanto, este é o esquema predominante nos perímetros geridos pelo DNOCS.

1.2.3 Recreação (pesca esportiva, lazer e turismo)

As atividades do lazer-acampamentos, esporte aquáticos, pesca esportiva e turismo organizados-não são favorecidas pela represa e/ou açude, apesar da beleza do cenário nas partes livres de vegetação, principalmente por causa das árvores parcialmente submersas, e outras como: a) o receio as espécies predadoras (piranhas e pirambebas: Serrasalmidae) em alguns açudes; b) a ausência de vias de comunicação ligando o local da recreação; a moradia do recreante ou aos locais situados nas margens da represa; c) as dificuldades de navegação; e d) a inexistência de uma infra-estrutura organizada para dar condições ao turismo. Tudo isso explica a pouca importância dada a esta atividade.

1.2.4 Agricultura de vazante

Um açude constitui algo de grande importância, se bem construído, notadamente quando a região é seca e carente de água, como acontece com o Nordeste brasileiro, onde toda a água que se puder acumular acumular ou guardar terá benefícios valiosos na sua utilização. Além de transformar o clima local, tornando-o mais agradável e menos quente, com a sua contribuição de água evaporada nop ar, esse manancial contribuirá, predominantemente, para: a) utilização das terras banhadas pelas águas a montante do açude (flixa molhada), para implantação de vazantes diversificadas, desde o capim para pecuária, até batatas, milho, feijão, hortaliças em geral, etc; e b) pequena ou média irrigação para aproveitamento agrícola das terras de jusante do açude (faiza seca), com utilização d’água, através de técnicas variadas a serem recomendadas para cada caso, quer por gravidade ou aspersão.

A faixa seca de terra é a situada entre a cota de repleção do reservatório e a linha que limita a terra desapropriada ou a ser desapropriada.

O lote de vazante é a parcela de terreno inundável, cuja frente é medida em metros lineares, com extensão em torno de 50 metros pelo limite da água quando esta se encontra na cota da soleira do sagradouro, tendo por profundidade a distância entre a frente citada e o nível decrescente d’água no reservatório ou o eixo do leito seco do rio ou córrego.

O lote seco é a área de terreno que se situa acima das vazantes e que pode estender-se até a cerca de contorno, com o limite de 12 a 30 hectares, podendo ser concedida a uma família.

Na demarcação de lotes secos e de vazantes levar-se-á em conta a topografia e acidentes geográficos existentes, devendo a cada lote seco corresponder a um lote de vazante, contíguo, sempre quo possível. A dimensão do lote seco, variando de 12 a 30 hectares, dependerá, antes de tudo, do tipo de solo e sua vocação, e os limites serão demarcados com piquetes e em cada um afixada uma tabuleta numerada, registando-se em seguida em livro próprio. Igualmente, no lote de vazante, a mesma providência deverá ser tomada.

Os lotes mais indicados para a pecuária, ou de baixa produtividade, deverão ser maiores do que os lotes com bons solos agrícolas; mesmo critério deve vigorar na divisão dos lotes de vazantes, cuja dimensão (frente) deve situar-se em torno de 50 metros, com variação para mais, dependendo das condições locais de demanda e da qualidade e quantidade das terras de vazante disponíveis. Deve-se ter em vistas que o lote seco, com o auxílio da vazante, ofereça condições para manter uma família de cinco a oito dependentes, com padrão em torno do que permite o salário mínimo.

1.2.5 Navegação

A navegação nos pequenos e grandes açudes torna-se perigosa, embora seja praticada em pequena escala pelas primitivas canoas de fundo chato e de caverna, construídas de madeira; são embarcações comuns em todos os açudes do Nordeste brasileiro. Estas servem como meio de transporte do pescador o qual se desioca de sua vazante e vel até o local de trabalho – as pescarias, e é também usada, nos dias de feira para transportar sua pequena produção de alguns cereais, legumes e/ou mesmos pequenos animais.

A embaicação usualmente empregada nos açudes do Nordeste brasileiro é a canoa a remo, como já foi citado acima. É feita da madeira denominada “pau branco”, Auxema oncocalyx Taub., e têm geralmente comprimento que varia de 3,0 e 4,5 metros; os remos são também de madeira e o tamanho variando de 1,5 a 2,0 metros. O valor de tais embarcações depende de suas dimensães e do tipo da madeira empregada na sua contrução, dependendo disso a vida útil gira torno de três a mais anos.

Em outros açudes de maior capacidade como Orós, Banabuiu, Pentecoste, Araras, Lima campos (CE); Açu, Caicó (RN); Curema, Mãe d’água, Piranhas (PB); e Moxotó (PE), existem barcos motorizados que chegam a transportar de 20 a 30 pessoas e suas bagagens, principalmente nos dias de feiras, e durante os outros dias da semana eles fazem a linha diariamente de todo o contorno da bacia hidráulica do açude, uns indo pela margem direita e outros pela esquerda, isto devido a grande população que habita em torno do açude. Este fato é constatado e necessário, em virtude de existir estrada de acesso ao contorno do açude, porém não existe transporte que faça diariamente a conduço de pessoas, a não ser os donos de fazenda que viajam quando de suas necessidades. Portanto, a navegação no açude é indispensável.

No entanto, o seu desenvolvimento está comprometido em virtude do perigo de acidentes, causados por obstáculos e/ou riscos criados pela primitiva floresta e antigas casas de camponeses, as quais não foram erradicadas durante a construção da bacia hidráulica de alguns açudes. As principais causas de acidentes são: a) troncos de madeira ao nível da água que, pela ação de ondas, provocam choques com as embarcações; b) abairoamento com troncos submersos, inclusive aqueles que sofreram quebra de sua parte emergente; e c) colisão com barrancos de areia que afloram a superficie da água, na medida em que esta é perdida através da evaporação e da irrigação.

