Raças

A raça-solução

Antes de tudo, é importante salientar que – num país com a extensão do Brasil – não pode haver uma “raça nacional”, como se pretendeu com os bovinos (obviamente, sem resultados positivos). Diz a Zoologia que “quem determina a expansão ou adequação de um ferramental biológico (o mesmo que “raça”) são as condições em que ele será criado”. Estas condições são os “generais da pecuária”: o clima, as distâncias, a fragilidade às doenças, etc. Ora, não pode existir uma raça que seja adequada a todo tipo de clima, ou das demais condições. Nenhuma raça consegue vencer todos os generais, ao mesmo tempo!

A Natureza não faz milagres, mas é sumamente justa, dando sorte igual a todos os organismos, segregando cada um junto com seus parceiros, nas mesmas condições. Isso quer dizer que, quando um criador encontra uma raça em algum lugar muito distante e diferente da zona de origem, pode ficar com as barbas de molho, pois estará sujeito a problemas na criação da mesma. Ele deve principiar sabendo que está tentando um caso de aclimatação ou adequação.

Assim, quando algum produtor afirma que “sua raça” adapta-se a qualquer condição, está apenas caprichando em Mercadologia e desprezando a Zootecnia. Ou seja, está tentando abrir mercado, passando por cima dos preceitos zootécnicos.

O Brasil está na faixa intertropical e qualquer raça que venha do Hemisfério Norte, ou do Hemisfério Sul, das regiões fora dos trópicos, não será tão bem sucedida como aquelas que vieram das faixas intertropicais. O movimento das espécies dá-se pela linha leste-oeste, tanto quanto o nascer e pôr do sol, tanto quanto a história do desenvolvimento das civilizações.

Isso quer dizer que o Dorper, uma raça que vem da África do Sul e que é formada pelo Dorset (que veio do Hemisfério Norte) não irá dar certo no Brasil? Nada disso. Sua imigração apenas determina que seja utilizada de forma conscienciosa, ou seja, respeitando suas exigências no duro clima tropical.

De fato, não se pode querer que o Dorper faça acasalamentos sob o sol, tanto quanto nenhuma raça européia de bovinos jamais o conseguiu (exceção para o Caracu, que foi climatizado durante mais de um século no país, engendrando progênies cada vez mais adequadas ao país). Pode ser que, daqui a muitos anos, o Dorper venha a apresentar alguns indivíduos adequados ao clima e, a partir deles, construa-se um novo biótipo. Supõe-se, todavia, que esse biótipo jamais venha a ostentar a pujança da carcaça do Dorper, como ele é. A Natureza não perdoa: quando o animal apresenta excelente carcaça (que indica um metabolismo ativo), será frágil quanto a outros fatores (Lei do equilíbrio universal). No final das contas, tudo se equilibra, pois essa é a Lei suprema. Então, não existem raças ruins e raças boas, apenas raças que se equilibram num determinado local, ou não. O criador moderno precisa saber então que deve equilibrar as diferentes raças, para tirar o melhor proveito possível delas.

A Zootecnia, portanto, preconiza que se importem, sim, as boas características de carcaça (ou de leite) para o Brasil, mas sabendo que elas devem ser incorporadas às raças tropicais por meio de cruzamentos programados.

O Dorper, então, como tantas outras raças bovinas, ovinas, caprinas, suínas, etc. – vindas do exterior – pode e deve ser utilizado em cruzamentos bem estudados. O Dorper é uma grande sugestão para aperfeiçoamento rápido dos ovinos criados em solo brasileiro, em termos de carcaça, composição muscular, aptidão maternal, etc.

O Dorper foi introduzido no Nordeste e já encontra criadores no Sudeste, Norte, Sul e Centro-Oeste; desde o semi-árido até a superúmido amazônia. Obviamente, encontrará mais condições de resposta imediata e direta no clima ameno brasileiro, do que no tórrido calor nordestino ou amazônico, onde deve ser bem empregado, sim, em cruzamentos.

Solução – Há muito tempo que se discute sobre o melhoramento ovino para carne e o Dorper surge como uma solução, ao mesmo tempo em que é aplaudido também em vários países.

De fato, o Dorper irá engendrar muitas novas “raças” ou ecótipos, pois esta é uma de suas funções. Cada região poderá adequar uma progênie ao Dorper e essa progênie (inicialmente, mestiça) poderá ser transformada em “raça” (que é uma decisão das pessoas, em uma associação) a qualquer momento.

O sangue Dorper, no entanto, como qualquer sangue de animal exótico (que veio de fora da área intertropical) sempre dará bons resultados por meio de cruzamentos inteligentes. Sua criação em forma de puro-sangue deverá consultar, antes, os “generais” para verificar a viabilidade do empreendimento.

Conclusão – O Dorper é raça para ser utilizada, e bem utilizada, com sucesso no Brasil. De algumas regiões poderão surgir puros para disputar uma fatia de mercado internacional. Já em todas as regiões poderá haver um notável incremento na produção de carne, via Dorper. Basta isso para justificar sua vitória e explicar os bons preços que tem obtido.

No futuro, provavelmente, a maioria das raças especializadas para carne, no planeta (e também no Brasil) poderá ter uma certa dose de sangue Dorper. Ela traz o futuro para mais perto.

Fonte: Revista o Berro n. 95

http://www.nogueirafilho.com.br/arquivos_artigos/dorper.htm