Sanitário

A prevenção dos vermes

Os animais acometidos pela verminose gastrintestinal apresentam pelo arrepiado e sem brilho, emagrecimento, diarréia; enquanto que os com verminose pulmonar, tosse, respiração acelerada e difícil.

Na maioria das situações, contudo, os animais têm vermes sem que mostrem qualquer sintoma. Mesmo nos que não apresentam sintomas, os vermes reduzem a ingestão e conversão dos alimentos, determinando atrasos no crescimento.

Pouco Conhecimento: Os estudos sobre as verminoses existentes no nosso país permitem que medidas preventivas possam ser introduzidas no manejo sanitário dos rebanhos de leite. Apesar disso elas não são rotineiramente incluídas entre as práticas sanitárias das propriedades e, quando são, geralmente não estão fundamentadas no conhecimento disponível.

Uma recomendação geral para controlar a verminose, aplicável a todas as regiões e condições de manejo, não pode ser formulada. Porém, os seguintes pontos básicos envolvendo os animais, a pastagem e os vermífugos podem ser utilizados para o delineamento de medidas a serem aplicadas em cada caso.

Vida Simples: Os vermes de bovinos têm um ciclo de vida simples, direto e rápido. No interior do tubo gastrintestinal ou nos pulmões vivem os vermes adultos: machos e fêmeas produzem centenas de ovos. Os ovos se desenvolvem e, em cinco a sete dias, chegam as larvas infectantes, que ficam disponíveis na superfície das folhas. Quando o bovino se alimenta, ingere com pastagem as larvas infectantes, que se desenvolvem até verme adulto, machos s fêmeas, no interior do tubo gastrintestinal ou nos pulmões, dando continuidade ao ciclo.

Bolos Fecais: O desenvolvimento das larvas infectantes no interior dos bolos fecais e a sobrevivência, persistência e migração dessas larvas nas pastagens depende dos fatores climáticos da região, principalmente da temperatura e umidade. Na maioria das nossa regiões existem dois períodos de disponibilidade de larvas.

As larvas infectantes dos vermes do tubo gastrintestinal ocorrem nas pastagens em menores quantidades nos meses mais secos do ano, quando as condições ambientais são desfavoráveis. Nos períodos chuvosos, a quantidade de larvas disponíveis nas pastagens é maior e, consequentemente, neste período, os animais são mais susceptíveis de apresentarem os sintomas da verminose.

Maneira Inversa: A disponibilidade de larvas infectantes de vermes pulmonares nas pastagens ocorre de maneira inversa aos vermes gastrintestinais. A maior quantidade de larvas infectantes na pastagem ocorre nos meses mais secos, na maioria das nossas regiões. Nesta época, os animais podem apresentar os sintomas da doença. Nos meses mais quentes e chuvosos, a quantidade de larvas dos vermes pulmonares é menor devido às altas temperaturas que prejudicam seu desenvolvimento.

Quando nascem, os bezerros ingerem o colostro, que confere resistência a agentes de doenças por algumas semanas. Durante os primeiros meses de vida, eles se alimentam principalmente de leite, ingerindo uma quantidade pequena de pastagens, logo, o número de vermes adultos nesses animais é geralmente baixo.

Número de Ovos: O acompanhamento de bezerros criados em sistema tradicional na Zona da Mata de Minas Gerais, desde o nascimento até o 6º mês de vida, mostrou que o número de ovos que os bezerros eliminam nas fezes vai aumentando gradativamente até atingir níveis máximos na 16ª semana de idade.

Nas primeiras semanas de vida os bezerros podem ser infectados por um tipo de verme gastrintestinal, o Strongyloides papillosus, cujas larvas são transmitidas pelo leite ou penetram pela pele. Entretanto, este verme só ocasiona problemas clínicos quando há um grande número no interior do tubo gastrintestinal dos animais, o que pode ser evitado se os animais forem mantidos em bezerreiros com boas condições higiênicas.

Categoria Sensível: Os bezerros nos primeiros quatro meses de vida são uma categoria sensível a verminose. Entretanto, a resistência conferida pelo colostro, a baixa ingestão de pastagem e consequentemente, de larvas infectantes, e a manutenção dos animais em bezerreiros limpos e secos, permitem que eles sejam incluídos nos programas de prevenção somente após esta idade.

Os animais de cria e recria (do quarto ao 24º mês de idade) são os que mais sofrem com a verminose gastrintestinal, pois nesse período, o efeito protetor do colostro terminou. Os bezerros precisam produzir sua própria resistência, o que nem sempre ocorre de forma efetiva para eliminar a maior proporção das larvas ingeridas.

Mais larvas: Esta categoria de animais, por ser mais sensível, permite que um número maior de larvas atinja o estágio de adulto, ocasionando sintomas clínicos. Assim, os animais desta faixa etária devem ser expostos a um grau de contaminação suficiente para produzir resistência, sem que haja interferência negativa na produtividade.