1.2.6 Piscicultura (especificamente)

A piscicultura, ou seja, a criação de peixe, é um dos ramos da Zootecnia, Fan Li, cm 475 a.C., já dizia que a piscicultura era uma atividade lucrativ (Azevedo, 1972) in Nomura 1976. Entretanto, a fecundação artificial de peixes, a criação de larvas e o aproveitamento comercial do adulto só tiveram início por volta de 1733 (Gomes. 1940) in Nomura, 1976.

Em terras que não são adequadas para a agricultura, devido a alinização, pode-se implantar a criação de peixes; vivendo estes em ambientes líquido e sendo animais de sangue frio, requerem um mínimo de energia para manter sua temperatura corporal.

A criação de peixes pode também converter-se em um elemente principal gerador de ingresso em programas de desenvolvimento rural, complementada pela produção agrícola e animal pode gerar emprego em setores rurais dos países em desenvolvimento, e melhorar a qualidade de vida dos rurícolas.

Devem ser diferenciados três tipos principais de piscicultura, que, entretanto, podem ainda apresentar subdivisões. Os trôs principais tipos são: a) piscicultura extensiva; b) piscicultura intensiva; e c) piscicultura superintensiva.

1.2.6.1 Piscicultura extensiva

Pode ser praticada nas águas fechadas artificiais que não foram construídas diretaments para cultivo de peixes, como os açudes e reservatórios. Em outras palavras, foram construídas para outra finalidade, por exemplo, para armazenar água para irrigação, para bebedouro de animais, energia elétrica, etc. A piscicultura extensiva pode ser praticad nas lagoas naturais (melhor são as pequenas e rasas) e outras áreas inundadas e fechadas como nos grandes lagos. Nesta situação a piscicultura é uma atividade de maior valor sócio-econômico.

Estes tipos de coleções hídricas devem ser povoadas com peixes de cultivo qualitativo e quantitativamente adequado para utilizar as fontes de alimentos naturais, que, sem os peixes, seriam perdidos.

O povoamento das coleções de água utilizadas se faz, inicialmente, a partir das espécies ictícas nativas (autoctones), podendo o homem complementá-lo, posteriormente, introduzindo espécies selecionadas.

No caso da piscicultura extensiva contamos somente com alimentos naturais produzidos na água. Nesta modalidade de piscicultura não se alimenta os peixes regularmente e não se fertiliza a água com fertilizantes orgânicos ou inorgânicos. Os animais que bebem água nestes locais automaticamente deixam cair seus excrementos, que fertilizam a água, favorecendo a produção de peixes.

A produção de peixes nesta modalidade depende principalmente de três fatores: a) capacidde de suporte alimentar da água ou em outras palvras, da produtividade natural da água que depende da quantidade de nutrientes (fosfatos, nitratos e materiais orgânicos) da água e do solo; b) escolha de espécies adequadas, taxa de povoamento e sobrevivencia do povoamento efetuado; e c) bom manejo da piscicultura.

Deva-se ressaltar a importância do povoamento. O ideal seria se a coleção hídrica não tivesse população natural de peixes, pois, assim, poder-se-ia fazer o povoamento com a taxa de estocagem desejada. Caso a coleção de água já tenha uma população natural de pequenos peixes forrageiros (sem valor comercial) pode-se fazer o povoamento com uma espécie de peixe carnívoro mais valioso, para utilizar esta fonte de alimento. No caso de haver muitos peixes carnívoros, o número de alevinos povoados deve ser bem alto para compensar aqueles que serão alimentos dos carnívoros.

1.2.6.2 Piscicultura intensiva

É praticada em viveiros construídos estritamente com o fim de se criar peixes. Piscicultura intensiva é a piscicultura tradicional praticada há centenas de anos na Europa e mais de mil anos na China.

Os viveiros são povoados somente com peixes de cultivo. Todo esforço é feito para impedir a penetração de peixes selvagens indesejáveis (esses peixes selvagens, são carnívoros, competem com os peixes de cultivo por alimentos naturais e consomem valiosos alimentos artificiais). Os peixes selvagens carnívoros colocam em risco a povoação dos peixes de cultivo.

Para aumentar a produtividade da água aplica-se fertilizantes orgânicos (adubos orgânicos) e/ou inorgânicos. Para aumentar diretamente a produção ou o crescimento dos peixes usa-se “alimentos artificiais” (alimentos artificiais são todos os alimentos que não são produzidos nos viveiros) que o piscicultor coloca no viveiro. Estes viveiros são construídos e totalmente drenáveis, uma ou mais vezes anualmente.

1.2.6.3 Piscicultura superintensiva

Esta modalidade de piscicultura foi aplicada quase tão somente para cultivar trutas. Ouando as gaiolas puderam ser fabricadas de materiais não perecíveis e a fabricação dos alimentos artificiais comprimidos tornou-se possível, a piscicultura superintensiva foi expandida para cultivos de outras mais preciosas espécies de peixes, como a enguia, bagre de canal (USA), bagre da Europa, tilápia nilotica, etc.

No caso da piscicultura superintensiva uma só espécies de peixe é cultivada em alta densiduade de povoação (em cada metro cúbico de gaiola ou tanques pequenos se coloca 20–100 peixes).

Aqui se necessita o provimento de oxigênio continuadamente e a remoção dos metabólicos dos peixes, principalmente os amoniacais e os restos de alimentos podres.

