A rega

O regadio surge, na generalidade das condições edafo-climáticas do nosso país, como a única forma de ultrapassar a característica irregularidade pluviométrica (entre anos diferentes e ao longo do mesmo ano) e tirar partido do potencial de temperaturas e insolação de que dispomos, desde o período primaveril até ao final do Verão.
Na cultura do milho, o pleno aproveitamento das potencialidades e minimização dos condicionantes negativos, implica, na maior parte do contexto climático português, uma opção pelo regadio, que permite à planta uma expressão produtiva elevada e a desejada competitividade do seu cultivo.

 

1. CONCEITOS GERAIS:

O milho ocupa o primeiro lugar entre as culturas arvenses regadas em Portugal.
Com a rega, o produtor dispõe de uma importante ferramenta para tornar regular a produção das suas culturas, na condição de a gerir de uma forma correcta.
A cultura do milho é sensível ao stress hídrico a partir da fase das 10 folhas e até à fase caracterizada pelo estado pastoso do grão.
Se ocorrer “stress” durante o período de floração, o número de flores por espiga diminui e a sua fecundação é afectada, originando um menor número de grãos por m2.
Se ocorrer “stress” mais tardiamente, na fase de enchimento do grão, o peso médio dos grãos diminui.
A rega permite reduzir a variação interanual das produtividades, o que facilita o estabelecimento de uma conta de cultura previsional bastante aproximada da realidade e também uma aplicação de fertilizantes azotados adequada às necessidades da cultura:

· As necessidades de água da cultura do milho dependem das condições climáticas e o seu fornecimento pode ser planeado de modo a valorizar ao máximo os recursos de água disponíveis;
· A rega bem conduzida melhora a eficiência da adubação azotada. Um fornecimento de água correcto promove a absorção do azoto disponível (proveniente da mineralização da matéria orgânica e dos fertilizantes) e a sua utilização eficaz no fabrico de matéria seca,  permitindo produtividades ao nível dos objectivos propostos.
Se as características do solo forem bem conhecidas e o objectivo de produtividade estabelecido de forma realista, a rega permite gerir a adubação azotada, limitando os teores residuais de azoto no solo na altura da colheita.
· Uma cultura bem regada assegura uma disponibilização regular do azoto existente no solo durante a Primavera e o Verão. No entanto, uma má gestão da rega pode implicar dois riscos em relação à utilização do azoto, o primeiro inerente à lixiviação e perdas por escorrimento e o segundo, directamente decorrente deste, relacionado com o não atingir do objectivo de produtividade esperado.
É, pois, conveniente conhecer e dominar bem a situação, de forma a minimizar as perdas de nitratos devidas à infiltração excessiva e aos escorrimentos.

É particularmente necessário definir com rigor:

· A dotação de rega – função das condições de solo;
· As necessidades de água – função do clima, da produtividade esperada e do fase de desenvolvimento da cultura;
· As datas de início e de fim da rega – o desencadeamento ou uma paragem da rega demasiado precoce ou demasiado tardia podem provocar riscos, quer de lixiviação, quer de “stress” hídrico, penalizadores da produtividade a obter. A fixação da data de início e fim da rega deve ser estabelecida localmente, de acordo com as variedades de milho cultivadas, com o tipo de solo, e com o decorrer climático do ano.
· O objectivo de produtividade – deve estar baseado numa referência local, de modo a poderem definir-se produtividades coerentes com as potencialidades do solo, as disponibilidades de temperatura, as capacidades do sistema de rega e as disponibilidades hídricas do ano.

A rega é uma prática complexa, pois as quantidades correctas de água a fornecer ao solo e à cultura do milho, estão muito dependentes do modo como decorre o ano climaticamente (insolação, radiação, precipitação, etc…) e são, por isso, muito variáveis ano a ano.
O equipamento de rega terá que estar dimensionado de acordo com as necessidades da cultura, e adaptado a outras condicionantes ligadas às características do solo onde está implantado. A conjugação destes elementos, implica que os conselhos de rega a dar aos produtores de milho, devam ser baseados num conhecimento do solo e clima locais, e também em referenciais já existentes.

 

2. PRÁTICAS ACONSELHADAS:

· Estabelecer, consoante a origem da água (subterrânea ou superficial) e
a sua disponibilidade, uma estratégia de rega:
· se houver limitação de volume: estabelecer um calendário previsional enquadrando as fases mais sensíveis, fazendo recurso à utilização de contadores (conhecer os volumes aplicados face aos volumes previsivelmente disponíveis);
· se o débito (caudal) for limitante: começar suficientemente cedo para evitar uma degradação rápida das reservas do solo, continuando a regar em função do balanço hídrico e utilizando o melhor possível o débito disponível durante o período mais sensível (normalmente Junho, Julho e Agosto);
· se o recurso água for abundante: seguir um balanço hídrico e evitar dotações excessivas, prestando atenção ao estado hídrico do solo.
· Acompanhar o evoluir do estado hídrico do solo através de medições por tensiómetros ou outros medidores de humidade do solo;
· Aplicar em cada rega quantidades de água ligeiramente inferiores aquelas que o solo é capaz de armazenar. Deste modo, evitam-se as perdas por drenagem e escorrimento;
· Adaptar o ritmo de dotação-frequência das regas ao débito disponível, às condições climáticas verificadas, e à contribuição da água proveniente do solo (balanço hídrico, sistema de avisos local).
· Quantificar e gerir convenientemente as quantidades de água aplicadas, dominando todas as regulações e controlos do equipamento e material de rega;
· Procurar a melhor disposição dos equipamentos e adequar as suas regulações, de modo a garantir a melhor uniformidade possível na distribuição de água à parcela;
· Determinar a paragem da rega de acordo com o estado fisiológico da planta (no geral, maturação fisiológica ou “ponto negro”), das reservas de água existentes no solo e das necessidades de preparação da cultura que se seguirá ao milho;
· Ter em conta o impacto da rega sobre a fertilização e sobre o solo (ver capítulo da Fertilização Azotada);
· Tomar em consideração a interacção entre rega e o risco de salinização do solo, em condicionalismos a isso propícios.

3. PRÁTICAS A EVITAR:

· Evitar regar de forma sistemática, conduzindo a desperdícios de água, sem ter em conta a disponibilidade do recurso, os conselhos técnicos de especialistas, o sistema de avisos, a informação meteorológica e o estado hídrico do solo;
· Evitar aplicar quantitativos excessivos, não adaptados ao solo e à dotação de rega calculada, originando perdas por drenagem e escorrimento superficial;
· Evitar aplicar quantidades insuficientes, que podem causar “stress” hídrico e consequentes baixas de produção;

 

Fonte: http://www.anpromis.pt/iv.-a-rega.html