Um outro ponto a ser notado é que, como uma grande proporção das larvas ingeridas pode desenvolver-se até adultos, eles contribuem com a maior quantidade de larvas que contaminam as pastagens. A verminose pulmonar é mais comum em bovinos no primeiro ano de vida. Os animais que sobrevivem a primeira infecção ou que são acometidos por uma infecção branda desenvolvem um certo grau de resistência às reinfecções nos anos seguintes.

Queda da Resistência: Os animais adultos têm um grau considerável de resistência capaz de evitar que um grande número de larvas infectantes se desenvolvam até adultos. Esta resistência pode ser diminuida se ocorrerem condições que possam determinar baixa na resistência orgânica, tais como deficiência nutricional, stress e mesmo a ocorrência de outras doenças debilitantes. Cada verme fêmea produz centenas de ovos a cada dia, que são eliminados junto com as fezes para a pastagem. Uma certa proporção desses ovos desenvolve-se até larva infectante. Consequentemente, considerando toda a população de vermes (vermes adultos nos animais e larvas na pastagem), a grande maioria é composta pelas larvas nas pastagens. Logo, as medidas preventivas devem ser também direcionadas à redução do número de larvas na pastagem, pois o nível inicial de contaminação determina a gravidade da infecção, isto é, quanto maior o número de larvas ingeridas, maior a possibilidade do animal apresentar verminose clínica.

Principal Arma: As medidas de prevenção da verminose têm na aplicação de vermífugos a principal arma. Os estudos sobre a verminose no Brasil demonstraram que a aplicação estratégica de vermífugos, se concentrada na época seca do ano, contribui para prevenir casos clínicos, reduzir perdas subclínicas e diminuir a contaminação das pastagens.

A aplicação de vermífugos isoladamente propicia alívio temporário se o rebanho permanecer em uma área de pastagem contaminada, já que os vermes se desenvolvem em cerca de 21/28 dias após a ingestão das larvas. Neste caso, os animais rapidamente se reinfectam e o número de vermes pode retornar a níveis semelhantes aos que existiam antes do tratamento.

Controle estratégico: As aplicações estratégicas de vermífugos na época seca asseguram que a maioria dos vermes seja exposta a ação dos vermífugos, já que a reinfecção é reduzida nessa época. Elas devem ser delineadas considerando os pontos descritos acima, de modo a integrar as aplicações no animal com a higienização das pastagens.

O controle estratégico da verminose inclui vermifugações em épocas pré-determinadas de todos os animais de cria e recria, independentemente de apresentarem sintomas ou não. Os bezerros lactentes com menos de quatro meses de idade devem ser mantidos em currais limpos e em pastagens secas e de boa qualidade, sendo tratados quando ocorrerem casos clínicos. Animais adultos, incluindo as vacas em lactação, são vermifugados apenas se apresentarem sintomas da doença.

Descarte do leite: Na eventualidade de ocorrerem surtos em vacas em lactação, recomenda-se cuidados especiais para identificação das vacas vermifugadas e separação desses animais na linha de ordenha. O leite das vacas tratadas deve ser descartado, pois contém resíduos de vermífugos durante um número variável de dias, dependendo do princípio ativo e da formulação escolhida.

O controle estratégico com aplicações de vermífugos concentradas na época seca foi avaliado em vários experimentos no Brasil e mostrou eficiência. Esses esquemas consistem na aplicação de vermífugos no início, meados e final do período seco.

Estas aplicações atuam nos vermes do trato gastrintestinal da seguinte maneira: a primeira, no início do período seco, tem o objetivo de eliminar vermes que foram adquiridos pelos animais na época chuvosa precedente, evitando que os vermes cotinuem a eliminar ovos nas pastagens.

Ovos nas Pastagens: A segunda vermifugação, em meados do período, atua sobre os vermes adquiridos pelos animais durante as semanas que se seguiram a primeira vermifugação e que estariam contaminando as pastagens com ovos. Nesse período ainda existe umidade suficiente para permitir o desenvolvimento de uma proporção considerável dos ovos até a larva infectante. Além disso, eliminando os vermes, evita-se um competidor pela alimentação disponível para os animais, que geralmente é de baixa qualidade nos meses secos.

A terceira aplicação, no final do período seco, tem como finalidade eliminar algum verme adulto que exista no trato gastrintestinal dos animais. Com esta média evita-se que os ovos, que este pequeno número de vermes esteja eliminando, possam contaminar as pastagens no início da época chuvosa, quando as condições climáticas são ótimas para o desenvolvimento dos ovos. Essas aplicações, além de reduzirem o número de ovos que estão sendo adicionados à pastagem, fazem com que os animais, ao ingerirem o alimento contaminado pela pequena quantidade de larvas na época seca, promovam descontaminação, pois as larvas ingeridas são destruídas por ação dos mecanismos de defesa do animal e pelas aplicações dos vermífugos.

Quarta aplicação: Em rebanhos de leite, como os animais são geralmente de raças puras e seus cruzamentos são mais sensíveis, uma quarta aplicação de vermífugo geralmente é recomendada em meados do período chuvoso. Esta aplicação visa evitar o aparecimento de verminose clínica nessa época do ano, quando a quantidade de larvas nos pastos é maior. O uso contínuo das vermifugações estratégicas permite que o número de larvas nas pastagens decresça a níveis mínimos aceitáveis.