No caso da piscicultura superintensiva os peixes são alimentados somente com alimento comprimidos (pellets) ou semelhante, e balanceados com tipos e teores de proteínas, minerais, vitaminas e outros ingredientes indispensáveis para o crescimento dos peixes.

Este tipo de alimento é bastante caro, por isso cultiva-se peixes de alto valor de mercado. Nesta modalidade de piscicultura não se pode contar com os alimentos naturais da água.

São muitas as opções do cultivo superintensivo, que é um novo ramo da piscicultura que já apresenta um alto grau de desenvolvimento, em várias partes do mundo e poderá ser mais uma opção disponível ao piscicultor, para o cultivo de espécies brasileiras de alto valor comercial, como, também, para o cultivo em escala reduzida visando o consumo doméstico.

1.2.7 Aproveitamento hidroelétrico

Abaixo das grandes represas, são construídas as usinas hidroelétricas, que consistem de turbinas, com um potencial de KWA que varia de acordo com a altura da coluna água e o potencial do rio que a mesma barrou.

A represa sempre tem uma finalidade de geração hidroelétrica, principalmente para suprir a instalação industrial e em consequência beneficiará a agricultura, fábricas, hospitais, residencias e outros aproveitamentos de major valia e importância energética para a região.

Junto aos grandes benefícios que a represa trás para grupos de importância sócio-econômica, trás também séria ameação para a manutenção das espécies de peixes no rio que a mesma barrou e também na sua bacia hidráulica, com a construção de indústrias de celulose, produtos químicos, etc. Chamamos atenção também quanto às alterações físicas e ecológicas da bacia hidráulica que poderão ocorrer.

1.3 Aproveitamento de Represas Para Criação de Peixes

Entendemos como recursos pesqueiros todas formas vivas que tenham na água seu normal ou mais frequente meio de vida, juntamente com um definido interesse econômico. Portanto, os recursos pesqueiros se enquadram na categoria dos recursos naturais renováveis (Paiva, 1986).

A maioria das formas vivas (animais e vegetais) aquáticas não apresentam qualquer valor econômico, vista por uma ótica imediatista. Entretanto, elas ocupam importantes posicões em suas respectivas biocenoses, simplesmente porque nada é inútil na natureza, porque tudo é aproveitado nesta ou naquela forma de vida.

Para se ter um bom aproveitamento na criação de peixes de uma determinada represa, tem-se que observar alguns itens muito importantes: a) assoreamento da bacia hidráulica; b) redução da descarga da bacia hidráulica (afluente); c) turbidez elevada da água; d) flutuação rápida e frequente do nível de água; e) elevado índice de carnívoros; f) processo acelerado de eutrofização; g) danificação do fundo pela canalização e/ou dragagem; h) alterações dos parâmetros químicos e físicos da água (O2 dissolvido, CO2 livre, pH, temperatura, etc.).

1.3.1 Assoreamento da bacia hidráulica

A causa do assoreamento da bacia hidráulica éo desmatamento (florestal e vegetação ciliar) às margens dos rios da bacia hidrográfica da represa. Na época das enchentes, os rios desnudos de vegetação sofrem erosão, carreando amontoados de areia e/ou terras para o leito do rio principal, tornando-se muitas vezes, em certos trechos, inavegável, por causa dos bancos de terras. Isto também prejudica a proliferação da fauna e flora da bacia hidráulica da represa.

Não obstante, havendo um certo controle das enchentes pela conservação das florestas e vegetação ciliar, construção de açudes em trechos de rios da bacia hidrográfica, evitar-se-á consequentemente o assoreamento e também as inundações que possivelmente ocorreriam.

1.3.2 Redução da descarga da bacia hidráulica (afluentes)

As primeiras barragens conhecidas datam da mais remota antiguidade. Criadas para reter as águas correntes e permitir assim recuperar para as culturas e população as regiões estéreis, permitiram o desenvolvimento da civilização.

O controle da descarga da bacia hidráulica de uma represa, depende da construção de açudes, barragens e diques em leitos de rios da bacia hidrográfica para controlar o fluxo d’água que se dirige para o rio principal o qual abastece a bacia hidráulica da represa.

1.3.3 Turbidez elevada da água

A energia da vida aquática provém do sol; por isso, é necessário que a luz penetre na água em boas condições. Esta penetração depende, entre outros fatores, do estado de turvação da água e é tanto mais difícil quanto mais poluida se encontrar.

A turbidez das águas é a redução da transparência, devido à presença de substâncias em solução ou em suspensão. A turbidez pode alterar o ambiente aquático de várias maneiras, tais como, pela redução da luminosidade, pelo aumento da temperatura (partículas em suspensão absorvem o calor mais rapidamente que a água) e pela sedimentação.

Se a diminuição da transparência é devida a abundância de plâncton, a água é muito rica e a sua produtividade tende para o máximo.

No entanto, as matérias orgânicas em suspensão podem igualmente aumentar a turvação e, neste caso, não só a luz penetra dificilmente na água como, ainda, as partículas em flutuação podem acumular-se nas guelras ou brânquias causando, por asfixia, a morte dos peixes.

Um instrumento simples e de fácil manuseio, destinado a medir a transparência de uma água, éo chamado “Disco de Secchi”. Trata-se de um disco metálico, com aproximadamente 30 cm de diâmetro, pintado com faixas pretas e brancas, para mais facilitar sua visualização, no centro do qual se fixa uma corda; com o auxilio desta corda vai-se imergindo o disco na água e mede-se a porção de corda que foi submersa. Esta porção corresponde à profunidade de visibilidade d’água.

1.3.4 Flutuação rápida e frequente do nível da água

Represas são ambientes lênticos decorrentes de construção de barragens, que impedem o fluxo normal de cursos d’água. Em função da altura das barragens, à semelhança dos casos anteriores, as represas podem também ser denominadas de lagos artificiais.

Estes ambientes artificiais podem ser construídos com diversas finaliades, tais como estabilização dos cursos dos rios, produção de eletricidade, irrigação, etc.

É comum, principalmente nas grandes represas, a ocorrência de duas circunstâncias ecológicas desfavoráveis àvida dos peixes: excesso de matéria orgânica na região inundada e a flutuação periódica de nível.

O excesso de matéria orgânica é representado principalmente pela vegetação terrestre, antes existente na região (matas, campos, culturas) as quais, após submersas, morrem e entram em decomposição, inicialmente aeróbica. Caso ocorra estratificação térmica, após o oxigênio dissolvido no hipolímnio haver sido totalmente consumido, a decomposição prosseguirá através de processos anaeróbicos, com consequente formação de gases tóxicos.

Já a flutuação periódica de nível éum fenômeno comum àquelas represas onde o fluxo de água periodicamente é menor que a vazão. Nestas ocasiões as águas baixam de nível, deixando a descoberto faixas de terra, dantes submersas. Se esta situação perdurar por longo tempo, ocorrerá o posterior retorno das águas da represa ao nível primitivo, aquela massa verde será submersa, morrerá e entrará em decomposição. Se, porém, a flutuação de nível for rápida, fato comum em pequenas represas, não haverá tempo suficiente para que aquela vegetação se desenvolva, em contra-partida, nesta nova situação outros fatos indesejáveis podem ocorrer, tais como a perda da desova de peixes que façam seus ninhos a pouca profundidade.

1.3.5 Elevado índice de carnívoros

A fauna carnívora-durante esta fase, uma fracção da fauna herbívora (microfauna e macrofauna) é consumida pela fauna carnívora, a qual compreende também os organismos inferiores, assim como os peixes vorazes.

A fauna herbívora, que escapa à fauna carnívora voraz, é reintroduzida no ciclo depois da sua morte graça à atividade bacteriana.

No âmbito da fauna carnívora, os organismos mais fracos ou menores formam, no estado vivo ou morto, uma parte da alimentação dos outros peixes vorazes.

Aqui, de novo, o ciclo biológico recupera, graças a mineralização, matérias nutritivas e energia proveniente da matéria animal morta.

A produção piscícola, quer seja ao nível da fauna herbívora ou da fauna carnívora, é função da multiplicação e desenvolvimento dos organismos vivos no decorrer das fases procedentes e é, então, necessariamente limitada pela importância do povoamento biológico da água.

O povoamento das represas com peixes que não podem nelas se reproduzir, requer a prática de sucessivos peixamentos, procedimento que só se justifica em caso de opulência. Assim mesmo, somente quando for possível e economicamente viável a reprodução em cativeiro e a criação de larvas e alevinos.

Portanto, a introdução de espécies de peixes nas represas nordestinas é recomendável: a) quando podem suportar as condições resultantes da estática das águas; b) quando podem colonizar nichos não ocupados por representantes da ictiofauna; e c) quando são economicamente superiores às espécies nativas de semelhante comportamento biológico. É necessário não esquecer o povoamento de camarões e peixes forrageiros, para aumentar os níveis de produção intermediária da água; do mesmo modo é importante controlar as populações de piranhas e pirambebas (Serrasalmidae) por meio da pesca seletiva.

1.3.6 Danificação do fundo pela canalização e/ou dragagam

A dragagem tem por finalidade limpar o fundo das áreas que foram assoreadas e limpar outras também, retirando entulhos, detritos, etc, que foram carreados para a bacia hidráulica da represa. Mas, em consequência, traz grandes prejuizos aos diferentes organismos que vivem, crescem e se multiplicam na água ou no fundo, pois estão estreitamente ligados entre si e constituem os elos duma cadeia que se chama o “ciclo alimentar”. Um organismo alimenta-se de outros organismos menores e serve ele próprio de alimento a outros organismos maiores. o peixe é um dos elos desta cadeia. Dragando-se um rio, lago ou uma represa, naquele local, está-se destruindo a produção primária, que éo primeiro elo da cadeia alimentar de uma biomassa existente num reservatório.

Mas a poluição por esgotos domésticos poderá aumentar a produtividade biológica das águas, visto contribuírem para uma maior produção planctônica nas mesmas.

Entretanto, se o afluxo de tais poluentes for muito intenso, o ambiente poderá se tomar incompatível à vida dos peixes, em decorrência de profundas alterações físicas, químicas e biológicas do “habitat”.

1.3.7 Processo acelerado de eutroficação

Graças a ação do ar, do sol e do calor a água constitui um meio favorável para o desenvolvimento de vegetais (micro e macro), que servem de alimentos a numerosos animais microscópicos ou não, quer diretamente, quer consumindo outros animais menores.

As quantidades e os tipos de organismos observados dependem da qualidade da água, em particular das suas características físico-químicas e das condições do meio ambiente.

Em geral, encontram, por filtragem especial, organismos muito pequenos que flutuam livremente na água e que constituem o que se chama de plâncton. O plâncton, formado por plantas que se desenvolvem a partir dos sais minerais contidos na água e a partir da luz do sol, chama-se fitoplâncton. O plâncton formado de pequenos animais chama-se zooplâncton. Em geral, o plâncton não pode ser visto a olho nu. Se o plâncton for abundante, dá à água uma cor mais ou menos verde ou mais ou menos castanha escura, conforme os organismos que o compõem.