O uso de vermífugos na época seca foi avaliado no Centro Nacional de Pesquisa de gado de Leite – CNPGL e mostrou ser eficiente. Para o estudo foram utilizados 48 bezerros mestiços holandês-zebu, com idade variando entre 7 e 12 meses, divididos em quatro grupos de 12 cada.

Um dos grupos não foi vermifugado, o outro foi vermifugado no início e no final do período seco; um outro grupo foi vermifugado quatro vezes, três vezes na época seca (início, meado e final do período) e uma vez no meado do período chuvoso.

Retorno Econômico: Ao final de um ano de observação, verificou-se que as aplicações de vermífugos concentradas no período seco do ano proporcionaram um retorno econômico por capital investido semelhante ao grupo vermifugado a cada 28 dias. É importante notar que neste grupo os efeitos da verminose foram suprimidos, pois os animais que receberam vermífugos a cada 28 dias a população de vermes estava continuamente sendo eliminada.

Os dados obtidos para bezerros foram simulados para novilhas em crescimento e ficou evidente a superioridade do esquema de prevenção da verminose com aplicações de vermífugos concentrados nas épocas secas, também para esta categoria de animais.

Medidas de controle estratégico que possam ser aplicadas a prevenção de verminose pulmonar não foram extensivamente estudadas em nossas regiões. Experimentos realizados em outros países mostram que vermifugações repetidas a intervalos de duas a cinco semanas contribuem para o desenvolvimento de resistência a reinfecções.

Remoção dos Vermes: No esquema de controle estratégico para a verminose gastrintestinal recomendam-se três vermifugações na época seca. Nesse período, ocorre maior concentração de vermes pulmonares nas pastagens. Como estas aplicações promovem a remoção dos vermes após poucas semanas de exposição, elas podem contribuir com o desenvolvimento da resistência dos animais.

No CNPGL, o esquema de vermifugação concentrada na época seca do ano para prevenção da verminose tem sido usado em rebanhos criados a pasto e nenhum caso clínico de verminose pulmonar foi confirmado nos últimos anos. Vermifugações preventivas em sistema de produção de leite com animais criados em confinamento devem ser usadas quando os animais forem introduzidos no sistema. Esta recomendação se aplica também a animais que retornarem ao confinamento depois de um período de pastejo (exemplo: vacas secas).

Atenção ao Capim: Nesses sistemas de produção, atenção especial deve ser dada ao capim a ser oferecido aos animais. Se ele for produzido em campos fertilizados com adubação orgânica oriunda de dejetos bovinos, a ocorrência de verminose deve ser considerada sempre que animais apresentarem sintomas sugestivos. Bovinos criados em confinamento desde o nascimento têm pouca resistência a verminose e um pequeno número de larvas pode ser suficiente para causar surtos da doença.

Nos esquema de prevenção, deve-se dar preferência aos vermífugos de amplo espectro e nas dosagens recomendadas pelo fabricante. Para evitar que os animais sejam vermifugados com doses inadequadas, é recomendado que o rebanho seja dividido em grupos de animais de pesos semelhantes. Em seguida, o peso médio de cada lote é estimado para, então, a dose ser determinada. Esta providência evita que alguns animais recebam doses muito maiores do que precisam, enquanto outros recebam doses muito menores.

Situações Diferentes: A prevenção das verminoses gastrintestinais e pulmonares deve ser incluída entre as práticas de manejo sanitário dos rebanhos de leite. Não existe uma recomendação geral que possa ser aplicada em todos os sistemas de manejo e regiões. Entretanto medidas de controle baseadas no conhecimento disponível podem ser delineadas e devem visar a redução da população de vermes adultos nos animais e a higienização das pastagens.

Vermifugações em épocas pré-estabelecidas, aplicadas em animais de cria e recria no início, meados e final da época seca e meados do período chuvoso podem ser usadas, já que elas demonstraram eficiência. Essas vermifugações são usadas nas épocas em que as larvas de vermes gastrintestinais estão em menor número nas pastagens e os pulmonares em maior número, contribuindo para higienizar as pastagens e desenvolver resistência dos animais.

Fator de Risco: Os animais adultos são mais resistentes e precisam ser vermifugados apenas se apresentarem sintomas. A adubação com dejetos de bovinos em campos de produção de capim para corte deve ser considerada como um fator de risco ao aparecimento de surtos de verminose em animais confinados. Os rebanhos submetidos ao controle estratégico devem ser observados e tratados prontamente, na eventualidade de ocorrerem sintomas clínicos. Os vermífugos de amplo espectro, aplicados nas doses recomendadas pelos fabricantes, são os indicados para a prevenção e/ou tratamento dos animais.

Teresinha Padilha Charles – Pesquisadora – CNPGL
Artigo extraído do Anuário 98/99 do “Pardo-Suíço em Revista”.
Fonte: Assoc. Bras. Criadores de Gado Pardo-Suíço

http://www.portalruralsoft.com/manejo/manejoExibe.asp?id=36