No fundo da água desenvolvem-se organismos geralmente maiores do que os do plâncton e formam o que se chama de bentos. São sobretudo larvas de insetos, vermes, moluscos. Vivem na superfície do fundo ou na lama deste. Alimentam-se geralmente de matérias orgânicas.

Diversas plantas crescem no fundo, sobretudo perto das margens, onde a profundidade da água não é demasiada grande. Algumas, como os juncos, têm as raízes no fundo, mas crescem e florescem acima da superfície. Outras, como o pirrixio, têm folhas e flores que flutuam à superfície. Finalmente, outras vivem e florescem completamente debaixo da água.

Estas plantas, e também as pedras e os rochedos que estão na água, servem de suporte a diversos organismos que formam o que chamamos o perifiton e que são em geral algas, larvas de insetos e moluscos.

O processo acelerado de eutroficação dá-se na época invernosa, quando as cheias dos rios tributários desaguam na represa. Naquele fluxo d’água esta constituído todo o “ciclo alimentar” de diferentes organismos aquáticos.

1.3.8 Alterações dos parâmetros químicos e físicos da água (O2 dissolvido, CO2 livre, pH, temperatura, etc)

Características químicas-quimicamente as águas distinguem-se pelo seu teor em sais e gases dissolvidos.

A água das precipitações atmosféricas aproxima-se sensivelmente da água destilada. É em contato com o solo que dissolve os sais minerais com maior ou menor rapidez, consoante a sua solubilidade.

Os sais dissolvidos constituem a riqueza mineral da água e pode-se dizer que o valor piscícola duma água aumenta proporcionalmente em relação a sua diversidade e quantidade. É claro que existe limitação e salinidade para as águas doces.

O valor piscícola de uma água depende essencialmente da natureza do terreno com que a água está em contato.

1.3.8.1 Oxigênio dissolvido (O2 dissolvido)

Entre os gases dissolvidos, o oxigênio éo mais importante e absolutamente indispensável à vida da maioria dos organismos que vivem num tanque (peixes, insetos, algas, plantas superiores etc), o oxigênio provém da atmosfera ou das plantas verdes submersas; estas não libertam este gás senão durante o dia.

Assim, depois de uma noite quente, um tanque rico em algas, pode ficar desprovidos de oxigênio ao ponto de provocar a asfixia dos peixes, sabido que, nestas condições, a água se encontra com uma elevada percentagem de anidrido carbônico dissolvido, que é normal a fauna piscícola.

1.3.8.2 Gás carbônico (CO2 livre)

Seja no estado livre ou sob a forma de ácido fraco ou de bicarbonato, encontra-se na água em solução instável e, às vezes, sob a forma de carbonatos que precipitam, aliás muito pouco solúveis.

A mistura de um ácido fraco-como o gás carbônico-com os seus sais desempenha na vida dos organismos vivos e, portanto, na dos peixes, um papel muito importante.

Como para o oxigênio, os organismos e principalmente os vegetais têm uma ação primordial sobre a distribulção do gás carbônico pela assimilação clorifiliana e pela respiração.

Quer dizer, a distribuição do gás carbônico, insuficientemente estudado até hoje, deverá desempenhar um considerável papel na ecologia dos peixes.

1.3.8.3 O potencial hidrogeniônico (pH)

Duma água depende da natureza e quantidade das matérias dissolvidas e varia em função de numerosos fatores químicos e biológicos e está em estreita relação com as reservas alcalinas disponíveis e com o seu teor em CO2.

A melhor água para a cultura do peixe é a que possui uma reação ligeiramente alcalina, isto é, pH entre 7 e 8. Estes valores não devem ser inferiores a 4,5 –5,0 nem superiores a 8,0 embora exista espécies ictiológicas e planctonicas que os preferem.

Características físicas – sob o ponto de vista piscícola temos a considerar, como mais importante, a temperatura e a transparência.

1.3.8.4 Temperatura

A temperatura exerce uma profunda influência sobre a vida aquática e desempenha papel preponderante na multiplicação, respiração e nutrição dos peixes.

É necessário conhecer-se a temperatura no período de reprodução, uma vez que as exigências térmicas diferem segundo as espécies.

A temperatura tem influência preponderante no desenvolvimento dos micro e macroorganismos aquáticos e no crescimento dos peixes, sabido que cada espécie tem um intervalo térmico de maior ou menor amplitude.

lgualmente tem influência sobre o teor em oxigênio dissolvido e, por consequência, sobre a respiração dos peixes, dada a oxigenação da água depender de vários fatores, mais está, no entanto, em estrita ligação com a temperatura da água, sabido que, quanto mais elevada for esta, menos oxigênio dissolvido possui.

1.3.8.5 Transparência

A energia da vida aquática provém do sol, pelo que é necessário que a luz penetre na água em boas condições.

Esta penetração depende, entre outros fatores, do estado de turvação da água e é tanto mais diffcil quanto mais poluída se encontrar.

Se a diminuição da transparência é devida a abundància de plâncton a água é muito rica e a sua produtividade tende para o máximo. No entanto, as matérias orgânicas em suspensão, podem igualmente aumentar a turvação e, neste caso, não só a luz penetra dificilmente na água como, ainda, as partículas em flutuação podem acumular-se nas guelras ou brânquias originando, por asfixia, a morte dos peixes.

1.4 Melhoria das Condições Bio-Ecológicas

Segundo a natureza dos terrenos que atravessam, as águas piscícolas são mais ou menos ricas em substâncias nutritivas, o que condiciona uma produção maior ou menor de peixes.

O melhoramento racional da qualidade da água – como é o caso da piscicultura em tanques – pela utilização de adubo e estrumes – não é realizável nas águas correntes e sómuito excepcionalmente nas águas paradas naturais (lagos).

A compreensão dos fenômenos biológicos que se desenvolvem na água, assim como a interpretação da produtividade piscícola, não são possíveis sem que se conheçam os diferentes elementos, fases e transformações, que intervém no ciclo da vida aquática e conduzem ao estado final, o peixe.

Para se fazer uma mehoria nas condições bio-ecológicas de um ecosistema, seria necessário fazer: a) a proteção de lagos e alagadiços marginals da bacia hidrográfica; b) a preservação ciliar; c) o desmatamento da bacia hidráulica; d) a erradicação de espécies indesejáveis (piranhas e pirambebas: Serrasalmidae); e) o controle da vegetação aquática: flutuante, emersa e submersa; e f) a atenuação do impacto ambiental.

1.4.1 Proteção de lagos e alagadiços marginais da bacia hidrográfica

É muito importante a proteção dessas coleções d’água porque na ocasião das cheias os rios transbordam, principalmente nas zonas de correnteza mais branda, inundando regiões circunvizinhas. Terminando aquele perfodo, retornam a seus limites normais, permanecendo em alguns trechos, anteriormente inundados, coleções de água, denominadas “lagoas marginais” as quais, geralmente, são pouco profundas e muito ricas em nutrientes, apresentando grande produtividade biológica.

Tais ambientes são do suma importância para a perpetuação de espécie de peixes fluviais, porquanto ali seus alevinos terão condições de sobrevivência e desenvolvimento, muito superiores às existentes nos rios. Entretanto, para que tal ocorra, énecessário que estas lagoas mantenham um volume adequado de água, até serem atingldas novamente, pelas próximas cheias.

Outros tipos de ambientes lênticos poderiam ser ainda mencionados, tais como águas do tipo pantanoso, charcos, etc., caracterizados por elevadoteor de substânicas, orgânicas, águas temporárias, como os poços formados pelas chuvas e outras.

1.4.2 Preservação de vegetação ciliar

São florestas ciliares aquelas que se situam às margens dos rios e riachos nos solos de aluvião da região seca.

Essas florestas encerram representantes das florestas mega-térmicas e das florestas xerófilas, condicionado a maior ou menor abundância de umidade, de modo que a maior ocorrência de árvores de qualquer um desses tipos, revelará de imediato a abundência ou carência de recursos aquíferos no solo subjacente. a ocorrência de lençol d’água subterrânea poderá ser revelada pela vegetação que domina e nela poderão ser encontradas as árvores típicas de qualquer uma dessas duas primeiras formações florestais.

1.4.3 Desmatamento da bacia hidráulica

Apesar de ser muito despendiosa, envolvendo custos muito elevados para a erradicação total da floresta, é muito útil e necessário para se manter os estoques pesqueiros, o uso de aparelhos de pesca em condições normais e a navegação condincente.

A decomposição da floresta inundada ocasiona a exaustão do oxigênio dissolvido na água represada, e a maioria dos problemas limnológicos.

1.4.4 Erradicação de espécies indesejáveis

Os peixes teleósteos de água doce, reconhecidamente predadores e/ou indesejáveis, as piranhas (Gen. Serrassalmus Lacépede, 1803), pirambebas (S. rhombeus L., 1766) estão entre os principais e são os mais perigosos. Abundantes no NE brasileiro, especialmente nos estados do Ceará e Maranhão )Myers, 1949 a:80), encontram-se em rios, açudes, lagoas e poços. Dificultam o aproveitamento dequaelas áreas diferentes usos, pois predam peixes (inclusive praticando o canibalismo) e outros animais aquáticos, terrestre e algumas aves (patos, garças, etc). Atacam e masmo davoram o homem, extraçalham aparelhos de pesca (Braga, 1975).

A erradicação é feita primeiramente na bacia hidrográfica, eliminando todas as espécies de peixes existentes nos poços, bebodouros, cacimbas, etc…que permanecem no leito dos rios, em virtude de os mesmos serem intermitentes. Depois faz-se a erradicação na bacia hidráulica; sempre que se vai barrar um boqueirão para transformá-lo em um lago artificial (açude), acumula-se muita água no local de trabalho. É então nesta oportunidade que se aproveita para fazer a erradicação das espécies indesejáveis.

Os meios de combate são: a) timbó em pó (rotenona); b) explosivos (dinamite); c) explosicos + timbó em pó; d) escamas-peixe.

O controle e a erradicação de pirambebas e piranhas no NE brasileiro se justifica se justifica pela depredação que fazem estes peixes em aparelhos de pesca e pelos acidentes que provocam em pessoas e animais domésticos, e não pela responsabilidade que teriam na redução de populações de peixes. Os ataques a pessoas e a quaisquer outros vertebrados se dão principalmente em águas de reduzido volume (poços fluviais, lagoas, pequenos açudes), em que os cardumes são compactos e sofrem carência de alimento ou, ocasionalmente, até de espaço vital, sendo o maior número de acidentes e os mais graves, provocados principalmente pelas conhecidas “piranhas verdadeiras” (Braga, 1975).

1.4.5 Controle de vegetação aquática: fluente, emersa e submersa

A vegetação aquática pode facilmente proliferar nas águas troplcais estagnadas e portanto nas reservas de água onde se pretica a piscicultura. Contudo, ela tem menos importância na piscicultura intensiva do que na extensiva. Com efeito, a prática dos esvaziamentos periódicos permite controlar facilmente o crescimento dos vegetals, enquanto na piscicultura extensiva é raro poder-se fazer o mesmo. Por outro lado, as reservas de água onde se pratica a piscicultura extensiva são muito maiores que os viveiros, onde é muito mais fácil efetuar o controle de vegetação.

Os vegetais aquáticos classificam-se em: a) flutuantes-cujas rafzes estão na água e flutuam livemente á superfície, tiram os nutrientes básicos (fosfatos e nitratos) da água e cobrem a superficie, impedindo que os raios solares penetrem na coluna d’água. Enfim, as algas não podem sobreviver e se reproduzirem nos viveiros total ou parcialmente cobertos por estas plantas. A baronesa ou aguapé, Eichhornia, crassipes, e a alface de água, Pistia spp. São as mais comuns e mais prejudiciais plantas deste campo. Infelizmente nenhum peixe alimenta-se destas plantas. O piscicultor não deve permitir que estas plantas prolierem no viveiro. Porém em tanques de reprodutores de Chichlidae, em uma cobertura de 1/3 da área do tanque, ela tanto serve como abrigo aos peixes contra os pássaros predadores como sombreamento do mesmo; b) emersa e/ou emergente-crescem principalmente nos taludes dos viveiros. No caso de viveiros grandes, as plantas emergentes protegem os diques contra a erosão. Caso estas plantas ocupem grandes áreas dos viveiros, necessitam ser controladas. A carpa capim, Ctenopharyngodon idella (Cuv. & Val.), pode comer muitas destas plantas quando as folhas e ramos estão mergulhadas na água; por exemplo: Phragmites sp., Chara sp. e a Typha sp. e c) submersas e/ou demersas-quando a água do viveiro é muito clara e transparente as plantas submersas desenvolvem. Estas plantas são também produtoras de matérias orgânicas que armazenam em suas céulas e por isso proliferam rapidamente. Na maioria dos casos, esta produção é prejudicial à piscicultura pois estas plantas retiram rapidamente os materiais nutritivos (fosfatos e nitratos) da água. A carpa capim e o piau verdadeiro, Leporinus elongatus (Valencienes, 1849), alimentam-se dessas plantas, porém, seletivamente. Algumas espécies de tilápias também comem os brotos destas plantas. Somente a carpa capim grande (com mais de 300g) pode exterminar e controlar estas plantas. Em viveiros onde a transparência é baixa estas plantas não podem se desenvolver em grandes quantidades, como por exemplo: Miriophillum sp., Potamogeton sp., Elodea sp., e Cabomba sp..

A vegetação aquática pode ser controlada por três meios diferentes: a) por meio mecânico, erradicando a mão, é o meio mais simples e sem dúvida o mais econômico. É único aplicável em piscicultura intensiva; b) por meio químico de produtos de eficácia variável, cuja lista pode ser encontrada nas publicações especializadas. A maior parte desses produtos não são tóxicos, para o peixe, com a condição de não se ultrapassarem as doses prescritas, mas é preciso estudar o respectivo preço de custo; e c) por controle biológico que consiste em serem consumidas as ervas pelos animais selvagens e/ou pelos peixes.

1.4.6 Atenuação do impacto ambiental

O impacto ambiental provocado pelos projetos de aproveitamento de recursos hídricos é de tão grande monta que, no mundo inteiro, já se desenvolvem pesquisas, criam-se tecnologias e todo um grande esforço técnico é levado a efeito, com o objetivo de melhor avaliar as modificações ambientais causadas pelo barramento de um rio e consequente criação de um lago artificial.

De um modo geral, as avaliações constam de uma grande lista de itens de vantagens e desvantagens, aos quais se atribui pontos de uma escala. No final, faz-se um balanceamento dos dois lados para se verificar a conveniência ou não da execução do projeto.

Do ponto de vista do impacto à biologia, são realmente muito significativas as modificações provocadas pelo barramento do rio. Assim é que passa a existir um lago onde já foi caatinge, a umidade realativa do ar cresce muito em virtude da intensa evaporação da água represada; o rio à jusante, passa do regime de intermitência a perenidade; a barragem passa a obstacular fisicamente a passagem milenar das piracemas; a introdução de novas espécies gera uma crise de convivência com espécies nativas até que haja uma acomodação e a formação de novos nichos ecológicos.

O conhecimento detalhado das dificuldades criadas pela construção, gerou a necessidade da construção das obras ditas de engenharia pesqueira.

1.4.6.1 Construção de obras de engenharia pesqueira

O represamento dos rios dificultam ou impede as normais migrações dos peixes, contribuindo para a redução ou extermínio das espécies reofílicas, que necessitam da dinâmica fluvial para a reprodução.

As melhores perspectivas de expansão da produção de pescado de água doce se abrigam na maior exploração dos lagos e represas, estas de importância crescente. Em consequência, haverá o fornecimento dos peixes que preferem águas lênticas, não necessitando da dinâmica fluvial para que se reproduzam.

A fim de eliminar este problema, são construídos junto às barragens obras de engenharia pesqueira, para garantir aos peixes o acesso às áreas de reprodução, tais como escadas de peixes, eclusas, etc. E para impedir escama-peixes.

1.4.6.1.1 Estruturas para facilitar o acesso de peixes à represa

As condições de acesso para os peixes migradores de desova total, caracteristicamente potamodromas e com acentuado gonadotropismo, cuja reprodução está condicionada às enchentes dos rios e/ou riachos na época das cheias são através de: a) escada de peixe – a escada de peixe do açude de Mendubim, localizado no município de Açu, RN, compõe-se de 16 tanques superpostos com diferença de nível de 0,40m de um para outro, o que permite, na época de sangria, um contínuo fluxo d’água, em cascata, sem turbilhonamento. A altura total da escada é de 6,65m, com os tanques, apresentando 6,0m de largura e comprimento, variando entre 3,15m e 11,15m, sendo provida de um muro guia de 1,40m, construído em concreto (Gurgel et alii, 1977); e b) eclusas – a eclusa não é uma estrutura que objetiva facilitar a movimentação dos cardumes; seu objetivo é viabilizar a navegação, servindo para eliminar o problema, do desnível entre a barragem e o rio à jusante. É muito simples o seu funcionamento: compõe-se de um grande tanque de duas comportas independentes: uma pelo lado da represa e outra pelo lado do rio; para fazer a embarcação descer, fecha-se a comporta da barragem e abre-se a do rio, fazendo evacuar toda a água do tanque, até que a mesma chegue ao nível do rio, permitindo a saida da embarcação; operação inversa se faz para o barco subir para à represa; fecha-se a comporta do rio e abre-se o da represa; o nível do tanque subirá, até igualar-se ao nível da represa.

É pacífico então que os peixes de piracema aproveitam-se dessa movimentação para subir represa acima. Uma das mais famosas eclusas do mundo está no Canal de Panamá, que compensa a diferença de nível entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

1.4.6.1.2 Estruturas para impedir o acesso dos peixes à represa

Dentre os escama-peixes alguna estão situados nos sangradouros dos açudes e outros nos canais de fuga. De ambos os tipos, vários dos escama-peixes têm depressões no terreno imediatamente a jusante, nas quais fica acumulada água durante e por meses após as sangrias dos açudes. Constatou-se que, frequentemente, esses represamentos d’água constituem focos de Serrasalmus, por exemplo, temos o escama-peixe no açude “Cajazeiras” (Orós, Ceará), destinado a impedir acesso de pirambeba, Serrasalmus rhombeus, e tucunaré, Cichla ocellaris, no açude público “Orós” (Orós, Ceará); escama-peixe, tipo muro-guia, no canal de fuga do sangradouro do açude público “Sobral” (Sobral, Ceará); escama-peixe, tipo denteado, no sangradouro do açude “Riacho dos Cavalos” (Catolé da Rocha, Paraíba); e sangradouro vertedouro, com função também de escama-peixe no açude “Sohen” (Senhor do Bonfim, Bahia).

1.4.6.2 Introdução de espécies de valor comercial (balanceamento de populações)

As populações de uma reserva é equilibrada se fornecer todos os anos uma colheita satisfatória de peixes de tamanho comercial pertencendo a uma espécie economicamente válida.

A apreciação do equilíbrio de uma população faz-se por meio de uma percentagem de peixe comercial na população (define-se o tamanho do peixe comercial segundo as condições locais). Designaremos essa percentagem por coeficiente M.

Uma população é equilibradada se M se encontra entre os vlores 33 e 90. Há desequilíbrio se M estiver entre O e 40 (existe uma zona de incerteza entre 33 e 40). Os valores de M superiores a 85 denotam um excesso de peixes predadores.

A forma de equilibrar uma população precisa, naturalmente, partir do povoamento natural da reserva. Esse povoamento é proveniente do curso d’água onde se construiu uma barragem e pode fornecer uma população válida. Contudo, principalmente em se tratar de um curso de água pouco importante, esta população pode limitar-se a espécies de tamanho pequeno, incapazes de se adaptarem no novo meio constituído da reserva.

Neste caso, é preciso intervir e completar o povoamento natural (em certos casos, pode ser necessário destruir o povoamento natural antes de introduzir novas espécies): a) quer introduzindo uma espécie micrófaga ou omnívora; b) quer introduzindo uma espécie fitófaga (se houver muita vegetação); e c) quer introduzindo uma espécie predadora, se houver excesso de peixes pequenos, ou se quiser o peixe especialmente para a pesca esportiva.

As vezes é possível aumentar sensivelmente a produção das espécies. Em condições ecológicas determinadas, as produções quantitativas, qualitativas e econômicas podem alcançar maior ou menor nível segundo as espécies cultivadas e os métodos de explotação.

1.5 Referências Bibliográficas

Braga, R. A., 1975. Ecologia e Etologia de Piranhas no Nordeste do Brasil. (Pisces-Serrasalmus Lacepáde, 1803). Tese apresentada ao Instituto de Biociências da Universidade de Sã o Paulo, para obtenção do Título de Doutor em Ciências, Banco do Nordeste do Brasil. Fortaleza, 268 pp.

Duque, J. G., 1965. As Formas de Assistência aos lrrigantes. Bol. DNOCS Sér. Fomento e Produção. Fortaleza, vol. 23–№ s 13/14.

Gurgel, J.J.S. et aliL, 1977. A Escada de Peixes do Açude Público Mendubim (Açu. RN) e sua eficiência para a curimatã comum, Prochilodus cearensis (Steinadochner, 1911). Bol. Téc. DNOCS, Fortaleza 35 (1) : 51–60.

Myers, G.S., 1949a. The Amazon and it’s fishes. Part V: A monagraph on the piranha. Aquart. I. (Febr):52–61; March: 76–85, Chicago.

Nomura, H., 1976. Desenvolvimento atual e perspectivas futuras de piscicultura intensiva e extensiva no Estado de São Paulo. Ciên. Cult. São Paulo, 28(10): 1097–1107.

Paiva, M.P., 1986. Fundamentos da Administração Pesqueira, DF., Editema, 157 pp.

Fonte: http://www.fao.org/docrep/field/003/ab486p/AB486P01.htm